A morte brutal de Catarina, uma jovem estudante assassinada em uma trilha em Florianópolis, não é apenas uma tragédia individual. É um grito que rasga o silêncio e expõe que enquanto o feminismo avança, a violência patriarcal reage.
Este é o paradoxo que atravessa o Brasil de hoje. Nunca tivemos tantas mulheres estudando, trabalhando, falando, denunciando, ocupando espaços públicos e demandando autonomia. Mas justamente por isso, nunca vimos tamanha virulência de setores que se sentem ameaçados pela perda de privilégios históricos. O avanço das mulheres não gera apenas transformação; ele provoca um contragolpe.
E esse contragolpe não é acidental. Ele é político, ideológico e profundamente emocional.
O feminicídio de Catarina ecoa os números crescentes de violência contra mulheres no país. E esse aumento não é porque “as coisas pioraram do nada”, mas porque cada avanço democrático traz à tona forças que estavam acomodadas.
Conteúdos
- O paradoxo do avanço: quando o progresso gera reação
- Catarina é um espelho
- Quando o Estado entra na disputa pelos nossos corpos
- O que conecta Catarina, o PDL que dificulta o aborto legal e o antifeminismo?
- Como transformar tudo isso: caminhos possíveis
- A morte de Catarina é um lembrete doloroso de que recuar não é opção
O paradoxo do avanço: quando o progresso gera reação
Autores como Nancy Fraser, Judith Butler, e Pierre Bourdieu ajudam a compreender essa engrenagem: o patriarcado nunca lida passivamente com a erosão de seus fundamentos. O patriarcado ferido reage — e reage com violência.
No Brasil de hoje, essa reação se manifesta em três grandes eixos:
A crise da masculinidade tradicional
Durante séculos, a masculinidade foi construída como autoridade, controle, força física, provedor, dono da palavra final. Quando as mulheres avançam, economicamente, politicamente, sexualmente, simbolicamente, isso desestabiliza papéis tradicionais. Para muitos homens, isso é vivido como perda, humilhação, ameaça.
A crise do neoliberalismo e a precarização
O neoliberalismo desmontou o modelo do “homem provedor”. Com a insegurança econômica, o desemprego estrutural e a competição desumana, muitos homens experimentam uma crise identitária. Nesse vácuo, renovam-se discursos que tentam restaurar o poder masculino pela única área em que ainda é possível controlar: o corpo e a vida das mulheres.
O refluxo democrático da extrema direita
Nos últimos anos, uma onda global de autoritarismo reacendeu discursos abertamente antifeministas. Aqui em Santa Catarina, figuras como a deputada estadual Ana Campagnolo amplificam, sem pudor, uma retórica que criminaliza o feminismo, deslegitima pautas de gênero e reforça a ideia de que a autonomia feminina é “ameaça”.
Não é coincidência que o aumento do antifeminismo caminhe junto do aumento da violência. É ecossistema. É estratégia. É projeto de poder.
Catarina é um espelho
Quando uma jovem é assassinada em plena trilha, em plena luz do dia, em plena cidade que se orgulha de ser “segura”, somos obrigados a encarar aquilo que tentamos empurrar pra debaixo do tapete: não falhamos apenas na segurança pública; falhamos como sociedade.
Há algo profundamente doente em um país onde mulheres morrem por serem mulheres, onde meninas somem, onde mães são assassinadas, onde a cada dois dias um feminicídio é cometido em Santa Catarina. E onde, diante disso, cresce um movimento que tenta dizer que “feminismo é mimimi”.
Esse é o nível da disputa simbólica em que estamos. E Catarina virou símbolo dessa fronteira.
Quando o Estado entra na disputa pelos nossos corpos
Enquanto enterramos jovens como Catarina, o Congresso avança sobre o pouco que ainda temos de garantias. O PDL que pretende suspender a Resolução 258/2024 do Conanda é um golpe direto contra meninas e mulheres vítimas de violência sexual.
Essa resolução estabelecia diretrizes claras de atendimento humanizado, acolhimento, proteção psicológica e acesso seguro ao aborto legal nos casos já previstos em lei. Ela orientava profissionais de saúde a evitar práticas revitimizadoras, como exigir boletim de ocorrência, autorização judicial ou comunicação obrigatória aos responsáveis — responsáveis que, em milhares de casos, são justamente os agressores.
