A Câmara dos Deputados aprovou, na noite de quarta-feira (5), o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 03/2025, que restringe o acesso ao aborto legal para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. O texto, de autoria da deputada Chris Tonietto (PL-RJ), recebeu 317 votos favoráveis e 111 contrários, e segue agora para análise no Senado Federal.
O projeto propõe sustar a decisão do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que estabelece diretrizes para o atendimento humanizado e prioritário de meninas vítimas de estupro na rede pública de saúde.
Conteúdos
- GOVERNO ALERTA PARA RISCOS À PROTEÇÃO INFANTIL
- CONANDA DEFENDE RESOLUÇÃO E CLASSIFICA PDL COMO RETROCESSO
- RESOLUÇÃO GARANTE ATENDIMENTO HUMANIZADO E SIGILOSO
- MINISTÉRIO DAS MULHERES DESTACA IMPACTO SOCIAL DAS GESTAÇÕES FORÇADAS
- MOVIMENTOS SOCIAIS LANÇAM CAMPANHA CONTRA O PROJETO
- PESQUISAS REVELAM APOIO POPULAR AO DIREITO DE INTERROMPER GRAVIDEZ RESULTANTE DE ESTUPRO
- REAÇÃO NO CONGRESSO
- O PRÓXIMO PASSO
GOVERNO ALERTA PARA RISCOS À PROTEÇÃO INFANTIL
Em nota divulgada à imprensa, o Ministério das Mulheres expressou preocupação com a proposta. Segundo a pasta, a decisão do Conanda garante a aplicação de direitos já previstos na legislação brasileira.
“O PDL, ao anular essa orientação, cria um vácuo que dificulta o acesso dessas vítimas ao atendimento e representa um retrocesso em sua proteção”, destacou o comunicado oficial.
Entre 2013 e 2023, o Brasil registrou mais de 232 mil nascimentos de mães com até 14 anos. Segundo o ministério, “são gestações infantis decorrentes de estupro de vulnerável. Embora a lei garanta o aborto legal em casos de estupro, milhares de meninas são forçadas à maternidade anualmente”.
Em 2023, apenas 154 meninas conseguiram acessar o direito ao aborto legal no país.
CONANDA DEFENDE RESOLUÇÃO E CLASSIFICA PDL COMO RETROCESSO
A vice-presidenta do Conanda, Marina De Pol Poniwas, criticou a decisão da Câmara e afirmou que o projeto “afronta direitos fundamentais”.
“Esse é um debate de saúde pública, não do Legislativo, mas não querem permitir que um órgão como o Conanda exerça sua função para que essas crianças e adolescentes sejam de fato protegidos”, declarou.
Marina, que presidia o conselho no ano passado e assinou a Resolução 258/2024, explicou que o documento foi elaborado diante do aumento de casos de estupro e da necessidade de padronizar o atendimento às vítimas.
Segundo ela, “o aborto legal não é crime. O Código Penal tem previsão com relação a isso desde 1940. O Estatuto da Criança e do Adolescente é absolutamente protetivo, um marco civilizatório na nossa sociedade”.
RESOLUÇÃO GARANTE ATENDIMENTO HUMANIZADO E SIGILOSO
A Resolução 258/24 orienta que a interrupção da gravidez em casos de violência sexual não dependa de boletim de ocorrência, decisão judicial ou comunicação aos responsáveis legais quando houver suspeita de que o abuso tenha ocorrido no ambiente familiar.
O texto também estabelece que os serviços de saúde e assistência social devem assegurar sigilo e escuta especializada às vítimas, priorizando a vontade da criança ou adolescente quando houver conflito com os responsáveis legais.
De acordo com Marina, o objetivo é “orientar o sistema de garantia de direitos sobre como utilizar o arcabouço legal existente para acessar um direito previsto desde 1940, mas que vem sendo constantemente impedido”.
MINISTÉRIO DAS MULHERES DESTACA IMPACTO SOCIAL DAS GESTAÇÕES FORÇADAS
O Ministério das Mulheres reforçou que a gravidez infantil forçada é uma das principais causas de evasão escolar feminina e resulta, em média, na morte de uma menina por semana no país.
“A resolução do Conanda não cria novos direitos, apenas detalha como aplicar a lei para salvar vidas. Suspender esta medida é fechar os olhos para a violência e falhar com as meninas brasileiras”, pontuou a pasta.
MOVIMENTOS SOCIAIS LANÇAM CAMPANHA CONTRA O PROJETO
Organizações de defesa dos direitos das mulheres e das crianças reagiram ao PDL com a campanha “Criança não é mãe”, que promoveu um abaixo-assinado e convocou manifestações em várias capitais, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Espírito Santo.
A codiretora da campanha “Nem Presa Nem Morta”, Laura Molinari, afirmou que propostas como essa costumam ganhar força em períodos eleitorais.
“Entra em um pacote moral das candidaturas e dos políticos de extrema direita. São os candidatos que falam que são contra as drogas, contra os gays e contra o aborto. Mas a gente tem um problema real que não entra nessa conta, que é justamente o caso das meninas que sofrem violência e terminam grávidas”, explicou.
Ela ressaltou que, embora o aborto legal seja previsto desde 1940 em casos de estupro e risco de vida, menos de 4% dos municípios brasileiros possuem serviços para realizar o procedimento.
PESQUISAS REVELAM APOIO POPULAR AO DIREITO DE INTERROMPER GRAVIDEZ RESULTANTE DE ESTUPRO
Levantamento do Instituto Patrícia Galvão mostra que 96% dos brasileiros acreditam que meninas de até 13 anos não têm preparo físico e emocional para a maternidade, e 82% defendem o direito ao aborto em casos de estupro.
Em outro estudo, 94% dos entrevistados consideraram justa a interrupção da gravidez no caso da menina de 10 anos que foi violentada pelo tio no Espírito Santo e precisou viajar a Recife para realizar o procedimento.
REAÇÃO NO CONGRESSO
A deputada Jack Rocha (PT-ES) apresentou um projeto de lei para transformar em norma federal as diretrizes da Resolução 258/24, assegurando o texto original do Conanda.
Em vídeo publicado nas redes sociais, a parlamentar declarou: “Transformar em lei o que nunca deveria ter sido posto em dúvida: que criança não é mãe, que estuprador não é pai e que a infância precisa de proteção e não de retrocesso”.
Segundo Rocha, a aprovação do PDL “rasga um pacto civilizatório” e impõe tortura às meninas vítimas de violência sexual ao obrigá-las à maternidade.
O PRÓXIMO PASSO
O projeto aprovado pela Câmara seguirá para análise do Senado. Até que haja decisão final, a Resolução 258/24 continua em vigor, garantindo o direito ao atendimento humanizado, sigiloso e seguro às meninas vítimas de violência sexual.
A discussão sobre o aborto legal segue no centro do debate público, dividindo opiniões entre parlamentares, organizações da sociedade civil e entidades de defesa dos direitos humanos.
Com informações da Agência Brasil

Grande Florianópolis alcança um dos maiores Índices de Desenvolvimento Humano do Brasil
Santa Catarina ultrapassa 10 mil multas por porte e uso de drogas em locais públicos desde 2024
Detran-SC orienta motoristas a buscar CNHs antes da destruição
Lula reage à tarifa de 25% dos EUA contra o Brasil: “Quem tinha que aumentar a taxa seríamos nós”