Estudo do Idafro compara planos de governo, declarações e ações dos candidatos à Presidência e aponta diferenças nas políticas de combate à discriminação e proteção dos povos de terreiro.
O combate ao racismo, a garantia da liberdade religiosa e a proteção de comunidades historicamente discriminadas também estão em disputa nas eleições presidenciais de 2026. Mas como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tratam essas questões em seus planos de governo?
Para responder a essa pergunta, o Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) analisou propostas, declarações e ações dos dois candidatos que disputam o segundo turno neste domingo, 25 de outubro.
O resultado está no minidossiê Igualdade Racial e Racismo Religioso nas Ações e Posições de Lula e Flávio, divulgado em outubro.
A principal diferença identificada pela pesquisa está no reconhecimento do racismo como problema social e na apresentação de políticas públicas para enfrentá-lo.
Enquanto Lula reconhece a discriminação racial como fator de desigualdade e propõe aprimorar políticas de inclusão, Flávio Bolsonaro, segundo o levantamento, nega a existência do racismo em declarações e em seu programa de governo.
A pesquisa também identifica diferenças nas propostas de segurança pública, na proteção dos povos de terreiro e na abordagem da liberdade religiosa.
O QUE MUDA ENTRE AS PROPOSTAS DOS CANDIDATOS?
Veja os principais pontos identificados pelo Idafro:
| Tema | Lula (PT) | Flávio Bolsonaro (PL) |
|---|---|---|
| Racismo | Reconhece a discriminação racial como fator de desigualdade. | Segundo o Idafro, nega a existência do racismo em declarações e no programa. |
| Ações afirmativas | Propõe aprimorar medidas de inclusão racial. | O plano não menciona o termo “cota”, segundo o levantamento. |
| Quilombos e terras indígenas | Propõe avançar na regularização de quilombos e na demarcação de terras indígenas. | O levantamento não apresenta propostas equivalentes nesses temas. |
| Segurança pública | Prioriza a proteção da juventude negra e a redução dos homicídios. | Propõe sistema de reconhecimento facial, apontado pelo Idafro como risco de criminalização racial. |
| Povos de terreiro | O instituto destaca ações de proteção aos direitos dessas comunidades. | O plano não menciona “terreiro” ou “matriz africana”, conforme a pesquisa. |
Fonte: Idafro, conforme levantamento apresentado pela Agência Brasil em 23 de outubro de 2026.
QUAIS TEMAS NÃO APARECEM NO PLANO DE FLÁVIO?
Um dos aspectos destacados pelo estudo é a ausência de palavras relacionadas à igualdade racial e à liberdade religiosa no programa de governo de Flávio Bolsonaro.
Segundo o Idafro, o documento não menciona os seguintes termos:
Cota • Racismo • Negro • Preto • Pardo • Inclusão racial • Terreiro • Matriz africana • Laico • Intolerância • Discriminação
A ausência desses termos é uma constatação da análise textual apresentada pelo instituto.
Para elaborar a pesquisa, a entidade consultou os programas de governo, sites do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e notícias publicadas pela imprensa.
A análise não se limita, portanto, às propostas registradas oficialmente: também considera declarações e ações políticas dos candidatos.
SEGURANÇA PÚBLICA: O RECONHECIMENTO FACIAL PODE AMPLIAR A DISCRIMINAÇÃO?
Outro ponto de divergência identificado pelo Idafro está nas políticas de segurança pública e seus possíveis impactos sobre a população negra.
Flávio Bolsonaro: reconhecimento facial
O candidato propõe a criação de um sistema de reconhecimento facial.
O Idafro alerta que essa tecnologia pode ampliar o risco de criminalização de pessoas negras. Segundo a entidade, pesquisas brasileiras e internacionais mostram taxas de erro maiores no reconhecimento de rostos pretos e pardos.
Essas falhas podem resultar em prisões equivocadas e abordagens policiais injustas.
Lula: proteção da juventude negra
O programa de Lula, por sua vez, prioriza medidas de proteção da juventude negra contra a violência e ações para reduzir os homicídios.
A preocupação destacada pelo instituto está relacionada ao fato de que pessoas negras são as principais vítimas desse tipo de crime no Brasil.
Assim, a comparação feita pelo Idafro chama atenção não apenas para os instrumentos de segurança propostos, mas também para seus possíveis efeitos sobre diferentes grupos da população.
LIBERDADE RELIGIOSA: COMO OS CANDIDATOS TRATAM OS POVOS DE TERREIRO?
