Florianópolis recebe nesta semana uma etapa experimental do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, previsto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2028. A capital catarinense foi escolhida para representar a região Sul no projeto piloto, que também envolve outras quatro capitais brasileiras.
A iniciativa busca colocar à prova os métodos que serão utilizados na pesquisa oficial e identificar possíveis dificuldades antes da realização do levantamento em todo o país. O trabalho também pretende reunir informações capazes de ajudar na elaboração de políticas públicas voltadas à população em situação de rua.
A operação ocorre principalmente durante a noite, período em que os pesquisadores conseguem encontrar uma parcela maior desse público. Para realizar as atividades, o IBGE conta com o suporte de equipes da Prefeitura de Florianópolis e de instituições que já trabalham diretamente com pessoas em situação de rua.
FLORIANÓPOLIS REPRESENTA A REGIÃO SUL
Além da capital catarinense, o projeto piloto é realizado em Manaus, no Norte; Salvador, no Nordeste; Belo Horizonte, no Sudeste; e Goiânia, no Centro-Oeste.
A escolha das cidades levou em consideração critérios técnicos, entre eles a circulação de pessoas provenientes de diferentes regiões. No caso de Florianópolis, fatores como as características insulares do município, a mobilidade e a sazonalidade provocada pelo turismo também pesaram na seleção.
Segundo o superintendente regional do IBGE, Roberto Kern Gomes, Florianópolis “foi escolhida por sua peculiaridade insular, características de mobilidade e sazonalidade do fluxo migratório associado ao turismo”.
A escolha ganha ainda mais relevância diante do cenário migratório de Santa Catarina. Conforme os dados do último Censo Demográfico, realizado entre 2022 e 2023, o Estado apresentou o maior crescimento relacionado à migração populacional no país.
TESTE VAI AVALIAR ABORDAGEM E QUESTIONÁRIOS
Mais do que contabilizar pessoas, a operação experimental pretende verificar se a metodologia consegue produzir um retrato mais amplo da população em situação de rua.
Durante o trabalho, os pesquisadores avaliam desde a identificação dos pontos de permanência e circulação até a abordagem e realização das entrevistas. Também são testados os questionários eletrônicos e os sistemas utilizados pelas equipes em campo.
O levantamento busca compreender aspectos da trajetória dessas pessoas, como origem, deslocamentos, vínculos familiares, fontes de renda e outras características sociais.
O superintendente regional Roberto Kern Gomes explica que o evento teste pretende “verificar porque as pessoas estão na rua, se têm algum tipo de renda, contato com familiares, entre outros aspectos”.
Para o gerente de planejamento do Censo, Bruno Mandelli, a etapa experimental é importante para medir a eficiência de uma pesquisa que envolve uma operação de grande porte e custos elevados.
“O objetivo é conseguir aplicar formulários e fazer entrevistas, ou ao menos identificar as pessoas. A ideia é apurar trajetos de vida, de migração e até aspectos relacionados à saúde”, diz Mandelli.
CENSO OFICIAL ESTÁ PREVISTO PARA 2028
A prova piloto funciona como uma preparação para o primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua. Antes da operação oficial, o IBGE utiliza essa fase para identificar falhas, aperfeiçoar os procedimentos e avaliar se os instrumentos de coleta funcionam adequadamente nas condições reais encontradas pelas equipes.
A expectativa é que os dados produzidos pelo futuro censo contribuam para o planejamento de políticas públicas de médio e longo prazo. Com informações mais detalhadas sobre o perfil e a distribuição dessa população, governos poderão ter mais elementos para estruturar ações de atendimento, proteção e inclusão social.
SC JÁ TEM LEI PARA CADASTRAR POPULAÇÃO DE RUA
Enquanto o IBGE prepara o levantamento nacional, Santa Catarina também avançou na criação de mecanismos próprios para reunir informações sobre pessoas em situação de rua.
A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou um projeto que deu origem à Lei Estadual nº 19.380/2025. A legislação criou o Cadastro Estadual de Pessoas em Situação de Rua, com a finalidade de apoiar a formulação e o acompanhamento de políticas públicas destinadas a esse grupo.
Entre os objetivos estão o fortalecimento do atendimento, o encaminhamento para serviços, a reinserção social e o amparo às pessoas em situação de rua. O cadastro também deverá reunir informações sobre perfil social, histórico, condições de saúde e localização.
A gestão do sistema ficará sob responsabilidade da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP). Sempre que possível, os dados deverão ser integrados ao Cadastro Único (CadÚnico) do governo federal.
A legislação determina ainda que o tratamento das informações siga as regras estabelecidas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
AUDIÊNCIAS DISCUTEM CRESCIMENTO NO ESTADO
O tema também vem sendo acompanhado pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina por meio da Comissão de Direitos Humanos. Desde 2021, o colegiado promove audiências públicas para discutir a realidade da população em situação de rua no Estado.
Levantamentos apresentados no debate apontam um aumento expressivo desse público. Entre 2021 e 2023, a estimativa indica crescimento de 76% em Santa Catarina, ultrapassando a marca de 10 mil pessoas.
Nesse contexto, o teste realizado em Florianópolis representa uma etapa importante para aprimorar a forma como essa população é identificada e estudada. A expectativa é que a experiência ajude a aperfeiçoar a metodologia que será aplicada nacionalmente em 2028.
Co informações de Agência ALESC