Na poesia serena e profunda de Paulinho da Viola, o mar não é apenas cenário — é personagem. Surge como metáfora de imensidão, de destino imprevisível, de sentimentos profundos e também da imaginação que guia o artista. Em composições como Mar Grande, Cidade Submersa, Timoneiro, Pra Jogar no Oceano e Argumento, o elemento água se transforma em espelho da vida, dos amores que vão e voltam, das escolhas que nos levam à deriva ou ao porto seguro.
Mas há em sua obra outro símbolo, talvez menos evidente, que pulsa com igual intensidade: a chama. Não se trata aqui do fogo que arde intensamente e se apaga em um sopro de paixão. A chama, na poesia de Paulinho, é aquilo que resiste ao tempo, que ilumina com constância, mesmo quando parece não estar acesa. É o calor discreto, mas persistente, de uma memória viva, de uma tradição que segue em frente. É o samba, como ele próprio, que não se deixa apagar.
E é essa chama — silenciosa, firme e inapagável — que Paulinho da Viola carrega consigo ao longo de quase seis décadas de carreira. Um brilho que não apenas o acompanha, mas que o convoca, o chama, no sentido mais literal do verbo: a seguir cantando, compondo, repartindo sua luz com o mundo. Como já cantou em um de seus versos mais delicados:
“Mas se o tempo se acha no sol do poente
E do céu se retira um pedaço do azul
O poeta ressurge e lança no ar a semente
E reparte feliz a sua luz”
É justamente esse espírito que dá nome e alma ao novo espetáculo: “Quando o Samba Chama”. Um mergulho emocionado em sambas que há tempos não ecoam nos palcos, entrelaçados com clássicos que atravessaram gerações e continuam indispensáveis — como Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, Argumento, Onde a Dor Não Tem Razão, Pecado Capital e tantos outros que marcaram época e seguem tocando corações.
Mais do que um show, “Quando o Samba Chama” é um rito de celebração. Uma homenagem viva à tradição do samba, à poesia popular e à delicadeza que Paulinho da Viola sempre soube oferecer com elegância e profundidade. É um encontro entre quem já carrega suas músicas na memória afetiva e quem está apenas começando a descobrir o vasto oceano de beleza que habita sua obra.
A chama está acesa. O samba está chamando. Você vai atender?
SERVIÇO
PAULINHO DA VIOLA NA GRANDE FLORIANÓPOLIS
07 de Março de 2026
Arena Opus
São José/SC
Foto: Leo Aversa
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