Quantas crianças você viu nascer em 2023? Talvez menos do que imaginava. Pela quinta vez consecutiva, o Brasil viu cair o número de novos brasileiros registrados, atingindo o menor patamar em quase 50 anos. Os dados são do levantamento Estatísticas do Registro Civil, divulgado nesta sexta-feira (16) pelo IBGE.
Foram 2,52 milhões de nascimentos registrados em 2023, uma leve queda de 0,7% em relação ao ano anterior. Mas não se engane: a tendência é significativa quando se olha para o passado recente. O número é 12% inferior à média anual registrada entre 2015 e 2019, antes da pandemia.
Conteúdos
O QUE EXPLICA A QUEDA NA NATALIDADE?
Será que estamos mesmo tendo menos filhos — ou apenas registrando mais tarde? Segundo o IBGE, dos 2,6 milhões de registros totais de nascimento feitos em 2023, cerca de 75 mil se referem a pessoas nascidas em anos anteriores, mas oficializadas apenas agora. Mesmo com esse ajuste, os dados confirmam a tendência: o número de nascidos vivos oficialmente registrados no ano passado (2,518 milhões) é o menor desde 1976, quando foram 2,467 milhões.
Mas por que esse movimento? De acordo com Klivia Brayner de Oliveira, gerente da pesquisa do IBGE, há uma combinação de fatores sociais e econômicos influenciando essa decisão:
“As mulheres estão adiando a vontade de querer ter filhos, dando prioridade para estudos”, explica. “Conforme a idade vai passando, você vai adiando essa decisão de ter filhos, e a chance de ter mais filhos também é menor”.
A também pesquisadora do IBGE, Cintia Simões Agostinho, reforça que esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil:
“Em países desenvolvidos, países em desenvolvimento, é um fenômeno bastante conhecido”, aponta.
A MATERNIDADE ESTÁ CADA VEZ MAIS TARDIA
O retrato da maternidade no Brasil também está mudando. Em 2003, 20,9% dos nascimentos eram de mães com até 19 anos. Já em 2023, esse número caiu quase pela metade: 11,8%. Enquanto isso, o número de nascimentos de mulheres com 30 anos ou mais quase dobrou em duas décadas, saltando de 23,9% para 39%.
E o que dizer das mães com 40 anos ou mais? Elas também cresceram em participação, passando de 2,1% para 4,3% do total. Isso representa cerca de 109 mil nascimentos só em 2023 de mulheres nessa faixa etária.
DIFERENÇAS REGIONAIS: QUEM TEM FILHOS MAIS CEDO?
A decisão de quando ter filhos também varia bastante pelo território nacional. Regiões como o Norte (18,7%) e o Nordeste (14,3%) ainda apresentam taxas mais altas de maternidade na adolescência, enquanto no Sul esse índice é de apenas 8,8%.
Quer um exemplo mais específico? No Acre, 21,4% dos nascimentos de 2023 foram de mães com até 19 anos. Já no Distrito Federal, o cenário é o oposto: quase metade (49,4%) dos nascimentos vieram de mulheres com 30 anos ou mais.
A explicação, segundo Klivia de Oliveira, envolve questões culturais, acesso a serviços públicos e desigualdade social:
“Mulheres menos favorecidas economicamente, com mais dificuldade, tendem a ter mais filhos”, afirma. “Em vários lugares, existem nascimentos e óbitos que não eram registrados”, complementa, ressaltando que hoje o retrato é mais fiel à realidade.
MENOS MORTES TAMBÉM MARCARAM O ANO DE 2023
Enquanto nascimentos caem, outro indicador importante também segue em declínio: o número de óbitos. Em 2023, o país registrou 1,43 milhão de mortes, uma redução de 5% em relação a 2022 — segundo ano consecutivo de queda após o auge da pandemia da covid-19.
Para efeito de comparação, veja a evolução:
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2020: 1,51 milhão
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2021: 1,79 milhão (pico da pandemia)
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2022: 1,5 milhão
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2023: 1,43 milhão
A maior parte da redução se deve ao recuo dos efeitos da pandemia. Houve 55,7 mil mortes a menos por “doenças por vírus de localização não especificada”, categoria que inclui a covid-19.
HÁ MAIS HOMENS MORRENDO QUE MULHERES
Um dado que chama atenção é a razão de sexo entre os óbitos. Em 2023, 121,2 homens morreram para cada 100 mulheres. E em faixas etárias mais jovens, essa diferença se acentua ainda mais. Entre os 20 e 24 anos, são 872 mortes masculinas para cada 100 femininas — um abismo que levanta alertas sobre causas externas e violência.
Aliás, 7% das mortes no Brasil em 2023 foram causadas por motivos não naturais, como acidentes, homicídios e suicídios. Já 2,3% tiveram causa ignorada.
UM NOVO BRASIL ESTÁ NASCENDO?
O Brasil de 2023 parece estar redesenhando seus ciclos de vida. Mulheres adiam a maternidade, famílias estão menores, e a expectativa de vida aumenta com a queda dos óbitos — especialmente depois dos anos difíceis da pandemia.
O que isso representa para o futuro do país? Menos nascimentos agora significam, mais adiante, impactos na força de trabalho, no consumo, nas políticas públicas e na Previdência. E, como bem lembra o IBGE, não estamos sozinhos: essa é uma tendência global.
Resta saber: estamos preparados para esse novo capítulo demográfico?
Fonte: Agência Brasil
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