Revogar essa diretriz não é um ato “técnico”. É um recado político. É parte da ofensiva antifeminista. O recado é claro: dificultar, burocratizar e intimidar meninas violentadas para impedir que exerçam um direito mínimo garantido há décadas. É restaurar o controle patriarcal sobre o corpo feminino sob o disfarce de “defesa da infância”, quando na prática o que se faz é expor meninas a mais sofrimento, mais silêncio, mais violência.
O mesmo país que falha em proteger Catarina falha também em proteger meninas estupradas — e tenta, no Congresso, retirar delas até a possibilidade de acolhimento digno.
Num país onde:
- uma menina é estuprada a cada 8 minutos,
- a maioria das vítimas tem menos de 14 anos,
- e 90% dos agressores são familiares ou conhecidos,
limitar o acesso ao aborto legal significa institucionalizar o controle patriarcal sobre o corpo feminino. É a tradução legislativa da moral antifeminista.
É o patriarcado se articulando dentro do Estado para impedir que mulheres e meninas tenham autonomia reprodutiva mesmo nas situações mais traumáticas da existência.
O que conecta Catarina, o PDL que dificulta o aborto legal e o antifeminismo?
Tudo. Absolutamente tudo.
Eles são parte do mesmo fenômeno: um patriarcado em agonia reagindo com fúria ao avanço feminino.
A morte de Catarina acontece num país que elegeu mulheres, mas também elegeu misóginos; que ampliou direitos, mas também destruiu políticas de proteção; que viu o feminismo se fortalecer, mas também permitiu que o antifeminismo virasse plataforma eleitoral e cultural.
Esse conflito é estrutural e está longe de acabar. Mas Catarina nos obriga a olhar para ele sem desviar. E, justamente por isso, o feminismo precisa avançar — não recuar
Como transformar tudo isso: caminhos possíveis
Ampliar a educação para a igualdade
Educação sexual, educação antiviolência, educação emocional.
O Brasil tem medo desse tema — e é justamente esse medo que nos mantém presos.
Responsabilizar a violência de forma estrutural
Não basta punir indivíduos; é preciso responsabilizar instituições:
- delegacias,
- estados,
- escolas,
- serviços de saúde,
- políticas públicas que falham com as mulheres.
Desarmar o imaginário
O antifeminismo não é só político, é simbólico.
A mudança exige:
- narrativas,
- cultura,
- arte,
- comunicação,
- produção de conteúdo,
- debates públicos.
Construir políticas públicas de cuidado e proteção
Casas de acolhimento, redes de proteção, delegacias especializadas, formação de agentes, recursos permanentes e não contingenciáveis.
Avançar rumo à legalização do aborto
Não podemos retroceder para os anos 1940.
A legislação precisa proteger as vulneráveis, não punir ainda mais quem já sofreu o pior.
Reimaginar a masculinidade
Esse é o ponto mais complexo e menos discutido.
A transformação passa por:
- oferecer novos modelos de masculinidade,
- acolher homens desorientados,
- trabalhar saúde mental masculina,
- repensar trabalho, família, vínculos e afetos.
Se a crise da masculinidade não for enfrentada, a violência seguirá sendo a linguagem do desespero.
Fortalecer o feminismo plural
Não há saída possível sem movimento feminista — seja ele popular, negro, comunitário, acadêmico, indígena, liberal ou radical.
O antifeminismo é organizado. Nós também precisamos ser.
A morte de Catarina é um lembrete doloroso de que recuar não é opção
É hora de fortalecer políticas públicas de proteção; ampliar educação sexual e igualdade de gênero; enfrentar o discurso antifeminista nos territórios, nas redes e nas instituições; ocupar espaços políticos; garantir direitos reprodutivos e sociais; educar meninos e homens para novos modos de ser; construir novas narrativas de masculinidade que não dependam da dominação.
E, acima de tudo, é hora de manter viva a chama que mulheres como Catarina carregavam: a de viver plenamente, livremente, sem pedir permissão.
Se o feminismo avança, o patriarcado reage. Mas a transformação social que almejamos não se escreve com medo. Se escreve com coragem.
Catarina não pode ser reduzida à forma cruel como sua vida foi interrompida. Ela precisa ser lembrada como aquilo que revela: um país em disputa, onde defender a vida das mulheres significa defender o avanço do feminismo.
E esse avanço é inegociável.

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