Imagine a seguinte situação: você, como mãe ou pai, precisa sair de casa todos os dias para trabalhar, mas não tem onde deixar seu filho pequeno. O que fazer? Esse é um dilema enfrentado por milhares de famílias em todo o Brasil, especialmente nas grandes cidades, onde a demanda por vagas em creches públicas supera em muito a oferta disponível. Esse cenário nos leva a refletir sobre as responsabilidades dos municípios na educação pública, especialmente na educação infantil, que é uma das principais áreas de competência das prefeituras.
Conteúdos
UM DIREITO GARANTIDO, MAS NEM SEMPRE ACESSÍVEL
A Constituição Federal estabelece que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família. Mas o que isso significa na prática? Significa que os governos, em suas diferentes esferas — federal, estadual e municipal —, têm a obrigação de garantir o acesso à educação de qualidade para todas as crianças e jovens do país. No caso dos municípios, essa responsabilidade é ainda mais específica: eles devem atuar prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil, que abrange as creches e as pré-escolas.
No entanto, garantir esse direito tem se mostrado um desafio hercúleo. Em muitas regiões, as vagas em creches são escassas, e as filas de espera, intermináveis. No Rio de Janeiro, por exemplo, cerca de 7,5 mil crianças aguardam uma oportunidade para ingressar em uma creche pública. Entre elas está a pequena Maytê, de 2 anos, filha de Esteffane de Oliveira, moradora da Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
“Eu tento conseguir vaga para a minha filha há dois anos, mas até agora nada. Eles falam para mim que não tem vaga, que está tudo cheio. Eu até choro, está ficando muito complicado”, desabafa Esteffane. A situação dela não é única. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2023 (PNAD Contínua 2023), aproximadamente 2,3 milhões de crianças de 0 a 3 anos não estão em creches devido a diversas dificuldades, seja pela falta de escolas, inexistência de vagas ou porque a instituição não aceitou o aluno por causa da idade.
A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL
Por que é tão crucial que crianças como Maytê tenham acesso à creche? A educação infantil é a base para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crianças. Estudos comprovam que crianças que frequentam creches e pré-escolas de qualidade têm maiores chances de sucesso acadêmico no futuro, além de desenvolverem habilidades sociais importantes para a vida em comunidade.
Além disso, a creche oferece uma segurança fundamental para as famílias, especialmente para as mães que precisam trabalhar fora para sustentar a casa. “Minha filha de 7 anos sabe ler, faz conta, faz tudo. Meu filho de 4 está aprendendo agora também. E eu queria que ela já entrasse na creche, porque já vai sabendo o ritmo, como é a escola”, explica Esteffane. A creche não é apenas um lugar onde a criança fica enquanto os pais trabalham, mas sim um ambiente que proporciona desenvolvimento integral e prepara os pequenos para os desafios futuros.
O PAPEL DOS MUNICÍPIOS NA EDUCAÇÃO PÚBLICA
Diante de uma demanda crescente e de recursos muitas vezes limitados, como os municípios podem cumprir sua responsabilidade de garantir a educação infantil? A Constituição é clara ao determinar que as prefeituras devem destinar, no mínimo, 25% de sua arrecadação à educação. Esse recurso é essencial para a construção e manutenção de creches e escolas, para a contratação e capacitação de professores, e para a oferta de serviços de apoio, como transporte escolar e merenda.
Mas a realidade mostra que esses recursos muitas vezes não são suficientes para atender a toda a demanda. Muitos municípios enfrentam dificuldades financeiras e precisam lidar com uma série de desafios, desde a falta de infraestrutura adequada até a carência de profissionais qualificados.
Para enfrentar esses obstáculos, os municípios podem contar com o apoio do governo federal, que oferece programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (Pnate). Esses programas são fundamentais para complementar os esforços locais e garantir que as crianças tenham acesso a uma educação de qualidade, independentemente de sua localização ou condição social.
AS ELEIÇÕES E O FUTURO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA
Em meio a esses desafios, a educação pública, e especialmente a educação infantil, deve ser uma prioridade para os candidatos que disputam as eleições municipais. No próximo dia 6 de outubro, mais de 150 milhões de eleitores brasileiros terão a oportunidade de escolher seus prefeitos e vereadores, e as pautas educacionais certamente estarão em destaque nas campanhas.
