Artigo por Francine Canto
A educação midiática tem se consolidado como uma resposta urgente aos desafios provocados pela crescente circulação de desinformação no ambiente digital. O conceito, promovido pela Unesco, refere-se ao desenvolvimento de competências para acessar, avaliar, produzir e compartilhar informações de forma crítica, ética e consciente.
IMPACTOS DA DESINFORMAÇÃO EXIGEM RESPOSTAS EDUCACIONAIS
Segundo o Relatório de Riscos Globais 2025, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, a desinformação é hoje o principal risco para a estabilidade global nos próximos dois anos. A pesquisa envolveu mais de 1.400 especialistas e líderes internacionais e destacou a ameaça de campanhas de manipulação informacional em processos políticos e sociais.
Anteriormente, em 2023, a Unesco em parceria com a Comissão Europeia produziu Diretrizes que apontam que a alfabetização midiática é uma das estratégias mais eficazes para combater conteúdos enganosos, discursos de ódio e teorias conspiratórias. O levantamento examinou políticas públicas de 27 países da Europa e concluiu que o investimento em educação midiática promove maior resistência social à manipulação digital.
AVANÇOS NO BRASIL: EDUCAÇÃO MIDIÁTICA CHEGA ÀS ESCOLAS
No Brasil, a discussão sobre educação midiática tem avançado principalmente por meio de iniciativas da sociedade civil e da integração ao currículo escolar. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em vigor desde 2018, inclui entre suas competências gerais o domínio da cultura digital e a formação do pensamento crítico.
Um dos destaques no país é o programa EducaMídia, coordenado pelo Instituto Palavra Aberta, que já capacitou mais de 8 mil educadores em práticas pedagógicas voltadas ao letramento digital e ao combate à desinformação. O projeto oferece recursos gratuitos e cursos para professores de diferentes etapas da educação básica, com foco na produção, análise e interpretação de conteúdo midiático.
Além das escolas, o tema vem sendo incorporado a ações comunitárias, bibliotecas públicas e redes de juventude, ampliando o alcance da alfabetização midiática em diferentes contextos sociais e faixas etárias.
EDUCAÇÃO MIDIÁTICA PRECISA ACONTECER AO LONGO DA VIDA
A compreensão de que a educação midiática deve ir além do ambiente escolar tem sido defendida por diversos especialistas. Conforme temos defendido por meio do Projeto Conecta Sapiens “a formação crítica para o uso de mídias é um direito de todos os cidadãos e precisa estar presente ao longo da vida”.
Essa abordagem contínua e intergeracional é vista como fundamental diante do fenômeno da infodemia — a sobrecarga de informações, muitas vezes falsas ou distorcidas, que dificulta a tomada de decisões conscientes, especialmente em momentos de crise sanitária, política ou climática.
ORGANISMOS INTERNACIONAIS RECOMENDAM POLÍTICAS PÚBLICAS DE ALFABETIZAÇÃO MIDIÁTICA
Em julho de 2024, a Comissão de Direitos Humanos da ONU emitiu uma recomendação oficial incentivando os Estados-membros a adotarem políticas de educação midiática como estratégia para fortalecer a democracia e os direitos humanos. O documento ressalta a importância de programas voltados à juventude, mulheres, populações periféricas e grupos historicamente mais expostos à desinformação digital.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também já apontou, em relatórios recentes, a importância de integrar a educação midiática a políticas públicas de educação e inclusão digital, destacando os impactos positivos em habilidades cognitivas, participação cívica e resiliência democrática.
A EDUCAÇÃO MIDIÁTICA COMO PILAR DA CIDADANIA DIGITAL
Com a ascensão de tecnologias baseadas em inteligência artificial e o aumento da polarização nas redes sociais, a educação midiática passa a ocupar um lugar central no debate sobre cidadania digital. O desenvolvimento de competências para reconhecer conteúdos manipulados, identificar fontes confiáveis e participar de forma ética no espaço público digital torna-se um diferencial não apenas individual, mas coletivo.
Especialistas reforçam que, embora o Brasil tenha dado passos importantes, ainda há desafios estruturais, como a falta de políticas públicas consolidadas e a necessidade de formação continuada para professores. Nesse contexto, a articulação entre governos, escolas, universidades, plataformas digitais e sociedade civil é vista como essencial para garantir a efetividade das ações.
FORMAÇÃO CRÍTICA PARA UM MUNDO CONECTADO
Diante da complexidade do ecossistema informacional contemporâneo, a educação midiática se revela como uma ferramenta indispensável para sociedades mais críticas, participativas e informadas. Investir nessa formação, segundo especialistas, não é uma opção — é uma necessidade urgente para a preservação da democracia e da integridade das informações que circulam no cotidiano.

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