sexta-feira, 23 outubro , 2026

Lula prioriza combate ao racismo; plano de Flávio não cita ações afirmativas

por Adriana Dias
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Estudo do Idafro compara planos de governo, declarações e ações dos candidatos à Presidência e aponta diferenças nas políticas de combate à discriminação e proteção dos povos de terreiro.

O combate ao racismo, a garantia da liberdade religiosa e a proteção de comunidades historicamente discriminadas também estão em disputa nas eleições presidenciais de 2026. Mas como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tratam essas questões em seus planos de governo?

Para responder a essa pergunta, o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) analisou propostas, declarações e ações dos dois candidatos que disputam o segundo turno neste domingo, 25 de outubro.

O resultado está no minidossiê Igualdade Racial e Racismo Religioso nas Ações e Posições de Lula e Flávio, divulgado em outubro.

A principal diferença identificada pela pesquisa está no reconhecimento do racismo como problema social e na apresentação de políticas públicas para enfrentá-lo.

Enquanto Lula reconhece a discriminação racial como fator de desigualdade e propõe aprimorar políticas de inclusão, Flávio Bolsonaro, segundo o levantamento, nega a existência do racismo em declarações e em seu programa de governo.

A pesquisa também identifica diferenças nas propostas de segurança pública, na proteção dos povos de terreiro e na abordagem da liberdade religiosa.

O QUE MUDA ENTRE AS PROPOSTAS DOS CANDIDATOS?

Veja os principais pontos identificados pelo Idafro:

TemaLula (PT)Flávio Bolsonaro (PL)
RacismoReconhece a discriminação racial como fator de desigualdade.Segundo o Idafro, nega a existência do racismo em declarações e no programa.
Ações afirmativasPropõe aprimorar medidas de inclusão racial.O plano não menciona o termo “cota”, segundo o levantamento.
Quilombos e terras indígenasPropõe avançar na regularização de quilombos e na demarcação de terras indígenas.O levantamento não apresenta propostas equivalentes nesses temas.
Segurança públicaPrioriza a proteção da juventude negra e a redução dos homicídios.Propõe sistema de reconhecimento facial, apontado pelo Idafro como risco de criminalização racial.
Povos de terreiroO instituto destaca ações de proteção aos direitos dessas comunidades.O plano não menciona “terreiro” ou “matriz africana”, conforme a pesquisa.

Fonte: Idafro, conforme levantamento apresentado pela Agência Brasil em 23 de outubro de 2026.

QUAIS TEMAS NÃO APARECEM NO PLANO DE FLÁVIO?

Um dos aspectos destacados pelo estudo é a ausência de palavras relacionadas à igualdade racial e à liberdade religiosa no programa de governo de Flávio Bolsonaro.

Segundo o Idafro, o documento não menciona os seguintes termos:

Cota • Racismo • Negro • Preto • Pardo • Inclusão racial • Terreiro • Matriz africana • Laico • Intolerância • Discriminação

A ausência desses termos é uma constatação da análise textual apresentada pelo instituto.

Para elaborar a pesquisa, a entidade consultou os programas de governo, sites do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e notícias publicadas pela imprensa.

A análise não se limita, portanto, às propostas registradas oficialmente: também considera declarações e ações políticas dos candidatos.

SEGURANÇA PÚBLICA: O RECONHECIMENTO FACIAL PODE AMPLIAR A DISCRIMINAÇÃO?

Outro ponto de divergência identificado pelo Idafro está nas políticas de segurança pública e seus possíveis impactos sobre a população negra.

Flávio Bolsonaro: reconhecimento facial

O candidato propõe a criação de um sistema de reconhecimento facial.

O Idafro alerta que essa tecnologia pode ampliar o risco de criminalização de pessoas negras. Segundo a entidade, pesquisas brasileiras e internacionais mostram taxas de erro maiores no reconhecimento de rostos pretos e pardos.

Essas falhas podem resultar em prisões equivocadas e abordagens policiais injustas.

Lula: proteção da juventude negra

O programa de Lula, por sua vez, prioriza medidas de proteção da juventude negra contra a violência e ações para reduzir os homicídios.

A preocupação destacada pelo instituto está relacionada ao fato de que pessoas negras são as principais vítimas desse tipo de crime no Brasil.

Assim, a comparação feita pelo Idafro chama atenção não apenas para os instrumentos de segurança propostos, mas também para seus possíveis efeitos sobre diferentes grupos da população.

LIBERDADE RELIGIOSA: COMO OS CANDIDATOS TRATAM OS POVOS DE TERREIRO?

