quinta-feira, 24 setembro , 2026

IA, deepfakes e vídeos falsos ampliam ameaça de desinformação nas eleições de 2026

por Francine Canto Boico
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deepfakes ia nas eleições

Vídeos manipulados cada vez mais realistas, influenciadores que sequer existem, conteúdos produzidos em escala por inteligência artificial (IA) e algoritmos capazes de direcionar mensagens para públicos específicos colocaram a desinformação eleitoral em uma nova fase. O alerta está na segunda edição do Guia Internet, Democracia e Eleições, lançado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 22 de setembro.

A publicação mostra que o desafio para as eleições de 2026 já não pode ser resumido às tradicionais “fake news”. O cenário descrito pelo CGI.br envolve uma combinação mais complexa de inteligência artificial generativa, deepfakes, sistemas de recomendação, microdirecionamento, aplicativos de mensagens, influenciadores digitais e informações verdadeiras apresentadas fora de contexto.

Segundo o documento, 81,2% dos casos de desinformação envolvendo inteligência artificial identificados por veículos de checagem surgiram apenas nos últimos dois anos. Para o CGI.br, o avanço está relacionado principalmente ao aperfeiçoamento e à popularização das ferramentas de IA generativa.

DESINFORMAÇÃO MUDOU DESDE AS ELEIÇÕES DE 2018

O novo guia retoma uma discussão iniciada pelo CGI.br em 2018, quando foi publicada a primeira edição. Oito anos depois, mudaram tanto as tecnologias disponíveis quanto a forma como conteúdos enganosos chegam aos eleitores.

O próprio conceito de “fake news” tornou-se insuficiente. O documento lembra que desinformação pode envolver não apenas uma notícia inteiramente falsa, mas também informações antigas apresentadas como atuais, fatos retirados de contexto, imagens manipuladas e outros conteúdos enganosos.

Em 2026, estudos de agências de checagem analisados pelo CGI.br mostram justamente maior presença de informações manipuladas de diferentes maneiras, em vez de conteúdos baseados exclusivamente em falsidades absolutas.

Por isso, o guia adota o conceito mais amplo de integridade da informação, relacionado à precisão, consistência e confiabilidade das informações. A abordagem procura ir além da simples retirada de conteúdos falsos e considerar também os mecanismos estruturais e algorítmicos que determinam o que ganha visibilidade na internet.

WHATSAPP E VÍDEOS GANHARAM CENTRALIDADE

Também mudou a rota utilizada para espalhar desinformação.

Segundo o CGI.br, houve uma migração das redes mais abertas, que ocupavam posição central em 2018, para ambientes mais fechados. O WhatsApp aparece no documento como a principal via de difusão, enquanto conteúdos enganosos circulam simultaneamente por diferentes plataformas.

O formato também mudou. O vídeo tornou-se o principal vetor da desinformação, muitas vezes acompanhado por pequenas mensagens que procuram contextualizar e dar credibilidade à narrativa apresentada.

“Em termos de formato, o vídeo passou a ser o principal vetor, quase sempre acompanhado de um texto curto que ancora e legitima a narrativa falsa”, aponta o documento.

IA PERMITE PRODUZIR DESINFORMAÇÃO EM ESCALA

A inteligência artificial generativa ocupa um capítulo inteiro do guia e é tratada como uma das principais novidades do ciclo eleitoral de 2026.

Ferramentas antes restritas a usuários com maior conhecimento técnico tornaram-se acessíveis a praticamente qualquer pessoa. Com elas, é possível produzir textos, fotografias, vozes e vídeos sintéticos em poucos minutos.

Essa facilidade reduziu o custo e o esforço necessários para fabricar materiais falsos com aparência convincente.

“Em 2026, a popularização da IA generativa tem se consolidado como um dos principais desafios, com grande potencial disruptivo para o cenário informacional”, destaca o guia.

O CGI.br observa que, até 2022, a desinformação online havia sido potencializada principalmente por automação, disparos coordenados e arquiteturas algorítmicas. Nos ciclos eleitorais seguintes, a IA generativa passou a ocupar posição crescente entre as preocupações.

DEEPFAKES PODEM ENGANAR ATÉ USUÁRIOS MAIS EXPERIENTES

Entre os maiores desafios estão as deepfakes, conteúdos produzidos ou manipulados digitalmente para reproduzir com alto grau de realismo a aparência, a voz ou os movimentos de pessoas reais.

A preocupação não está apenas na possibilidade de um eleitor acreditar em algo que nunca aconteceu.

Quanto mais comuns e convincentes essas falsificações se tornam, maior também é o risco de surgir uma desconfiança generalizada sobre imagens e vídeos verdadeiros. Um conteúdo autêntico, por exemplo, pode ser descartado sob a alegação de ter sido produzido por IA.

