O que os números revelam quando somos obrigados a encará-los de frente? Em 2024, um dado que deveria causar indignação — e ação — permanece quase inalterado: as mulheres brasileiras continuam ganhando menos que os homens. E não estamos falando de pequenas diferenças.
Segundo o 3º Relatório de Transparência Salarial e Igualdade Salarial, divulgado pelos Ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e da Mulher, as mulheres receberam, em média, 20,9% a menos que os homens em mais de 53 mil empresas com 100 ou mais funcionários. Uma realidade que se repete ano após ano. Em 2023, essa diferença foi de 20,7%. Em 2022, 19,4%.
Como aceitar que, em pleno 2024, a equidade de gênero ainda não é uma realidade definida no mercado de trabalho?
Conteúdos
- REMUNERAÇÃO: O ESPELHO DAS DESIGUALDADES ESTRUTURAIS
- MULHERES NEGRAS: A DESIGUALDADE AINDA MAIS PROFUNDA
- NOS CARGOS DE COMANDO, A DESIGUALDADE É AINDA MAIOR
- A CULTURA DO CUIDADO E O PESO DO INVISÍVEL
- HÁ SINAIS DE MUDANÇA? SIM, MAS A PASSOS LENTOS
- A PARTICIPAÇÃO FEMININA CRESCE, MAS A RENDA NÃO ACOMPANHA
- R$ 95 BILHÕES POR ANO: O CUSTO INVISÍVEL DA DESIGUALDADE
- DEFINIR UMA NOVA REALIDADE: A TAREFA URGENTE DE EMPRESAS E GESTORES
- DEFINIR A IGUALDADE É O PRIMEIRO PASSO PARA ALCANÇÁ-LA
REMUNERAÇÃO: O ESPELHO DAS DESIGUALDADES ESTRUTURAIS
Ao se aprofundar nos dados, a desigualdade torna-se ainda mais visível. De acordo com o relatório:
“Na remuneração média, os homens ganham R$ 4.745,53, enquanto as mulheres ganham R$ 3.755,01. Quando se trata de mulheres negras, o salário médio vai para R$ 2.864,39.”
Esses números não são apenas estatísticas. Eles definem trajetórias, determinando o acesso a oportunidades, qualidade de vida e autonomia financeira. E, como sabemos, a remuneração não é apenas um fim, mas um reflexo — e um meio — de poder.
MULHERES NEGRAS: A DESIGUALDADE AINDA MAIS PROFUNDA
Quando o recorte é racial, o cenário se agrava. As mulheres negras recebem, em média, 52,5% menos que os homens não negros. Um retrocesso, considerando que em 2023 essa diferença era de 49,7%.
Sim, você leu certo: mais da metade do valor do salário de um homem branco é negado a uma mulher negra, mesmo quando ambas as funções exigem as mesmas qualificações. Como definir justiça em um contexto assim?
NOS CARGOS DE COMANDO, A DESIGUALDADE É AINDA MAIOR
Para quem acredita que subir na hierarquia profissional é garantia de equidade, os dados mostram o contrário. Nos cargos de diretoria e gerência, as mulheres ganham 26,8% menos que os homens.
E quando falamos de profissionais com ensino superior completo, a discrepância é ainda mais alarmante: mulheres com diploma recebem 31,5% menos do que homens com a mesma formação. Em que momento o mérito deixou de definir a recompensa?
A CULTURA DO CUIDADO E O PESO DO INVISÍVEL
Para a ministra da Mulher, Cida Gonçalves, a raiz dessa desigualdade está nas estruturas invisíveis da sociedade:
“Desde a responsabilidade das mulheres pelo trabalho do cuidado à mentalidade de cada empresa, que precisa entender que ela só irá ganhar tendo mais mulheres compondo sua força de trabalho, e com salários maiores.”
Ou seja, não basta apenas contratar mulheres — é preciso definir políticas internas que combatam os vieses inconscientes, valorizem o cuidado e garantam remuneração justa.
HÁ SINAIS DE MUDANÇA? SIM, MAS A PASSOS LENTOS
Apesar da estabilidade nas disparidades salariais, alguns avanços tímidos foram registrados. O relatório aponta que:
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Houve um aumento no número de mulheres negras no mercado de trabalho, passando de 3,2 milhões para 3,8 milhões.
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Reduziu-se o número de empresas com menos de 10% de mulheres negras contratadas: de 21,6 mil para 20,4 mil.
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Cresceu o número de estabelecimentos onde a diferença salarial entre homens e mulheres é de até 5%.
Boas notícias? Sim. Mas é suficiente? Ainda não.
A PARTICIPAÇÃO FEMININA CRESCE, MAS A RENDA NÃO ACOMPANHA
Entre 2015 e 2024, a participação das mulheres no mercado de trabalho aumentou: de 38,8 milhões para 44,8 milhões de empregos ocupados por mulheres. Um crescimento de mais de 6 milhões de vagas.
No mesmo período, o número de homens empregados aumentou em 5,5 milhões, chegando a 53,5 milhões.
Contudo, como alerta Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas do Trabalho do MTE:
“Essa relativa estabilidade decorre das remunerações menores das mulheres, uma vez que o número delas no mercado de trabalho é crescente.”
Ou seja: mais mulheres trabalhando não significa mais mulheres ganhando bem. A equação ainda não fecha.
R$ 95 BILHÕES POR ANO: O CUSTO INVISÍVEL DA DESIGUALDADE
Agora, imagine um país onde as mulheres recebam exatamente o mesmo salário que os homens para a mesma função. O que mudaria?
De acordo com o relatório, se isso fosse realidade em 2024, R$ 95 bilhões teriam sido injetados na economia brasileira.
Sim, bilhões. É esse o tamanho do prejuízo financeiro causado pela desigualdade salarial. Quanto mais tempo adiarmos a equidade, mais caro pagamos — todos nós.
DEFINIR UMA NOVA REALIDADE: A TAREFA URGENTE DE EMPRESAS E GESTORES
O momento é de decisão. Está nas mãos das lideranças empresariais, dos setores públicos e da sociedade civil definir um novo padrão de justiça e respeito no mundo do trabalho.
Não basta “esperar que mude com o tempo”. É preciso definir, com ações concretas, como será o futuro: com políticas de transparência, inclusão, promoção de mulheres negras, revisão de faixas salariais e equidade nas promoções.
A mudança começa quando a desigualdade deixa de ser tolerada e passa a ser enfrentada.
DEFINIR A IGUALDADE É O PRIMEIRO PASSO PARA ALCANÇÁ-LA
Se queremos uma sociedade mais justa, é hora de definir claramente quais valores sustentam nossas estruturas. Continuar aceitando a diferença de quase 21% nos salários de homens e mulheres é fechar os olhos para uma ferida aberta — que sangra, silenciosamente, todos os dias.
E então, vamos continuar chamando isso de normalidade? Ou chegou a hora de redefinir o que é justo, possível e necessário?
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