sexta-feira, 16 outubro , 2026

Em relação à política externa, plano de governo de Lula prioriza Sul Global enquanto o de Flávio propõe aproximação com EUA e Israel

por Duda Amaral
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Lula e Flavio Bolsonaro

Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam visões distintas para a política externa brasileira. Enquanto Lula defende a diversificação das parcerias internacionais, com atenção especial ao Sul Global e aos organismos multilaterais, Flávio propõe estreitar os laços com Estados Unidos, Israel e Argentina, além de ampliar a abertura comercial e a atração de investimentos estrangeiros.

O tema ganhou espaço na campanha presidencial de 2026 e aparece em capítulos específicos dos programas apresentados pelos dois candidatos. O documento de Lula dedica quase seis páginas à política externa, enquanto o de Flávio reserva aproximadamente três páginas ao assunto.

As diferenças envolvem questões estratégicas para o país, como soberania nacional, relações comerciais, defesa, exploração de minerais críticos e integração sul-americana. Os candidatos também divergem sobre a atuação brasileira diante de conflitos internacionais e sobre o relacionamento com as principais potências econômicas.

SOBERANIA NACIONAL E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

O plano de Lula descreve o cenário mundial como um período de instabilidade, marcado por conflitos e violações do direito internacional. O documento critica as tentativas de estabelecer uma ordem global baseada na imposição de interesses de determinadas potências e defende que o Brasil mantenha autonomia nas decisões diplomáticas.

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, diz o documento.

A proposta de Flávio Bolsonaro também coloca a soberania entre os princípios da política externa, mas adota uma abordagem diferente para definir as prioridades brasileiras. O candidato critica o que considera uma influência ideológica nas decisões internacionais do atual governo e defende uma diplomacia orientada pelos interesses econômicos nacionais.

“Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, afirma o plano do PL, ao questionar o posicionamento do governo Lula em relação a países como Irã, Venezuela e Israel.

Flávio também defende a retomada de relações mais próximas com parceiros tradicionais. O documento apresenta a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina como parte de uma estratégia para recuperar vínculos diplomáticos e comerciais.

“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, diz o documento de Flávio Bolsonaro.

As diferenças também aparecem diante de conflitos internacionais. Flávio tem manifestado apoio a ações militares do governo de Donald Trump, incluindo a guerra contra o Irã e a intervenção na Venezuela. Lula, por sua vez, condena ataques militares e defende soluções diplomáticas, o respeito às normas internacionais e a contenção dos confrontos.

DEFESA NACIONAL E INDÚSTRIA MILITAR

O fortalecimento da indústria de defesa brasileira é um dos pontos destacados no plano de Lula. A proposta associa a capacidade militar à autonomia diplomática e argumenta que o país precisa ampliar sua estrutura de defesa para proteger os próprios interesses em um cenário internacional instável.

“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, diz o plano.

O documento também apresenta resultados de iniciativas realizadas durante o atual mandato, incluindo investimentos vinculados ao Novo PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento.

“Desde 2023 já foram executados R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos. Entregamos 7 caças gripens-F-39, tendo sido produzida a primeira aeronave em solo brasileiro este ano. Adquirimos 3 cargueiros KC-390 fabricados no país. Estamos construindo 4 fragatas, a primeira já em operação. Produzimos 226 viaturas blindadas”, destaca.

Flávio Bolsonaro também pretende ampliar a capacidade militar brasileira, com foco no desenvolvimento tecnológico. Entre as prioridades mencionadas estão investimentos em inovação, drones e inteligência artificial aplicados à defesa.

“Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”, afirma o programa do PL.

LULA DEFENDE FORTALECIMENTO DO SUL GLOBAL

A diversificação das parcerias internacionais é um dos pilares da política externa proposta por Lula. O candidato defende uma estratégia universalista, com relações diplomáticas e comerciais em diferentes regiões, sem limitar a atuação brasileira a um grupo específico de países.

“Investiremos em novos acordos comerciais e na abertura de novos mercados para nossos bens e serviços, de modo a continuar enfrentando agressões comerciais e a defender os interesses do país”, afirma o documento.

O plano também prevê ampliar a cooperação com o Sul Global, expressão utilizada para identificar países em desenvolvimento, muitos deles localizados no Hemisfério Sul. Nesse contexto, o governo pretende fortalecer a participação brasileira em articulações internacionais e ampliar as oportunidades de comércio e cooperação.

“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, diz o documento.

O Brics reúne países como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Já o G20 reúne algumas das maiores economias do mundo, além de representantes institucionais como a União Europeia e a União Africana.

Outro eixo da proposta petista é o aprofundamento das relações com o continente africano. O plano destaca os vínculos históricos e culturais entre Brasil e África, além da crescente importância da região no cenário internacional.

Flávio Bolsonaro, por outro lado, defende que a diplomacia brasileira priorize a abertura de mercados e as oportunidades para empresas e trabalhadores nacionais, mantendo relações comerciais com diferentes parceiros, independentemente de suas orientações políticas.

“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo.”

Embora os dois planos mencionem a ampliação de mercados, as estratégias propostas diferem na ênfase dada aos blocos internacionais e na forma de conduzir as relações com as grandes potências.

TERRAS RARAS E DISPUTA TECNOLÓGICA COM A CHINA

A exploração de minerais críticos e terras raras também integra as propostas de política externa dos candidatos. Esses recursos são importantes para a fabricação de equipamentos eletrônicos, tecnologias de defesa, veículos elétricos e sistemas ligados à transição energética.