O problema se combina a outro comportamento analisado pelo guia: a chamada racionalidade motivada.

Em ambientes nos quais a exposição à informação já é selecionada pelos sistemas de recomendação, usuários tendem a consumir conteúdos compatíveis com suas crenças anteriores e a rejeitar aqueles que as contradizem.

O CGI.br pondera que uma única informação dificilmente modifica radicalmente a decisão eleitoral de alguém. A exposição contínua à desinformação, porém, pode sedimentar dúvidas e reforçar determinados enquadramentos políticos.

INFLUENCIADORES CRIADOS POR IA JÁ PARTICIPAM DO DEBATE POLÍTICO

Um dos fenômenos destacados pelo guia em 2026 é o aparecimento dos chamados influenciadores digitais sintéticos.

São personagens produzidos por inteligência artificial que podem se apresentar como eleitores comuns, comentaristas, apresentadores, influenciadores ou lideranças populares — e nem sempre deixam claro ao público que não são pessoas reais.

Segundo os casos analisados no documento, parte desses personagens funciona como vetor de desinformação política e alguns alcançam níveis de audiência e engajamento semelhantes aos registrados por políticos influentes.

Mesmo quando o público sabe que está diante de um personagem artificial, o CGI.br aponta que conteúdos carregados de raiva ou indignação podem exercer efeitos de mobilização. A exposição repetida também pode fazer com que esses personagens sejam percebidos como representações de cidadãos comuns insatisfeitos.

Há ainda casos em que materiais sintéticos se apropriam da imagem de jornalistas ou da identidade visual de veículos de comunicação para tentar reproduzir a credibilidade associada ao jornalismo.

INFLUENCIADORES GANHARAM PESO NO DEBATE ELEITORAL

O guia dedica atenção também aos influenciadores humanos, que passaram a ocupar posição estratégica na comunicação política e conseguem alcançar audiências que nem sempre são atingidas pelos meios jornalísticos tradicionais.

A legislação eleitoral impede candidaturas de contratar ou oferecer benefícios a influenciadores em troca de propaganda político-eleitoral.

O CGI.br observa, porém, que há outras formas de atuação capazes de produzir impactos relevantes sobre o debate público e diferencia esse ambiente do jornalismo profissional, submetido a princípios éticos da atividade e a mecanismos próprios de responsabilização.

ALGORITMOS DECIDEM PARTE DO QUE O ELEITOR VÊ

Outra questão central apresentada pelo documento está nos bastidores das plataformas: os algoritmos.

No início das redes sociais, os usuários acompanhavam principalmente publicações das contas que haviam decidido seguir, frequentemente organizadas em ordem cronológica. Gradualmente, esse modelo foi substituído por sistemas de curadoria algorítmica.

Hoje, sistemas de recomendação ordenam, filtram e priorizam conteúdos com base em grandes volumes de dados e previsões sobre os interesses de cada usuário.

O modelo permite o perfilamento — criação de perfis a partir das características e comportamentos digitais — e o microdirecionamento, pelo qual mensagens podem ser entregues a grupos muito específicos.

No contexto eleitoral, isso cria um problema adicional de transparência: diferentes grupos podem receber mensagens distintas sem que o restante da sociedade saiba exatamente o que está sendo apresentado a cada segmento.

O guia chama atenção ainda para o modelo econômico das plataformas. Como publicidade e engajamento sustentam boa parte desses serviços, conteúdos capazes de capturar atenção e provocar reações emocionais podem receber incentivos de circulação superiores aos de informações escolhidas prioritariamente por critérios de qualidade ou relevância.

CHATBOTS SE TORNARAM NOVA FONTE DE INFORMAÇÃO ELEITORAL

Os sistemas conversacionais de inteligência artificial abriram outra frente de preocupação.

Há uma diferença importante em relação aos mecanismos tradicionais de busca. Em vez de simplesmente apresentar páginas e fontes para consulta, um chatbot pode reunir informações, sintetizá-las e produzir uma resposta personalizada para cada pergunta.

O guia ressalta que esses sistemas trabalham a partir de modelos probabilísticos e podem produzir erros, vieses e informações incorretas mesmo quando as respostas parecem convincentes e bem fundamentadas.

Isso ganha especial importância quando o assunto envolve candidatos e eleições.

Uma pesquisa citada pelo documento identificou que, mesmo diante das regras que proíbem ferramentas de IA de recomendar ou priorizar candidaturas, algum grau de ranqueamento ou priorização apareceu em 90% das respostas analisadas sobre temas eleitorais.

