Quinta-feira, 3 Setembro , 2026
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SC teve 28 feminicídios somente no primeiro semestre de 2026; dados expõe urgência de prevenir a violência contra mulheres

por Duda Amaral
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criança de costas sentada sozinha

Os números do feminicídio em Santa Catarina ajudam a dimensionar uma realidade que vai muito além das estatísticas. Em 2025, 52 mulheres foram assassinadas no Estado em crimes classificados como feminicídio. Até junho de 2026, já eram 28 casos.

Por trás desses números estão histórias de violência que, muitas vezes, poderiam ter sido interrompidas antes de chegar ao desfecho mais extremo. Por isso, enfrentar o feminicídio exige fortalecer a prevenção, ampliar o acesso à rede de atendimento e garantir proteção efetiva às mulheres em situação de risco. Exige também considerar o que acontece depois do crime e oferecer suporte a quem precisa conviver com suas consequências.

Esse impacto se estende a filhos, pais, irmãos, amigos e outros familiares que também têm suas vidas transformadas pela violência. Entre os mais vulneráveis estão crianças e adolescentes que perdem suas mães e, em alguns casos, presenciam o assassinato. Além do luto, eles podem precisar lidar com o trauma da violência e com a prisão do próprio pai ou de outro agressor próximo à família.

No Brasil, uma mulher é vítima de feminicídio, em média, a cada 5 horas e 25 minutos. Na maioria das ocorrências, o autor é alguém próximo da vítima, como marido, namorado ou companheiro.

A história de Joviana Evelyn Iankovski, de 19 anos, é um dos exemplos recentes dessa realidade em Santa Catarina. A estudante de Ciências Biológicas foi encontrada morta na casa do namorado, em Sangão, no Sul do Estado.

SONHOS INTERROMPIDOS PELA VIOLÊNCIA

Joviana tinha uma vida planejada pela frente. Pretendia cursar Ciências Biológicas na Unesc, conhecer diferentes lugares, fazer um mochilão e participar de trabalhos voluntários na África.

Entre livros, filmes, estudos sobre política e história, construía uma trajetória marcada pela curiosidade e pela vontade de conhecer o mundo. Para as amigas, era uma jovem livre, gentil e cheia de sonhos.

Essa história foi interrompida de maneira brutal.

O namorado, José Gustavo Rabelo, de 21 anos, confessou o crime e foi preso. Conforme a investigação, ele declarou que matou a jovem após um desentendimento entre os dois.

A mãe de Joviana procurou a Polícia Militar depois de desconfiar de mensagens enviadas pelo celular da filha. A estudante havia sido vista pela família pela última vez na quinta-feira, 6 de agosto. No dia seguinte, foi encontrada morta.

O caso mostra como, por trás de uma estatística, existe uma pessoa com projetos, relações e uma família que precisará conviver com a ausência.

E o impacto não termina no momento em que o crime acontece.

QUANDO OS FILHOS TAMBÉM SE TORNAM VÍTIMAS

A morte de uma mulher provoca consequências que podem atravessar gerações. Para crianças e adolescentes, o impacto pode ser ainda maior quando a vítima é a mãe e o autor da violência é alguém que fazia parte do círculo familiar.

Em Imbituba, no Sul de Santa Catarina, uma criança de 11 anos presenciou a morte da própria mãe. Viviany Souza, de 47 anos, foi esfaqueada pelo companheiro, de 63 anos, dentro da residência do casal, no dia 3 de agosto.

O menino precisou ser atendido pelo Conselho Tutelar. A ocorrência também mobilizou equipes das polícias Militar e Civil e da Polícia Científica.

A situação evidencia que crianças podem ser profundamente atingidas pela violência mesmo quando não sofrem uma agressão física. Elas podem perder a mãe, mudar de rotina, enfrentar dificuldades financeiras e familiares e ainda precisar lidar com o trauma de ter presenciado ou descoberto a violência.

Outro caso que permanece na memória de uma família é o da professora Patrícia Vicente, de 43 anos. Em julho de 2020, ela foi encontrada morta no porta-malas do próprio carro, em São José, na Grande Florianópolis. O caso foi tratado como feminicídio e teve o então namorado da vítima como autor.

Seis anos depois, as consequências continuam presentes na família.

A VIOLÊNCIA PODE COMEÇAR MUITO ANTES DO ASSASSINATO

O feminicídio frequentemente representa o estágio mais extremo de uma sequência de violências. Antes de uma mulher ser assassinada, podem existir ameaças, perseguições, agressões físicas, controle, humilhações e violência psicológica, patrimonial ou sexual.

É justamente nesse período que a prevenção pode fazer diferença.

A Lei Maria da Penha, criada em 2006, estabeleceu mecanismos para enfrentar a violência doméstica e familiar contra a mulher. Entre os instrumentos previstos estão medidas protetivas e outras ações destinadas a afastar o agressor e preservar a segurança da vítima.