O plano de Lula prevê a elaboração de uma política específica para esses minerais, com o objetivo de estruturar cadeias produtivas e ampliar o processamento industrial no Brasil. A proposta busca evitar que o país dependa apenas da exportação de matérias-primas sem agregar valor aos recursos extraídos.

“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, diz o projeto de governo.

Flávio Bolsonaro apresenta outra abordagem, baseada na atração de capital estrangeiro e na transferência de tecnologia internacional para o Brasil. O candidato afirma que pretende estabelecer parcerias com países interessados em desenvolver projetos conjuntos.

“Estabeleceremos parcerias internacionais com todos os 55 países que queiram a cooperação do Brasil, sem preconceitos ou ranços ideológicos.”

O tema também aparece nos discursos de Flávio durante compromissos no exterior. Em março de 2026, em um evento com conservadores nos Estados Unidos, ele apontou o potencial brasileiro para reduzir a dependência norte-americana de minerais críticos provenientes da China.

“O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”, disse.

O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, aproximadamente 23% das reservas conhecidas no mundo, segundo os números apresentados no material de referência. Esse potencial coloca o país em posição estratégica diante da disputa comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China.

A relação com Pequim também representa um ponto de contraste entre as propostas. Durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, declarações de integrantes da família Bolsonaro sobre a responsabilidade chinesa pela pandemia de Covid-19 provocaram atritos diplomáticos com a embaixada do país asiático.

INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA E RELAÇÕES COMERCIAIS

A integração regional ocupa posição central no programa de Lula. O candidato pretende aprofundar os mecanismos de cooperação na América do Sul e no Caribe, com a defesa de que a região seja reconhecida como uma zona de paz.

“A integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil. Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional”, diz o documento.

A proposta se relaciona à defesa de uma atuação conjunta dos países vizinhos em questões econômicas, políticas e diplomáticas. O Mercosul é apontado como um dos instrumentos para ampliar a integração e fortalecer a posição regional brasileira.

No plano de Flávio Bolsonaro, a prioridade está na retomada de relações mais próximas com parceiros considerados estratégicos e na ampliação das oportunidades para exportadores brasileiros.

TARIFAS DOS EUA E CRÍTICAS À DIPLOMACIA BRASILEIRA

As tarifas comerciais impostas pelo governo de Donald Trump ao Brasil também estão no centro do debate sobre política externa. O plano de Lula critica o isolamento internacional que, segundo o documento, marcou a gestão de Jair Bolsonaro, além de apontar o enfraquecimento de acordos regionais e a perda de prestígio diplomático.

O tema ganhou relevância após a decisão dos Estados Unidos de aplicar tarifas sobre produtos brasileiros, anunciada em julho de 2025. Na ocasião, Trump também criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal durante o processo relacionado à tentativa de golpe de Estado envolvendo Jair Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, mudou-se para os Estados Unidos e atuou politicamente em favor de medidas contra o Brasil. Tanto ele quanto Flávio manifestaram apoio às tarifas norte-americanas, apesar dos possíveis efeitos negativos sobre setores da economia brasileira.

“Obrigado Presidente Trump – Faça o Brasil Livre Novamente – Queremos Magnitsky!”, escreveu Flávio, em referência à Lei Magnitsky, utilizada pelos Estados Unidos em julho de 2025 contra autoridades brasileiras e ministros do Supremo.

O candidato do PL costuma atribuir as sanções comerciais a uma suposta orientação antiamericana do governo Lula. Em seu plano, porém, afirma que pretende buscar soluções diplomáticas para enfrentar restrições comerciais impostas por diferentes parceiros internacionais.

No capítulo dedicado ao agronegócio, o documento prevê medidas para proteger os produtos brasileiros diante de barreiras comerciais adotadas por Estados Unidos, China e países europeus.

“Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia. O Itamaraty voltará a ser conduzido pela competência técnica que sempre marcou seus quadros”, diz o documento.

A defesa de uma diplomacia profissional também aparece em meio às críticas de Eduardo Bolsonaro ao Ministério das Relações Exteriores. Nas redes sociais, o ex-deputado defende mudanças no Itamaraty e acusa servidores de terem prejudicado o governo de seu pai.

FLÁVIO BOLSONARO PROPÕE ADESÃO À OCDE

Outro objetivo apresentado pelo candidato do PL é a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade que reúne 38 países e trabalha na produção de estudos, estatísticas e recomendações para políticas públicas.

O programa argumenta que a adesão ao organismo poderia estimular mudanças nas normas brasileiras, melhorar a governança das empresas estatais e aproximar o país de padrões internacionais de gestão.

“A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”, justifica Flávio Bolsonaro.

A proposta reforça a intenção de aproximar o Brasil de organismos internacionais associados à cooperação econômica e à adoção de padrões regulatórios comuns.

DUAS VISÕES PARA O PAPEL DO BRASIL NO MUNDO

Os programas de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes para a inserção internacional brasileira. O presidente aposta no fortalecimento do Sul Global, na integração regional, na diversificação de parceiros e no desenvolvimento de uma indústria nacional capaz de agregar valor a recursos estratégicos.

Flávio, por sua vez, enfatiza a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina, a atração de investimentos estrangeiros, a modernização tecnológica da defesa e a entrada do Brasil na OCDE.

Apesar de ambos defenderem a ampliação das oportunidades comerciais e a proteção dos interesses nacionais, as propostas divergem sobre a relação com as grandes potências, o papel dos blocos multilaterais e a condução da diplomacia diante de conflitos internacionais.

As diferenças indicam que a política externa será um dos temas relevantes do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, com impactos potenciais sobre o comércio, a indústria, a defesa e a posição do Brasil nas negociações globais.
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Com informações de Agência Brasil

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