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Casarão histórico da Udesc é entregue após restauro que revelou pinturas murais e novas camadas de história

Após mais de dois anos de obras, o Casarão histórico da Udesc, conhecido como Casa Rosa, foi entregue no Centro de Florianópolis com pinturas murais, elementos arquitetônicos e outras marcas do passado recuperados. O imóvel, que abriga o Instituto de Documentação e Investigação em Ciências Humanas (IDCH), volta a uma nova etapa de uso ligada à preservação de acervos, à pesquisa e à memória da universidade e da capital catarinense.

Localizado em frente à Praça Getúlio Vargas, o prédio passou por um trabalho minucioso de restauração que revelou diferentes fases de sua história. Entre os elementos encontrados estão pinturas florais, frisos decorativos, efeitos que imitam madeira e mármore e fragmentos de papéis de parede ornamentais, alguns preservados desde períodos antigos da construção.

RESTAURO REVELOU PINTURAS ESCONDIDAS NAS PAREDES

As prospecções realizadas durante a obra identificaram pinturas murais em seis salas. Em determinados pontos, foram encontradas até cinco camadas de tinta sobre o reboco de cal, mostrando como os ambientes foram modificados ao longo das décadas.

Na primeira sala, os especialistas localizaram uma composição com rosas vermelhas, lírios azuis e folhas verdes, além de um fundo verde-claro com desenhos em espiral.

Outros ambientes apresentaram pinturas em tons de azul, ocre e vermelho-bordô. Na sala 5, a equipe encontrou fragmentos de papel de parede com motivos coloridos e arabescos dourados, além de uma pintura que reproduzia a aparência do mármore.

Como parte dos vestígios apresentava risco de desprendimento, foram realizadas intervenções emergenciais para estabilizar os fragmentos ainda durante a etapa de investigação.

A proposta não foi refazer elementos que haviam desaparecido, mas preservar os registros encontrados e manter visíveis as diferentes fases pelas quais o imóvel passou.

“Eu não sou o artista da época. Sou apenas alguém que faz reviver as pinturas artísticas, que traz para o dia de hoje a valorização das artes de um tempo pretérito”, resume a restauradora e arquiteta Márcia Regina Escorteganha.

TÉCNICA MINUCIOSA PRESERVOU CAMADAS ORIGINAIS

A recuperação das pinturas exigiu procedimentos de alta precisão. Em alguns trechos, as camadas mais recentes de tinta foram retiradas manualmente com bisturi.

O método permitiu avançar milímetro a milímetro sem comprometer os pigmentos mais antigos. O trabalho também revelou elementos que não poderiam ser identificados apenas pela observação da superfície atual.

“À medida que vou desvendando camada a camada surgem sempre novidades e surpresas”, relata Márcia.

A restauradora explica que o procedimento exige concentração constante para evitar danos aos registros históricos.

“É um procedimento quase cirúrgico, precisa muita concentração e habilidade para não danificar a camada original. Tem que ter foco, saber o que está fazendo para tirar camada a camada de repintura e revelar os traços originais da pintura”, explica Márcia.

CASA ROSA AJUDA A CONTAR A HISTÓRIA DE FLORIANÓPOLIS

Além dos elementos artísticos, o próprio casarão é considerado uma referência para compreender a formação urbana de Florianópolis.

O arquiteto e professor Alberto Lohmann, coordenador de Engenharia de Projetos e Obras da Udesc, explica que a construção está relacionada ao modelo das antigas chácaras que ocupavam áreas então mais afastadas do núcleo central da cidade.

A proximidade com a antiga Chácara de Espanha e com outros imóveis históricos próximos à Praça Getúlio Vargas reforça a importância do conjunto para a paisagem urbana da capital.

“O que a gente tem aqui é um conjunto histórico importante para Florianópolis”, afirma.

O imóvel também está diretamente ligado à trajetória da Udesc. O espaço esteve associado aos primeiros períodos da Escola Superior de Administração e Gerência (Esag) e da então Faculdade de Educação (Faed), quando a universidade consolidava sua presença na região central.

IMÓVEL TEM HISTÓRIA LIGADA À ORIGEM DA UDESC

O primeiro registro conhecido da Casa Rosa é de 1877. A partir de 1883, o imóvel passou a pertencer à família Wendhausen, que promoveu uma ampla reforma na década de 1890.

A intervenção incorporou características dos estilos eclético, neoclássico e art nouveau. O imóvel permaneceu com a família até 1933 e posteriormente passou por outros proprietários.

Em 1965, deixou de funcionar como residência e passou a ter uma trajetória relacionada à educação superior em Santa Catarina, abrigando a Escola Superior de Administração e Gerência e, posteriormente, atividades vinculadas à Udesc Faed.

O casarão foi tombado como Patrimônio Histórico e Artístico de Florianópolis em 1986. Em 2012, tornou-se sede do IDCH/Faed/Udesc, concentrando acervos relacionados à história e à cultura catarinense.