A lógica é interromper a violência antes que ela evolua para consequências ainda mais graves.

Por isso, ameaças e agressões não devem ser tratadas como simples conflitos de relacionamento. O reconhecimento dos sinais, a denúncia e o acesso à rede de proteção podem ser decisivos.

Também é importante que familiares, amigos e pessoas próximas estejam atentos. Em situações de violência, a vítima pode ter medo de procurar ajuda, especialmente quando o agressor ameaça pessoas próximas ou controla sua rotina.

SANTA CATARINA BUSCA IDENTIFICAR OS ÓRFÃOS DO FEMINICÍDIO

O impacto sobre crianças e adolescentes que perdem as mães para o feminicídio também começa a ganhar mais atenção em Santa Catarina.

O Ministério Público de Santa Catarina e a Polícia Científica iniciaram um trabalho para identificar crianças e adolescentes que ficaram órfãos após feminicídios.

Ainda não existe no Estado um levantamento consolidado capaz de apontar quantos filhos foram diretamente afetados por essas mortes. Sem esse diagnóstico, também fica mais difícil dimensionar a necessidade de políticas públicas específicas.

A identificação dessas crianças pode ajudar a compreender quais são as principais demandas após o crime.

Além do luto, elas podem precisar de acompanhamento psicológico, mudanças de residência, apoio financeiro e suporte durante processos judiciais que podem se estender por anos.

Reconhecer essas crianças como vítimas indiretas da violência é, portanto, parte importante do enfrentamento ao feminicídio.

UMA FAMÍLIA QUE CONTINUA VIVENDO COM A AUSÊNCIA

A história de Patrícia Vicente ajuda a revelar uma dimensão ainda mais profunda desse problema.

A filha, Pabliane Beatriz, transformou a própria experiência em um alerta sobre os sinais que antecederam a morte da mãe e sobre as consequências que permanecem anos depois.

“Ele não tirou só a vida dela. Tirou a nossa também”

Patrícia tinha 43 anos e sonhava em se tornar professora. Era descrita pela filha como uma mulher alegre, que gostava de sair, encontrar amigas e construir seus projetos.

“A mãe era uma mulher alegre. Gostava de sair, encontrar as amigas e, aos poucos, construir o sonho de se tornar professora. Era uma mulher jovem com uma vida inteira pela frente. Mas uma dessas saídas mudou para sempre a história da família.”

O relacionamento com o homem que posteriormente a matou começou depois que ele se apresentou com uma identidade falsa. Segundo o relato da filha, inicialmente parecia ser uma pessoa confiável e passou a acompanhar Patrícia em festas e outros momentos.

Pouco tempo depois, os dois começaram a namorar.

Um mês mais tarde, Patrícia descobriu a verdadeira identidade do companheiro. Também veio à tona um histórico de violência: segundo Pabliane, havia 37 boletins de ocorrência relacionados a agressões.

Quando o homem percebeu que a companheira sabia sobre seu passado, as ameaças começaram. Patrícia queria terminar o relacionamento, mas, conforme o relato da filha, ele não aceitava a separação.

A mudança no comportamento da mãe começou a chamar a atenção da família.

“Tu muda, tu vê a mudança da mulher. Ela tinha um sorriso no rosto e, de repente, aquele olhar começa a ficar apagado.”

Patrícia deixou de sair como antes, demonstrava medo e apresentava marcas no corpo. Até o trabalho foi afetado.

A filha tentou insistir para que ela procurasse ajuda.

— Mãe, denuncia.

A resposta era sempre parecida:

— Filha, a mãe tenta.

O medo, no entanto, não atingia somente Patrícia. Conforme o relato de Pabliane, o agressor também fazia ameaças aos familiares e demonstrava conhecer os horários e os deslocamentos da vítima.

Em determinado momento, chegou a telefonar dizendo que estava dentro da casa dos pais dela.

A família passou a buscar ajuda por conta própria. Segundo Pabliane, quando procurou a polícia, ouviu uma resposta que ficou marcada na memória: de que, em algumas situações, “tinha que acontecer o pior” para que alguma providência fosse tomada.

Cinco meses depois, o pior aconteceu.

A NOITE EM QUE A FAMÍLIA DESCOBRIU A VERDADE

Era 10 de julho de 2020.

Pabliane saiu para trabalhar por volta das 5h20. Antes de deixar a residência, percebeu que o carro da mãe não estava na garagem.

Horas depois, a preocupação aumentou.

Patrícia não havia aparecido para tomar café com a avó, não tinha ido trabalhar e também não havia almoçado. O telefone estava desligado e o carro continuava desaparecido.

A família começou a buscar imagens de câmeras de segurança para tentar reconstruir os últimos momentos da mulher.