Uma pesquisa Genial Quaest, divulgada em julho deste ano, revelou que a educação está entre os principais problemas considerados pelos eleitores, sendo citada por 8% dos entrevistados. Ainda que apareça atrás de temas como economia, violência e saúde, a educação continua sendo uma das áreas mais importantes para o futuro do país.
A professora Mayra Goulart, do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alerta que, embora a educação seja um tema fundamental, muitas vezes ela é abordada de forma superficial nas campanhas eleitorais. “O tema da educação aparece de outra forma por causa da polarização com a extrema direita que fala muito de Escola sem Partido, de ideologia de gênero na escola. É nesse sentido que a educação tem sido disputada, a partir da ideia de que tem que ficar a cargo da família, o que contrasta com a ideia de que a educação tem que ficar a cargo do Estado e das instituições republicanas”, afirma.
COMO ESCOLHER CANDIDATOS QUE PRIORIZEM A EDUCAÇÃO?
Diante desse cenário, como os eleitores podem identificar candidatos que realmente priorizam a educação em suas plataformas? A professora Mayra Goulart sugere que os eleitores acompanhem de perto o trabalho dos candidatos, analisando não apenas suas promessas de campanha, mas também suas ações passadas. “A participação do eleitor no acompanhamento, no controle sobre o representante, vendo se ele está cumprindo a função de representação, acho que é a chave para se proteger de falsas promessas e responsabilizar os representantes quando eles não cumprem suas propostas”, recomenda.
Os eleitores devem ficar atentos às propostas que abordam de forma clara e detalhada os desafios da educação infantil e do ensino fundamental. Promessas vagas ou que fogem da competência municipal podem ser um indicativo de que o candidato não está realmente comprometido com a melhoria da educação pública.
O QUE ESPERAR DAS PRÓXIMAS GESTÕES?
O que as próximas gestões municipais podem fazer para enfrentar os desafios da educação infantil? A solução passa por uma combinação de investimentos em infraestrutura, capacitação de professores e implementação de políticas públicas que promovam a inclusão e o acesso universal à educação.
Os municípios também devem buscar parcerias com o setor privado e com organizações da sociedade civil para ampliar a oferta de vagas em creches e melhorar a qualidade do ensino. Essas parcerias podem incluir a construção de novas unidades escolares, a oferta de cursos de capacitação para educadores e a implementação de programas de apoio às famílias em situação de vulnerabilidade social.
Além disso, é fundamental que os municípios desenvolvam políticas de planejamento e gestão educacional que sejam baseadas em dados e evidências, permitindo que as decisões sejam tomadas de forma eficiente e eficaz. A transparência na utilização dos recursos públicos e a prestação de contas à população também são essenciais para garantir que a educação pública seja uma prioridade real e não apenas uma promessa de campanha.
A LUTA CONTINUA
A história de Esteffane e de sua filha Maytê é um exemplo claro dos desafios que muitas famílias brasileiras enfrentam em busca de uma educação de qualidade para seus filhos. Embora a Constituição garanta o direito à educação, a realidade mostra que ainda há muito a ser feito para que esse direito seja plenamente acessível a todos.
Os municípios têm um papel crucial nesse processo, sendo responsáveis por garantir a educação infantil e o ensino fundamental. Mas para que isso aconteça, é necessário que as gestões municipais estejam realmente comprometidas com essa causa, destinando os recursos necessários e implementando políticas públicas que façam a diferença na vida das crianças e de suas famílias.
Neste ano eleitoral, os eleitores têm a oportunidade de escolher candidatos que estejam verdadeiramente comprometidos com a educação pública. E para fazer essa escolha de forma consciente, é fundamental que cada eleitor se informe, acompanhe as propostas e, principalmente, cobre resultados dos futuros gestores.
Acompanhe o Portal Conecta SC e fique por dentro das notícias de Santa Catarina também nas redes sociais: Facebook | LinkedIn | Instagram
Receba os destaques semanais do Portal Conecta SC por email, assine nossa newsletter.

Grande Florianópolis alcança um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil
Santa Catarina ultrapassa 10 mil multas por porte e uso de drogas em locais públicos desde 2024
Detran-SC orienta motoristas a buscar CNHs antes da destruição
Quem paga a conta quando atacam o Brasil? – Artigo por Décio Lima