Controle de fatores de risco pode aumentar em até 14 anos a expectativa de vida

Pessoas que conseguem manter o controle de fatores de risco cardiovascular — como hipertensão, colesterol elevado, obesidade, diabetes e tabagismo — podem viver até 14 anos a mais, segundo pesquisa publicada no The New England Journal of Medicine (NEJM). O estudo, que envolveu mais de 2 milhões de participantes de 39 países, teve contribuição brasileira por meio da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), integrante do consórcio internacional Global Cardiovascular Risk Consortium (GCVRC).

A investigação reforça que o controle de fatores de risco na meia-idade tem impacto direto na longevidade e na qualidade de vida. O artigo científico foi liderado pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha, e reuniu dados harmonizados de 133 estudos do tipo coorte, acompanhando indivíduos por longos períodos.


EXPECTATIVA DE VIDA AUMENTA COM O CONTROLE DE CINCO FATORES

Os resultados mostram que a ausência dos cinco principais fatores de risco aos 50 anos — hipertensão, hiperlipidemia, obesidade, diabetes e tabagismo — está associada a uma expectativa de vida total até 14,5 anos maior nas mulheres e 11,8 anos maior nos homens. Quando observada apenas a vida livre de doenças cardiovasculares, o ganho é de 13,3 anos para mulheres e 10,6 anos para homens.

De acordo com os pesquisadores, a análise global é inédita por harmonizar informações de milhões de participantes, garantindo maior precisão na medição do impacto dos fatores de risco sobre a saúde cardiovascular.


CONTRIBUIÇÃO DA UFSC E DO ESTUDO EPIFLORIPA

A participação brasileira foi viabilizada pelos dados do estudo EpiFloripa – Condições de Saúde de Adultos e Idosos de Florianópolis, coordenado pela professora Eleonora d’Orsi, do Departamento de Saúde Pública da UFSC. O projeto acompanha desde 2008 cerca de 1.700 pessoas com 60 anos ou mais, moradoras da capital catarinense, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Segundo Eleonora, “essa é uma iniciativa de muita potência em termos de saúde pública, não só em função do tamanho da amostra, mas porque consegue, respeitando a lógica de um desenho longitudinal de acompanhamento, realmente calcular o risco e a incidência desses eventos e ver o quanto esses fatores de risco são preditores”. Ela acrescenta que a pesquisa permite estimar “o quanto que mudar esses fatores pode fazer com que uma população ganhe tempo a mais de vida total e de vida sem um evento cardiovascular”.


BENEFÍCIOS DO CONTROLE NA MEIA-IDADE

A análise também revelou que o momento mais favorável para a mudança de hábitos ocorre entre os 55 e 60 anos. Nessa faixa etária, o controle da hipertensão foi o fator que mais contribuiu para o aumento dos anos de vida saudável, enquanto parar de fumar nesse período trouxe o maior benefício em relação à redução do risco de morte.

Os dados confirmam que nunca é tarde para adotar medidas de prevenção ou tratamento, reforçando a importância de políticas públicas voltadas à promoção da saúde e à redução dos fatores de risco cardiovascular.


O PAPEL DO SUS NA PREVENÇÃO

Para Eleonora d’Orsi, o Sistema Único de Saúde (SUS) é um diferencial brasileiro na prevenção e no tratamento desses fatores. “O Brasil tem um sistema de saúde que dá suporte para isso acontecer”, afirma. Ela destaca que as unidades básicas de saúde oferecem acompanhamento de indicadores metabólicos, exames laboratoriais e tratamento gratuito para cessação do tabagismo, além de medicamentos quando necessário.

Segundo a pesquisadora, manter investimentos em atenção básica e incentivar hábitos saudáveis são estratégias essenciais. “É importante continuar tendo a atenção básica, manter o foco em diminuir os níveis de pressão arterial, em melhorar o peso, em promover atividade física e alimentação saudável. E continuar insistindo para as pessoas pararem de fumar”, analisa.


RESPONSABILIDADE SOCIAL E MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

A pesquisadora ressalta que o envelhecimento saudável depende não apenas de decisões individuais, mas também de condições sociais que favoreçam escolhas mais saudáveis. “Às vezes é difícil mudar um comportamento individual, porque ele depende também do que o nosso meio social faz em termos de alimentação, consumo de tabaco e álcool, prática de atividade física, e das oportunidades que a sociedade oferece para as pessoas aderirem a essas mudanças”, pontua.


METODOLOGIA E ABRANGÊNCIA GLOBAL

O Global Cardiovascular Risk Consortium (GCVRC) é sediado na Universidade de Hamburgo e integra instituições de pesquisa de seis continentes. A análise foi realizada com base em 2.078.948 participantes de 133 coortes, o que confere robustez estatística e amplitude geográfica sem precedentes.

Para evitar vieses, o estudo excluiu participantes que já apresentavam doenças cardiovasculares no início do acompanhamento. Essa abordagem, segundo Eleonora d’Orsi, é um dos diferenciais que tornam o estudo um marco em epidemiologia global.


CONTINUIDADE DO ESTUDO EPIFLORIPA

O EpiFloripa permanece ativo e com nova coleta de dados prevista para 2026. As informações coletadas incluem medidas de pressão arterial, peso, estatura, histórico de tabagismo, diabetes e níveis sanguíneos de lipídios. Esses dados, enviados de forma anonimizada, seguem contribuindo para pesquisas internacionais que buscam compreender o impacto do controle de fatores de risco sobre a longevidade e o envelhecimento saudável.

Com informações da Notícias da UFSC

Exit mobile version