Desfascistizar o Brasil é um projeto urgente! – Artigo por Jéferson Silveira Dantas

A reunião ministerial de 22 de abril de 2020 durante o governo Bolsonaro (2019-2022), que mais se assemelhava a um encontro de uma facção criminosa, sob o olhar prevaricoso e complacente do então superministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Fernando Moro, revelou com nitidez o tamanho do descaso com a população brasileira, sobretudo, a parcela mais vulnerável socialmente. Indiferentes, soberbos e alheios à liturgia dos cargos que ocupavam, o presidente e os ministros da res publica apequenavam o Brasil, desejosos que o mesmo se tornasse um pária internacional. A democracia liberal foi jugulada e as instituições públicas que deveriam zelar, minimamente, pela justiça social foram completamente partidarizadas (por simpatizantes/adeptos da extrema-direita). 

O historiador liberal estadunidense, Timothy (Tim) Snyder, ensina que a servidão voluntária alimentou regimes totalitários tais como o fascismo e o nazismo na Itália e na Alemanha, respectivamente, e de que um dos projetos dos regimes totalitários ou tirânicos é repetir ad nauseam as mesmas palavras e frases que aparecem na mídia corporativa hegemônica, para que sejam aceitas em detrimento de um quadro referencial maior. Em suas palavras, ignorar o mundo real dá início à criação de um antimundo ficcional. Os memes, a autoverdade, a autorreferência e uma campanha eleitoral subterrânea construída por meio das fake news nas redes sociais, foram a tônica do processo eleitoral no Brasil em 2018 e, por isso, costuma-se associar o ‘bolsonarismo’ às denominadas guerras híbridas. 

Snyder nos convida, desse modo, a combater a política da inevitabilidade, que impõe à humanidade a inércia e o desconhecimento da História, assim como o combate à política da eternidade, calcada em reducionismos e maniqueísmos políticos; sua aposta reside nas novas gerações entendendo que os sujeitos históricos posicionados em favor da emancipação humana têm muita responsabilidade nestes tempos de desconforto e até mesmo de apatia coletiva. A barbárie e o obscurantismo institucionalizados ganham, assim, corpo nesse território tão vasto, desigual e desprovido de civilidade. Trata-se do Brasil profundo. Estamos diante de constatações dramáticas: são os impérios neopentecostais que determinam, hodiernamente, em quem os fiéis devem votar; são os movimentos ultraconservadores que se intitulam como sem partido, defensores da moral e dos bons costumes das pessoas de bem, que perseguem professores e professoras das escolas de Educação Básica e universidades públicas, acusados sistematicamente de doutrinadores. Karl Marx (1818-1883) em o 18 brumário de Luis Bonaparte afirmou que a história se repete primeiramente como tragédia e, posteriormente, como farsa. Porém, ainda que a história não se repita tal e qual em diferentes contextos históricos, ela pode nos ensinar a não reprisarmos situações que coloquem em risco o futuro da humanidade. 

Num país desigual como o Brasil, os falsos mitos podem ser construídos em contextos assim, ou seja, aparentemente inspiram vontades populares, tais como o combate à violência, à corrupção, à delinquência juvenil etc. Todavia, os germens da tirania defendidos por esses sujeitos afeitos a um instinto primitivo apenas conseguem trazer à tona recalques e valores morais duvidosos. Durante o certame eleitoral no Brasil em 2018, muitas pessoas se sentiram à vontade para espancar e até mesmo assassinar quem não concordasse com as suas ideias e/ou concepções de mundo. Um dos aforismos de Tim Snyder é, justamente, sobre isso: a maior parte do autoritarismo é concedida voluntariamente e toda obediência por antecipação é uma tragédia política. É salutar recordar que a obediência por antecipação gerou na Alemanha nazista um séquito de voluntários servis, que criaram as suas próprias milícias à revelia do regime hitlerista. A flexibilização do uso de armas de fogo no Brasil durante o governo Bolsonaro facilitou o acesso das milícias espalhadas pelo território nacional a todo e qualquer arsenal bélico com a chancela da presidência da República. 

 Assim, a criminalização dos movimentos sociais, o combate ao comunismo e aos partidos de esquerda foram temas recorrentes no governo do capitão reformado do exército. Para os incautos ou para os que, deliberadamente, agem de má-fé, repressão é sinônimo de segurança pública; ou ainda: o saudosismo verde-oliva da ditadura civil-empresarial-militar (1964-1985) teria gerado em mentes insanas a ideia de que havia um país livre da corrupção e dos desmandos, ainda que fontes documentais e as evidências históricas nos demonstrem como os índices sociais, educacionais e econômicos foram dramáticos durante e ao fim da ditadura. A violência indiscriminada em relação às mulheres, aos negros, aos povos originários e à comunidade LGBTQIAP+ vêm crescendo de maneira assustadora no Brasil. Para Snyder, para que a violência transforme não só o clima político como também o sistema, as emoções dos comícios e a ideologia de exclusão precisam ser incorporadas ao treinamento de guardas armados. Esses guardas primeiro desafiam a polícia e as Forças Armadas, depois se infiltram nessas organizações e por fim as transformam. 