A liberdade religiosa é um direito garantido pela Constituição brasileira. Isso inclui o direito de praticar religiões de matriz africana e de preservar seus espaços, tradições e manifestações culturais.
No levantamento, o Idafro destaca ações do governo Lula voltadas à proteção dessas comunidades.
Entre elas está a criação, em 2024, de um grupo responsável por elaborar a política nacional para povos de terreiro.
A iniciativa reforçou direitos relacionados a dois aspectos:
- Proteção dos espaços religiosos: garantia da inviolabilidade dos terreiros, que frequentemente são alvo de invasões e depredações.
- Preservação cultural: estímulo à proteção do patrimônio imaterial associado às tradições religiosas dessas comunidades.
O instituto considera essas medidas exemplos do compromisso do atual presidente com o enfrentamento ao racismo religioso.
Em relação ao plano de Flávio Bolsonaro, a pesquisa destaca a ausência de referências a terreiros, religiões de matriz africana e intolerância.
DESINFORMAÇÃO RELIGIOSA TAMBÉM ENTROU NA DISPUTA ELEITORAL
A pesquisa recupera episódios de circulação de conteúdos falsos envolvendo religião durante a campanha presidencial.
Na véspera do primeiro turno, Lula e a primeira-dama Janja Lula da Silva foram alvos de publicações com informações falsas e imagens geradas por inteligência artificial.
Entre os conteúdos identificados estavam:
- Imagens de uma suposta oferenda no Palácio do Planalto.
- Associações falsas de Janja a rituais satânicos.
- Informações falsas sobre uma suposta cobrança de impostos das igrejas.
Segundo a reportagem da Agência Brasil, essas publicações foram utilizadas para confundir os eleitores.
O dossiê também menciona o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.
Gaspar divulgou um vídeo de Lula em um terreiro e questionou a fé do presidente. Na ocasião registrada pelas imagens, Lula recebia uma homenagem.
Para o Idafro, o problema ultrapassa o ataque direcionado a um candidato.
A entidade argumenta que o uso de imagens e símbolos religiosos de maneira estigmatizante também atinge os próprios povos de terreiro, independentemente de quem seja o alvo ou o beneficiário eleitoral.
QUAL É O PERFIL RELIGIOSO DO BRASIL?
A diversidade religiosa brasileira ajuda a compreender por que o tema tem importância para toda a sociedade.
De acordo com os percentuais apresentados na reportagem da Agência Brasil:
| Religião ou identificação | Percentual |
|---|---|
| Católicos | 57% |
| Evangélicos | 27% |
| Pessoas sem religião | 9% |
| Umbanda e candomblé | 1% |
Os percentuais reproduzem os dados da matéria original e não representam a totalidade das categorias religiosas da população.
A Constituição estabelece que o Brasil é um Estado laico. Isso significa que o poder público não deve privilegiar uma religião em detrimento de outras e deve garantir a liberdade de crença e de culto.
Essa proteção também se estende às pessoas que não seguem nenhuma religião.
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: QUANTAS DENÚNCIAS FORAM REGISTRADAS?
Apesar das garantias constitucionais, os registros oficiais mostram que a intolerância religiosa continua sendo um problema no país.
2.774 denúncias de intolerância religiosa
Esse foi o número de denúncias registradas pelo Disque 100 entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026.
O número representa denúncias recebidas pelo serviço, não necessariamente casos comprovados ou vítimas individuais.
Fonte: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, conforme Agência Brasil.
O Disque Direitos Humanos, conhecido como Disque 100, é um serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
O atendimento é gratuito, imediato e funciona 24 horas por dia.
ONDE CONSULTAR AS PROPOSTAS E O ESTUDO COMPLETO?
Os documentos analisados estão disponíveis para consulta pública. Assim, qualquer pessoa pode conhecer as propostas dos candidatos e verificar as informações utilizadas na comparação.
Documentos oficiais dos candidatos:
Pesquisa do Idafro:
Minidossiê Igualdade Racial e Racismo Religioso nas Ações e Posições de Lula e Flávio
O levantamento reúne as fontes consultadas e detalha os posicionamentos identificados pela entidade.
A campanha de Flávio Bolsonaro foi procurada pela Agência Brasil para comentar os resultados da pesquisa. Até a publicação da reportagem original, não havia manifestação registrada, e o espaço permanecia aberto para um novo posicionamento.
Fonte: Agência Brasil — reportagem de Isabela Vieira, publicada em 23 de outubro de 2026. Adaptação editorial para o Conecta SC, com base no levantamento do Idafro. Leia a reportagem original da Agência Brasil