A liberdade religiosa é um direito garantido pela Constituição brasileira. Isso inclui o direito de praticar religiões de matriz africana e de preservar seus espaços, tradições e manifestações culturais.

No levantamento, o Idafro destaca ações do governo Lula voltadas à proteção dessas comunidades.

Entre elas está a criação, em 2024, de um grupo responsável por elaborar a política nacional para povos de terreiro.

A iniciativa reforçou direitos relacionados a dois aspectos:

  • Proteção dos espaços religiosos: garantia da inviolabilidade dos terreiros, que frequentemente são alvo de invasões e depredações.
  • Preservação cultural: estímulo à proteção do patrimônio imaterial associado às tradições religiosas dessas comunidades.

O instituto considera essas medidas exemplos do compromisso do atual presidente com o enfrentamento ao racismo religioso.

Em relação ao plano de Flávio Bolsonaro, a pesquisa destaca a ausência de referências a terreiros, religiões de matriz africana e intolerância.

DESINFORMAÇÃO RELIGIOSA TAMBÉM ENTROU NA DISPUTA ELEITORAL

A pesquisa recupera episódios de circulação de conteúdos falsos envolvendo religião durante a campanha presidencial.

Na véspera do primeiro turno, Lula e a primeira-dama Janja Lula da Silva foram alvos de publicações com informações falsas e imagens geradas por inteligência artificial.

Entre os conteúdos identificados estavam:

  • Imagens de uma suposta oferenda no Palácio do Planalto.
  • Associações falsas de Janja a rituais satânicos.
  • Informações falsas sobre uma suposta cobrança de impostos das igrejas.

Segundo a reportagem da Agência Brasil, essas publicações foram utilizadas para confundir os eleitores.

O dossiê também menciona o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.

Gaspar divulgou um vídeo de Lula em um terreiro e questionou a fé do presidente. Na ocasião registrada pelas imagens, Lula recebia uma homenagem.

Para o Idafro, o problema ultrapassa o ataque direcionado a um candidato.

A entidade argumenta que o uso de imagens e símbolos religiosos de maneira estigmatizante também atinge os próprios povos de terreiro, independentemente de quem seja o alvo ou o beneficiário eleitoral.

QUAL É O PERFIL RELIGIOSO DO BRASIL?

A diversidade religiosa brasileira ajuda a compreender por que o tema tem importância para toda a sociedade.

De acordo com os percentuais apresentados na reportagem da Agência Brasil:

Religião ou identificaçãoPercentual
Católicos57%
Evangélicos27%
Pessoas sem religião9%
Umbanda e candomblé1%

Os percentuais reproduzem os dados da matéria original e não representam a totalidade das categorias religiosas da população.

A Constituição estabelece que o Brasil é um Estado laico. Isso significa que o poder público não deve privilegiar uma religião em detrimento de outras e deve garantir a liberdade de crença e de culto.

Essa proteção também se estende às pessoas que não seguem nenhuma religião.

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: QUANTAS DENÚNCIAS FORAM REGISTRADAS?

Apesar das garantias constitucionais, os registros oficiais mostram que a intolerância religiosa continua sendo um problema no país.

2.774 denúncias de intolerância religiosa

Esse foi o número de denúncias registradas pelo Disque 100 entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.

O número representa denúncias recebidas pelo serviço, não necessariamente casos comprovados ou vítimas individuais.

Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, conforme Agência Brasil.

O Disque Direitos Humanos, conhecido como Disque 100, é um serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

O atendimento é gratuito, imediato e funciona 24 horas por dia.

ONDE CONSULTAR AS PROPOSTAS E O ESTUDO COMPLETO?

Os documentos analisados estão disponíveis para consulta pública. Assim, qualquer pessoa pode conhecer as propostas dos candidatos e verificar as informações utilizadas na comparação.

Documentos oficiais dos candidatos:

Pesquisa do Idafro:

Minidossiê Igualdade Racial e Racismo Religioso nas Ações e Posições de Lula e Flávio

O levantamento reúne as fontes consultadas e detalha os posicionamentos identificados pela entidade.

A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada pela Agência Brasil para comentar os resultados da pesquisa. Até a publicação da reportagem original, não havia manifestação registrada, e o espaço permanecia aberto para um novo posicionamento.

Fonte: Agência Brasil — reportagem de Isabela Vieira, publicada em 23 de outubro de 2026. Adaptação editorial para o Conecta SC, com base no levantamento do Idafro. Leia a reportagem original da Agência Brasil

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