No que diz respeito à ascensão das religiões neopentecostais no Brasil, o binômio política/religião se tornou uma mistura explosiva num país em que quem tem definido as regras do jogo político são as bancadas da Bíblia, do Agronegócio e das Armas no Congresso Nacional. Mas não basta tomar o poder. A direita orgulhosa, religiosa e conservadora homenageiam torturadores em carros de som nas grandes avenidas, como bem assinala a jornalista Andrea Dip. Orgulham-se, portanto, de sua ignorância; polemizam e provocam especialmente partidários e simpatizantes da esquerda. Não têm medo de serem punidos. Estão do lado das pessoas de bem. Os temas de cunho moral são os que unificam os parlamentares evangélicos, independentemente de partido. Como são avessos aos argumentos, às evidências, à ciência sistematizada, são barulhentos, intempestivos, aguerridos, beligerantes, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão. (…) é uma estratégia de parecer maior do que é, pelo grito – como acontece nas próprias igrejas. As Igrejas têm esse discurso de guerra, de combate, segundo Dip. Mas as alianças dos evangélicos com o grande capital também são notórias. Não por acaso a bancada BBB (Bíblia/Bala/Boi) vota em bloco em qualquer situação! Tais igrejas evangélicas detêm 1/3 das concessões de televisão no Brasil. Angariam simpatizantes nas periferias e nos presídios, sujeitos historicamente esquecidos pelo poder público. Essas igrejas estimulam o empreendedorismo, dado o esvaziamento de soluções coletivas e o trabalho formal com carteira assinada, produzindo um caldo de direitização jamais visto. Tragicamente, de acordo com os estudos de Dip, os neopentecostais tornaram-se personagens de um processo sem precedentes no país, com plataformas baseadas na retórica do terror (‘querem acabar com a família’), pelo impedimento da garantia de direitos sexuais e reprodutivos e das ações de superação da violência de gênero. O que se desenha, como vemos, pouco ou nada tem a ver com a defesa das famílias. Acaba por ser uma armadilha (instrumentalização) de grupos políticos para quem professa uma fé. Há mais de 1.500 denominações evangélicas no Brasil. Estrategicamente, o plano das lideranças dessas Igrejas é ocupar cargos executivos e o Judiciário, para barrar as pautas relacionadas aos direitos reprodutivos das mulheres e à comunidade LGBTQIAP+. 

Tim Snyder vaticina que devemos fazer um grande esforço e nos afastarmos da internet e lermos mais livros. No que tange à mídia corporativa hegemônica, o historiador afirma que tudo acontece depressa, mas nada acontece de verdade (…), somos atingidos por uma onda atrás da outra, mas nunca vemos o oceano. De fato, no emaranhado dos noticiosos diários, quantos/as são capazes de compreender as sutilezas ou armadilhas presentes em cada matéria da pauta/agenda jornalística? Ver notícias na televisão às vezes equivale a pouco mais do que olhar para uma pessoa que também está olhando para uma imagem. Consideramos esse transe coletivo uma coisa normal. Caímos nele lentamente.

Por fim, os recuos da teoria e da política em regimes de extrema-direita ou autoritários são propositais, pois ciência e a politização de qualquer tema social geram contradições fundamentais. Diante das contradições, governos autoritários só conseguem responder com a repressão, haja vista suas alianças de classe. Aliás, como esquecermos a recente chacina no Rio de Janeiro a mando do governador daquele estado, não por acaso vinculado ao neofascismo? Fora outras violências sistemáticas e diuturnas cometidas pela polícia contra as populações negras e pobres desse país. O misticismo obscurantista aliado à barbárie institucionalizada compromete avanços sociais, científicos e educativos formativos; mesmo os grupos empresariais jornalísticos deveriam entender (ainda que a contragosto) que pautar a história pregressa e recente do país, contribuiriam para o combate aos golpismos, ditaduras, violação dos direitos humanos, censura à imprensa etc. 

O grande capital caminhou de braços dados com a política econômica do governo Bolsonaro. Nunca se teve tantos bilionários no Brasil; parte da ‘classe média empreendedora’ permeada pela racionalidade meritocrática, que se julga proprietária, também sofreu as reveses do empobrecimento e da falta de perspectivas. À juventude brasileira da classe trabalhadora foi ofertada uma escolarização pobre ou uma formação simples para o trabalho precário, uma maneira cruel de contenção desses/as jovens para o ingresso no ensino superior. Não por acaso, em uma pesquisa realizada pelo DataFolha, mais de 70% dos/as jovens declararam o desejo de irem embora do Brasil. Na divisão internacional do trabalho, estamos cada vez mais submetidos a meros exportadores de produtos primários, numa desindustrialização sem precedentes influenciadas pelo lavajatismo, que desmantelou grandes empresas do setor de infraestrutura.

 A banalização do mal e a pulsão de morte que se operam no Brasil, além de denunciadas, necessitam ser problematizadas na vida cotidiana e em todos os espaços públicos. Afinal, as relações pessoais e familiares também são atravessadas por ideologias, narrativas e referências teóricas e políticas. Assim, além de fundamentarmos nossos argumentos temos uma árdua luta contra sujeitos pautados pela racionalidade neoliberal, que creem cegamente no deus-mercado, tratando as pessoas de seu convívio como meros competidores, inimigos, descartando-os caso não agregue valor ao seu networking. Entender tudo isso é um primeiro passo para desfascistizarmos o país, mas levará muito tempo, já que a democracia (neo)liberal costura parlamentos formados, em grande parte, por sujeitos da extrema-direita e uma condução política e econômica que só beneficiam o grande capital. As estratégias de transformação social precisam se ancorar nos movimentos populares, reatando princípios éticos e políticos que se perderam no mar da ilusão meritocrática e simplificadora da vida!


Jéferson Silveira Dantas é professor universitário, historiador, ensaísta, compositor e músico amador. Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No universo literário, aventurou-se com duas novelas: Suspenso e alheio ou as minhas reticências sinceras e Égab (Ed. Insular, 2015) e um livro de contos (edição própria, 2017) intitulado Essa coisa sem nome. Em abril de 2019 lançou o livro À Beira (Editora Insular) com a escritora e jornalista, Jeana Lexau (pseudônimo de Jeana Laura da Cunha Santos).

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