Também foram encontrados erros factuais, conhecidos no campo da inteligência artificial como “alucinações”.

TSE CRIOU REGRAS ESPECÍFICAS PARA IA NAS ELEIÇÕES

A Justiça Eleitoral estabeleceu regras específicas para enfrentar parte desses riscos em 2026.

Entre as principais medidas está a proibição de publicar, republicar ou impulsionar novos conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial entre as 72 horas anteriores e as 24 horas posteriores a cada turno da votação.

A restrição alcança inclusive conteúdos identificados como produzidos por IA, mas se aplica a materiais novos, e não àqueles que já estavam circulando anteriormente.

Segundo o guia, a regra procura enfrentar um problema particular dos momentos imediatamente próximos à votação: um conteúdo falso pode se espalhar rapidamente sem que haja tempo suficiente para checagem, esclarecimento e redução dos danos.

CGI.BR DEFENDE MAIS TRANSPARÊNCIA DAS PLATAFORMAS

O guia não limita o enfrentamento da desinformação ao comportamento individual dos usuários. Um capítulo reúne nove diretrizes direcionadas principalmente à estrutura e às responsabilidades das plataformas.

Entre as medidas estão mecanismos para detectar e reduzir interferências indevidas em eleições, combate a disparos em massa, proteção de contas de participantes do processo eleitoral contra invasões e maior transparência sobre sistemas de recomendação e impulsionamento.

O documento também defende bibliotecas de anúncios político-eleitorais mais detalhadas, restrições ao uso de dados pessoais sensíveis para perfilamento e a possibilidade de o próprio usuário escolher como quer receber recomendações — inclusive com opção de utilizar serviços sem perfilamento algorítmico.

“A desinformação não é um problema produzido por atores isolados. Ela prospera em uma arquitetura projetada para maximizar atenção, não para qualificar o debate público. Iluminar esse funcionamento — para governos, plataformas e cidadãos — é o que torna este guia relevante para além do período eleitoral”, afirma a coordenadora do CGI.br, Renata Mielli.

GUIA TAMBÉM ENSINA COMO IDENTIFICAR CONTEÚDOS SUSPEITOS

Além das recomendações institucionais, a publicação reserva um capítulo às atitudes que podem ser adotadas pelos próprios cidadãos.

Uma das primeiras orientações é desconfiar de títulos excessivamente alarmistas ou construídos para despertar uma reação imediata. O guia recomenda ainda verificar a data das informações, já que notícias verdadeiras podem ser reutilizadas fora de contexto.

Também sugere cautela com afirmações absolutas, especialmente aquelas construídas com palavras como “sempre”, “nunca”, “todos” e “ninguém”, e ressalta a importância de distinguir opinião, indício e evidência.

No caso de vídeos e imagens, o documento recomenda observar possíveis deformações, movimentos pouco naturais, problemas de sincronização entre imagem e voz e inconsistências em objetos e cenários.

Nos áudios, ruídos, cortes, distorções e falta de naturalidade na voz podem servir como indícios de manipulação. Ao mesmo tempo, o próprio guia alerta que o avanço das deepfakes torna essas falhas cada vez mais difíceis de perceber.

Por isso, a verificação não deve terminar na aparência do material. A recomendação é pesquisar quem supostamente aparece no conteúdo, procurar a mesma informação em fontes confiáveis e verificar se veículos jornalísticos, páginas oficiais ou agências de checagem confirmaram ou desmentiram a alegação.

DESAFIO VAI ALÉM DE DESCOBRIR SE UMA NOTÍCIA É FALSA

A principal mudança de perspectiva proposta pelo CGI.br talvez esteja justamente nesse ponto.

O problema contemporâneo da desinformação não se resume mais a perguntar se determinada notícia é verdadeira ou falsa. Passa também por entender quem produziu o conteúdo, como ele foi distribuído, por que determinado usuário recebeu aquela mensagem, quais dados foram utilizados para direcioná-la e quais mecanismos fizeram com que ela alcançasse milhões de pessoas.

“Hoje, as plataformas digitais ocupam um lugar central na forma como os brasileiros se informam sobre o que acontece no mundo, no país e nas cidades onde vivem”, afirma Renata Mielli.

Nesse ambiente, inteligência artificial, algoritmos, aplicativos de mensagens e plataformas passaram a integrar a própria infraestrutura pela qual parte relevante do debate público acontece.

É justamente por isso que o guia substitui uma abordagem concentrada apenas no combate às “fake news” por uma discussão mais ampla sobre integridade da informação: não apenas retirar aquilo que é falso, mas compreender e enfrentar as estruturas que determinam como a informação é produzida, selecionada, direcionada e amplificada no ambiente digital.

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