MEMÓRIAS DE QUEM VIVEU NO CASARÃO TAMBÉM FORAM PRESERVADAS

A importância da Casa Rosa não está restrita aos documentos históricos ou às características arquitetônicas. O imóvel também reúne lembranças de pessoas que acompanharam diferentes períodos de sua ocupação.

Uma delas é Rita de Cássia Silvano, de 63 anos, técnica da Udesc há 47 anos. A relação dela com o prédio começou ainda na infância, quando tinha cinco anos.

Na época, seus pais administravam o restaurante que funcionava no porão do imóvel, então ocupado pela antiga Esag. Rita cresceu circulando pelos ambientes e acompanhando a rotina de estudantes e funcionários.

“Eu nasci e cresci aqui. Eu brinquei por essa casa toda”, conta.

As lembranças incluem a mãe preparando refeições no porão, os estudantes da antiga escola e os espaços utilizados pela direção da instituição.

A relação com o imóvel permaneceu ao longo das décadas.

“Eu amo, eu sou apaixonada por essa casa. Aqui é minha vida”, resume Rita.

RESTAURO RECUPERA ESPAÇO PARA ACERVOS HISTÓRICOS

Com a conclusão da obra, o casarão volta a ser preparado para receber os acervos do IDCH. A expectativa é ampliar as condições de guarda, consulta e pesquisa dos documentos reunidos pelo instituto.

Segundo a historiadora Cristiani Bereta, coordenadora do IDCH, o conjunto inclui materiais relacionados à história de Santa Catarina, intelectuais, cultura política, trajetória histórica e redes de sociabilidade.

Entre os documentos estão acervos ligados a nomes como Walter Piazza, Salim Miguel e Eglê Malheiros, além de materiais provenientes de arquivos da penitenciária.

A relevância dos conjuntos, segundo Cristiani, depende também das questões investigadas por cada pesquisador.

“O nosso acervo aqui é todo relevante. O pesquisador vai encontrar realmente, se ele estiver procurando”, explica.

Parte dos documentos já está novamente no imóvel, o que permite que consultas possam ocorrer antes mesmo da inauguração oficial, mediante contato com a equipe responsável.

RESTAURAÇÃO PRESERVOU MARCAS DE DIFERENTES ÉPOCAS

Para Cristiani, acompanhar o trabalho permitiu observar diretamente a transformação do prédio e a recuperação de elementos que ajudam a interpretar sua história.

As pinturas e as sucessivas camadas identificadas nas paredes estão entre os achados que mais chamaram a atenção durante o processo.

“Tem camadas do século XIX e do século XX, desde 1870. É um trabalho técnico fantástico e que deixa a gente bastante emocionada”, conta.

A diretora-geral da Udesc Faed, Claudia Mortari, também destacou o caráter coletivo da recuperação do imóvel, iniciada em diferentes gestões da unidade.

“Não é uma conquista da direção. É uma conquista da Faed, das diferentes gestões e de todos que trabalharam para tornar possível a reforma e o restauro da casa”, afirma.

Para ela, as marcas preservadas nas paredes representam diferentes períodos da história do imóvel e abrem uma nova fase, marcada pela reorganização do acervo e pela retomada das atividades de pesquisa e acesso à comunidade.

OBRA FOI INICIADA APÓS PROBLEMAS ESTRUTURAIS

O projeto de recuperação do prédio histórico começou durante a gestão de Celso Carminati e era aguardado desde 2009.

Em 2019, problemas estruturais foram identificados no imóvel. Dois anos depois, em 2021, o casarão precisou ser interditado.

Com a suspensão do uso do espaço, os acervos e outros materiais de pesquisa foram transferidos temporariamente para outro endereço, na Rua Lauro Linhares, nº 2.055, Sala 602, Torre Flora, no bairro Trindade, em Florianópolis.

A restauração concluída em 2026 permite agora o retorno do IDCH à Casa Rosa e a retomada gradual das atividades no endereço histórico.

CASA ROSA DEVE VOLTAR A RECEBER O PÚBLICO

A entrega da obra marca o fim da etapa principal de restauração, mas o espaço ainda passa por ajustes para voltar a ser utilizado de maneira plena.

A intenção é que a Casa Rosa seja aberta ao público até o início de 2027. A retomada deve aproximar novamente pesquisadores, acervos e comunidade de um imóvel que reúne patrimônio arquitetônico, história institucional e memória urbana.

A restauradora Márcia Regina Escorteganha pretende continuar acompanhando a conservação das pinturas nos próximos anos.

“Essa casa tem história. Essa casa conta os caminhos, os trajetos das pessoas de Florianópolis, das pessoas de Desterro antigamente. Ela está na frente de uma praça maravilhosa que é um marco histórico. E aí tu tens essas casas, elas contam sobre a nossa cidade, dão identidade”, celebra.

A obra teve custo de R$ 2.488.256,36. Com o restauro concluído e o IDCH de volta ao imóvel, a Casa Rosa entra em uma nova fase de preservação, pesquisa e acesso ao patrimônio histórico de Florianópolis e de Santa Catarina.


Com informações de UDESC