O endividamento das mulheres brasileiras continua a ser um problema significativo, refletindo não apenas as questões econômicas, mas também as desigualdades históricas enfrentadas pelo público feminino. O cenário, entretanto, tem mostrado mudanças, embora ainda longe de ser ideal. Dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e da Serasa, duas das principais fontes de informações sobre o crédito no Brasil, destacam como as mulheres continuam a ser as mais afetadas pelas dívidas. Mas, afinal, quais são os motivos que explicam essa realidade?
Conteúdos
- O CENÁRIO DE ENDIVIDAMENTO FEMININO NO BRASIL
- A DIFICULDADE DE OBTENÇÃO DE CRÉDITO E A REALIDADE DO EMPREENDEDORISMO FEMININO
- A CARGA FINANCEIRA DAS MULHERES NA FAMÍLIA
- AS MULHERES E A GESTÃO DO ORÇAMENTO FAMILIAR
- OS DESAFIOS DAS MULHERES AO BUSCAR CRÉDITO
- COMO GERIR A DÍVIDA DE FORMA CONSCIENTE?
- O CAMINHO PARA A INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA
O CENÁRIO DE ENDIVIDAMENTO FEMININO NO BRASIL
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), publicada pela CNC em março de 2025, revelou que 76,9% das mulheres estavam endividadas em fevereiro deste ano. Embora o número tenha apresentado uma leve diminuição em comparação com 2024, ainda é superior ao índice de endividamento dos homens (76%). Para se ter uma ideia, no ano passado, a diferença era de 1,6 ponto percentual, com 78,8% das mulheres contra 77,2% dos homens.
Mas o que explica esse endividamento mais elevado entre as mulheres? Felipe Tavares, economista-chefe da CNC, afirma que “historicamente, sempre houve uma diferença salarial entre homens e mulheres. Isso tem diminuído ao longo do tempo, mas a mulher ainda enfrenta desafios financeiros devido à menor renda. Ela precisa de mais crédito, pois tem menos recursos para gerir seu cotidiano e sua vida.”
Ou seja, a disparidade salarial continua a impactar diretamente as finanças das mulheres, tornando-as mais dependentes do crédito para lidar com as despesas diárias. É um ciclo difícil de quebrar, mas que tem recebido atenção crescente no Brasil.
A DIFICULDADE DE OBTENÇÃO DE CRÉDITO E A REALIDADE DO EMPREENDEDORISMO FEMININO
Outro ponto crítico é a dificuldade que as mulheres encontram para acessar crédito. Esse é um dos maiores obstáculos para o crescimento do empreendedorismo feminino. Merula Borges, especialista em finanças da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), observa que “as mulheres enfrentam mais dificuldades para tomar crédito e muitas vezes acabam empreendendo de forma informal como uma estratégia de subsistência.”
O empreendedorismo feminino, ainda que crescente, é frequentemente marcado pela informalidade. As mulheres, especialmente as que pertencem a faixas de renda mais baixas, muitas vezes não conseguem acessar os mesmos recursos financeiros que seus pares masculinos, o que limita suas possibilidades de crescimento e estabilidade.
A CARGA FINANCEIRA DAS MULHERES NA FAMÍLIA
Além de enfrentar dificuldades no mercado de trabalho e no acesso a crédito, muitas mulheres, principalmente nas classes D e E, carregam sozinhas a responsabilidade pelas despesas familiares. A pesquisa realizada pela Serasa aponta que 93% das mulheres têm participação financeira nas despesas da casa, e em 33% dos lares, elas são as únicas responsáveis. Esse índice é ainda mais alarmante nas faixas de renda mais baixa, onde 43% das mulheres são as únicas a arcar com as contas da casa.
Esse cenário reflete a sobrecarga enfrentada por muitas mulheres, que lidam com uma dupla jornada: o trabalho remunerado e as tarefas domésticas. Tamires Castro, especialista da Serasa, ressalta que “as mulheres seguram a casa sozinhas, têm dupla jornada e ainda se preocupam em não deixar dívidas em aberto. Isso é essencial para evitar dificuldades em solicitar crédito no futuro.”
