Em meio ao cenário de incertezas econômicas, surge uma pergunta que não quer calar: será que os programas de crédito realmente estão ao lado dos pequenos? Ou continuam alimentando uma engrenagem que privilegia os que já têm acesso facilitado a financiamentos?
Santa Catarina acaba de registrar um feito expressivo no que diz respeito ao Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). Operado localmente pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), o programa movimentou mais de R$ 100 milhões em apenas dois meses. De acordo com o BRDE, esse montante já foi distribuído a mais de 600 empreendimentos em mais de 130 municípios catarinenses.
O objetivo é ambicioso: liberar até R$ 500 milhões em crédito até o fim do ano. Mas será que o dinheiro está chegando onde mais se precisa?
Conteúdos
UMA NARRATIVA BEM BONITA
Com taxas de juros atreladas à Selic e um modelo de carência de seis meses, seguidos de 24 meses para amortização, o programa apresenta atrativos. O Governo de Santa Catarina entra como apoiador, subsidiando os encargos financeiros — o que na teoria deveria facilitar o acesso ao crédito para micro e pequenas empresas. Mas será que está funcionando assim, de fato?
Segundo Mauro Mariani, diretor de Acompanhamento e Recuperação de Créditos do BRDE, o impacto é positivo:
“Essa é uma política pública consolidada em Santa Catarina. O Pronampe chega ao empreendedor com juros mais baixos, prazos ampliados e uma estrutura de apoio que garante o fôlego necessário para o crescimento dos negócios. É dinheiro que gera oportunidades e movimenta nossa economia.”
Uma fala bonita, sem dúvida. Mas basta escutar os pequenos empreendedores para perceber que nem todos conseguem acessar essas tais “oportunidades”. O trâmite burocrático, a exigência de garantias e a intermediação feita de forma parceial por cooperativas e instituições financeiras parceiras continuam, muitas vezes, afastando justamente quem mais precisa do apoio.
HISTÓRIAS FICTÍCIAS QUE REFLETEM A REALIDADE
Para além dos números, é no dia a dia dos pequenos empreendedores que se revela o verdadeiro impacto do Pronampe — ou a falta dele.
Imagine, por exemplo, a situação de Carla, dona de uma pequena loja de artesanato em Lages. Ao tentar acessar o Pronampe, descobriu que, antes de sequer entrar com o pedido, precisaria abrir uma conta em uma cooperativa, arcar com uma cota de participação e aguardar mais de três meses para estar apta a solicitar o crédito. E mesmo assim, sem qualquer garantia de que o pedido seria aceito.
Já Marcos, proprietário de uma lanchonete em Joinville, viu sua solicitação emperrar porque, embora tivesse faturamento estável, não conseguia oferecer as garantias exigidas pela instituição financeira parceira. O processo de análise se arrastou por semanas, até que ele desistiu — o equipamento que precisava substituir com urgência teve que ser comprado a prazo, com juros muito mais altos no cartão de crédito.
Outro exemplo vem de Tânia, microempreendedora do ramo de moda em Palhoça. Mesmo com a empresa saudável financeiramente e sem dívidas, o limite de crédito oferecido foi irrisório. Como o valor do financiamento é baseado no faturamento do ano anterior, negócios em fase de crescimento acabam sendo penalizados — justamente quando mais precisam de capital para expandir.
Casos como esses mostram que, apesar das intenções positivas e dos números expressivos divulgados, o acesso ao crédito pelo Pronampe ainda está longe de ser uma realidade para todos.
AFINAL, QUEM ESTÁ SENDO BENEFICIADO?
O Oeste do estado lidera o volume de financiamentos, com cerca de R$ 65 milhões contratados por mais de 400 empresas. No Norte, foram mais de R$ 12 milhões. O Vale do Itajaí (R$ 11,8 milhões), Sul (R$ 10 milhões), Grande Florianópolis (R$ 2,7 milhões) e a Serra (R$ 2,3 milhões) completam a lista.
Municípios como São Miguel do Oeste, Maravilha, Chapecó, Cunhã Porã, Xanxerê e Joinville estão entre os mais beneficiados. A concentração chama a atenção: será que todas as regiões e perfis de empreendedores estão sendo atendidos de forma justa? Ou será que o crédito está indo para quem já possui musculatura financeira e boa reputação bancária?
O DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE: REALIDADE OU VITRINE?
Outro dado destacado pelo BRDE é a alta adesão ao Pronampe BRDE Sustentável, que responde por mais de 85% dos contratos firmados até agora. O foco em negócios alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é, sem dúvida, um ponto positivo — no papel.
A linha de crédito promete apoiar empresas que buscam práticas responsáveis do ponto de vista ambiental, social e de governança. Mas também levanta outra dúvida: será que as empresas que realmente estão nas margens da economia — aquelas que mal têm estrutura para desenvolver relatórios de impacto socioambiental — conseguem acessar esse crédito? Ou, de novo, são os grandes travestidos de pequenos que saem na frente?
As modalidades voltadas à exportação (Pronampe BRDE Exportação) e à inovação (Pronampe BRDE Inova) completam o portfólio. Todas interessantes, mas todas exigindo requisitos que podem excluir uma boa parcela dos empreendedores informais ou com baixo nível de formalização — exatamente os que mais precisam de ajuda.
IMPACTO ECONÔMICO: NÚMEROS VERSUS REALIDADE
Kleinübing, autoridade que também acompanha a execução do programa, acredita na potência transformadora da iniciativa:
“Esse programa tem ajudado a transformar vidas. Hoje, os pequenos negócios são responsáveis por cerca de 30% do PIB catarinense, e essa estrutura de crédito acessível é fundamental para garantir que eles sigam crescendo com segurança e planejamento.”
Transformar vidas — um propósito nobre, mas que exige uma execução transparente e verdadeiramente inclusiva. O risco de que o Pronampe funcione como um impulsionador dos já impulsionados é real.
PRONAMPE 2025: PARA QUEM?
As inscrições e informações sobre o Pronampe 2025 podem ser obtidas nas cooperativas de crédito atuantes no estado. Para quem tem CNPJ, histórico financeiro consistente, pode ser uma excelente chance de expansão. Para os demais, fica o desafio — e a esperança — de que programas como este se tornem, de fato, democráticos.
Porque no fim das contas, não basta que o dinheiro esteja disponível. É preciso que ele esteja acessível quando o empreendedor dele precisa.
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