Foi em uma dessas gravações que Pabliane viu uma cena que mudaria sua vida.

Durante a madrugada, um homem apareceu carregando Patrícia, enrolada em um cobertor. O cabelo dela ficava para fora.

Ele colocou o corpo no porta-malas do veículo, voltou para dentro da casa, recolheu os pertences da vítima e deixou o local.

A família iniciou uma busca por hospitais, delegacias e imagens de segurança. Procurou reconstruir os passos de Patrícia e encontrar qualquer informação que pudesse ajudar na investigação.

O corpo acabou localizado dentro do porta-malas do carro, em um supermercado no bairro J. Vargas.

O suspeito fugiu, mas foi preso dois dias depois, em Florianópolis.

A partir daquele momento, Pabliane passou a reunir mensagens, imagens, registros e outras informações que pudessem contribuir para esclarecer o crime.

Nada disso, entretanto, poderia devolver a mãe.

“Ele levou a nossa mãe”.

O FEMINICÍDIO CONTINUA DEPOIS DO CRIME

Para a família de Patrícia, o assassinato não ficou no passado.

A perda provocou consequências emocionais profundas entre filhos, netos e pais da vítima. O avô entrou em depressão e morreu posteriormente. A avó sofreu três AVCs e atualmente enfrenta um quadro avançado de Alzheimer.

Os netos também cresceram convivendo com a ausência.

Embora fossem pequenos quando perderam a avó, guardam lembranças dela e fazem perguntas sobre o que aconteceu.

Entre elas, existe uma especialmente difícil:

“Por que ninguém ajudou?”

As filhas precisaram buscar acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Pabliane relata que passou a conviver com o medo em situações cotidianas.

“Eu não sei mais o que é andar na rua sem ter medo. Eu não sei mais o que é dormir dentro de casa sem ter medo. Eu não sei mais o que é levar um filho para a escola e confiar. A gente não tem mais tranquilidade.”

O impacto também aparece em algo menos visível: a perda da sensação de segurança.

“Ele levou até a parte da inocência da gente de acreditar em algo bom.”

Patrícia não conseguiu realizar o sonho de ser professora. Segundo a filha, ela pedia ajuda, mas não conseguia gritar.

“Ela pedia ajuda sem puder gritar”, disse.

Para Pabliane, o aspecto mais doloroso é saber que existiam sinais antes da morte. Havia ameaças, agressões e pedidos de socorro.

“Eu creio que, se eu tivesse sido escutada, ou se as outras mulheres que sofreram na mão dele tivessem sido escutadas, hoje a minha mãe estaria viva.”

O PEDIDO DE SOCORRO PRECISA SER OUVIDO

Ao compartilhar a história da mãe, Pabliane também chama atenção para outras mulheres que podem estar enfrentando situações semelhantes.

“A minha mãe pedia socorro sem poder gritar.”

Para ela, o pedido de ajuda feito por familiares também precisa ser levado a sério.

“Se a vítima não pede socorro, não é porque ela não quer. Às vezes ela está tão ameaçada, com tanto medo de que façam alguma coisa com as pessoas que mais ama, que não consegue pedir ajuda.”

A experiência da família mostra que a prevenção não depende apenas da decisão da vítima de denunciar. Uma mulher submetida a ameaças e controle pode estar justamente impedida de procurar ajuda sozinha.

Por isso, familiares, amigos, vizinhos e instituições também fazem parte da rede de proteção.

Ouvir uma denúncia, reconhecer sinais de violência, oferecer acolhimento e garantir que medidas de proteção sejam efetivamente cumpridas são ações que podem interromper uma trajetória antes que ela termine em feminicídio.

PREVENIR TAMBÉM É PROTEGER QUEM FICA

Punir o responsável pelo assassinato é fundamental, mas não encerra a responsabilidade do poder público e da sociedade.

É necessário fortalecer mecanismos de prevenção, ampliar os serviços de atendimento, garantir proteção para mulheres ameaçadas e estruturar políticas voltadas às crianças e adolescentes que ficam após os feminicídios.

Cada denúncia acolhida pode representar uma oportunidade de interromper a violência.

Cada medida protetiva efetivamente cumprida pode significar uma vida preservada.

E cada pedido de ajuda levado a sério pode impedir que outra família precise aprender, da maneira mais dolorosa, que o feminicídio não termina quando a vítima morre.

“Hoje foi ela. Hoje é outra pessoa. E amanhã?”

A pergunta permanece como alerta.

Porque, quando uma mulher é assassinada, a violência não leva apenas uma vida. Ela deixa filhos sem a mãe, netos sem a avó, pais sem a filha e famílias inteiras obrigadas a reconstruir a própria história em torno de uma ausência que nunca deveria ter existido.


Com informações de ALESC

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