AS MULHERES E A GESTÃO DO ORÇAMENTO FAMILIAR
Embora a diferença no nível de endividamento entre homens e mulheres ainda seja um desafio, as mulheres demonstram maior consciência sobre a importância da gestão financeira. Segundo a pesquisa da Serasa, 40% das mulheres se preocupam em organizar o orçamento familiar de forma a evitar o acúmulo de dívidas. Um dado curioso é que as mulheres fecham 25% mais acordos do que os homens no Feirão Serasa Limpa Nome, um evento criado para ajudar os devedores a regularizar sua situação financeira e retirar seus nomes da lista de inadimplentes.
Felipe Tavares destaca que, apesar de estarem mais endividadas, as mulheres tendem a ser mais responsáveis com seu orçamento. “Mesmo em tempos de menor independência financeira, as mulheres sempre tiveram um papel importante na gestão do orçamento familiar. Esse controle tende a ser mais eficaz quando a renda feminina aumenta, e isso reflete em melhores condições financeiras”, observa.
OS DESAFIOS DAS MULHERES AO BUSCAR CRÉDITO
Embora as mulheres mostrem maior dedicação à organização financeira, ainda assim, enfrentam desafios significativos para obter crédito. De acordo com a Serasa, 47% das mulheres apontam a dificuldade de acesso ao crédito como um dos maiores obstáculos financeiros, e 31% mencionam o endividamento como um desafio constante. Além disso, 85% das mulheres já tiveram algum pedido de crédito negado.
As razões para solicitar crédito são variadas, mas uma coisa é clara: a maior parte dos pedidos está relacionada ao pagamento de despesas imprevistas e ao parcelamento do cartão de crédito. De acordo com a pesquisa, 26% das mulheres solicitaram crédito para cobrir gastos inesperados, enquanto 22% o fizeram para liquidar dívidas no cartão.
COMO GERIR A DÍVIDA DE FORMA CONSCIENTE?
Mas, afinal, como as mulheres podem contornar esse cenário e manter as finanças pessoais equilibradas? Merula Borges sugere que, ao utilizar o cartão de crédito, é preciso estar atenta à tentação dos benefícios “extras”, como milhas e pontos, que podem esconder a verdadeira dor financeira. “A tentação é maior porque não há a sensação imediata de falta de dinheiro, já que o pagamento pode ser parcelado. Porém, é preciso ter muito cuidado com isso”, alerta.
Felipe Tavares concorda e lembra que “nem toda dívida é ruim. Se for feita de forma consciente, com boas taxas e condições acessíveis ao orçamento, ela pode ser benéfica.” Portanto, ao buscar crédito, a recomendação é sempre analisar com cautela as taxas de juros, as condições do financiamento e, claro, os prazos de pagamento.
Tamires Castro reforça a importância de manter o controle rigoroso do orçamento: “É essencial saber exatamente quanto se ganha e quanto se gasta. Isso evita surpresas no fim do mês e ajuda a evitar o acúmulo de dívidas difíceis de pagar.”
O CAMINHO PARA A INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA
Em um Brasil onde as mulheres continuam a enfrentar desafios significativos no acesso a crédito e no gerenciamento de suas finanças, a conscientização sobre a importância da educação financeira nunca foi tão crucial. A combinação de desigualdade salarial, sobrecarga doméstica e dificuldades de acesso ao crédito cria um cenário desafiador. No entanto, as mulheres brasileiras estão cada vez mais conscientes da necessidade de gerenciar seu orçamento de forma eficiente e de buscar alternativas para melhorar sua situação financeira.
Ao tomarem o controle de suas finanças e buscarem por opções mais conscientes de crédito, as mulheres podem, sim, conquistar a independência financeira que tanto merecem. O futuro é promissor, e a mudança está em curso. E você, mulher, já está no caminho de transformar suas finanças?
Fonte: Agência Brasil
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