“O Sul é nosso país”: discurso de Jorginho Mello reaquece pauta separatista na política nacional

Durante evento no Paraná, governador catarinense mencionou separação regional em tom descontraído, reacendendo discussões sobre o movimento "O Sul é o Meu País"

Escrito por João Pertile

Na última quinta-feira (12), o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, trouxe à tona a discussão da limitação demográfica que tornaria a região Sul um novo país. Na fala, Jorginho “brinca” dizendo: “Temos dois candidatos à Presidência da República aqui. Daqui a pouco, se o negócio não funcionar muito bem lá para cima, nós passamos uma trena para o lado de cá e fazemos ‘o Sul é nosso país’, né?”, tirando risos da plateia. O discurso aconteceu em um evento de construção civil em Curitiba, no Paraná.

Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Mello se referia aos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), e do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), ao citar possíveis candidatos à presidência. Jorginho afirmou que os mesmos mantêm boas relações entre os três estados sulistas.

Apesar de inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro ainda se vê como possível candidato para o pleito na próxima eleição, descartando os nomes cogitados pelo político catarinense. Ratinho e Leite podem ser apostas futuras, mas ainda não são os prediletos. O presidente da República e possível candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), Luiz Inácio Lula da Silva, segue liderando as pesquisas no primeiro turno, vencendo em todos os cenários.

O MOVIMENTO “O SUL É O MEU PAÍS”

Embora muitos acreditem que a pauta é recente, o movimento “O Sul é o meu país” foi fundado originalmente em 1992 no município de Laguna/SC, pelo historiador e político brasileiro Adílcio Cadorin. Hoje, tem sua sede na cidade de São Sepé/RS e tem comissões por inúmeras cidades da região.

Em 2016, o movimento ganhou força com diversas manifestações aumentando o número de apoiadores e chegando a lugares que antes não estava. Segundo as lideranças, o movimento possui mais de 30 mil filiados e cerca de 300 mil simpatizantes.

Os defensores do movimento justificam a proposta de autonomia regional com base no princípio da autodeterminação dos povos. Entre os argumentos mais recorrentes estão questões culturais, políticas e econômicas, especialmente o descontentamento com a elevada carga tributária imposta aos estados da região.

No entanto, há divergência entre especialistas. O historiador Gilmar Arruda questiona a existência de diferenças regionais e culturais expressivas, apontando que os elementos destacados pelos separatistas não se diferenciam de forma significativa do restante do país. Em contraponto, o cientista social Fernando Schuler reconhece “enormes diferenças culturais” entre o Sul e as regiões tropicais do Brasil. Para ele, embora as reivindicações levantadas pelo grupo sejam “válidas”, sua viabilidade prática é extremamente limitada.

PESQUISA PLEBISUL

O Plebisul é uma iniciativa de caráter simbólico, idealizada e financiada pelo movimento “O Sul é o Meu País”, com o objetivo de consultar os moradores dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná sobre o desejo de formar uma nação independente. Apesar de não ter validade jurídica, a proposta busca medir o apoio popular à separação da região sul do restante do Brasil. A primeira edição aconteceu em 1º de outubro de 2016, em centenas de municípios sulistas, e contou com a participação de 616.917 pessoas.

REAÇÕES

O movimento separatista do Sul do Brasil desperta diferentes opiniões entre especialistas. Para o historiador Gilmar Arruda, a ideia de identidade própria baseada no clima e nas paisagens da região, como os pampas, não se sustenta, já que o país é formado por uma mistura cultural bastante homogênea. Por outro lado, Jean Baptiste Nardi observa que o brasileiro tende a se identificar mais com sua região do que com uma identidade nacional, cuja definição, segundo ele, ainda é incerta.

O cientista social Fernando Schuler reconhece grandes diferenças culturais entre o Sul e as áreas tropicais do Brasil, embora considere a separação uma proposta sem viabilidade prática.

O movimento também enfrentou acusações de xenofobia, especialmente nos anos iniciais, o que foi negado pelos organizadores, que defendem o caráter multicultural da causa e afirmam que a motivação é política e econômica. Entre os críticos, o economista Alfredo Meneghetti questiona a sustentabilidade econômica de um eventual novo país, enquanto o cientista político Rodrigo González destaca que o projeto de independência é inconstitucional e, portanto, praticamente inviável.

O FUTURO

A separação da região Sul do Brasil não é legalmente possível segundo a Constituição de 1988, que define o país como indivisível. Nem mesmo com apoio popular um estado pode se desligar da federação por conta própria.

Movimentos separatistas, como o “O Sul é o Meu País”, e consultas informais não têm validade jurídica. Para que uma separação ocorresse, seria necessário alterar a Constituição, algo altamente improvável no cenário político atual.

Mesmo que houvesse uma tentativa de independência, o reconhecimento internacional dependeria da aceitação de outros países e da ONU, o que dificilmente ocorreria sem o aval do governo brasileiro.

Fontes: Wikipédia/Movimento Sul É O Meu País/UOL Notícias

 

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