No mês passado, a Oxford University Press definiu “rage bait” como a Palavra do Ano de 2025. O termo significa, ao pé da letra, isca de raiva – ou seja, um conteúdo criado especialmente para despertar gatilhos de raiva e indignação em quem é impactado. O uso da expressão triplicou no último ano e, segundo especialistas, a tendência é que permaneça em alta ao longo de 2026.
Existem muitas justificativas para o sucesso do termo no ano que passou, a maioria delas política. Impossível não lembrar dos inúmeros políticos em mandato ou pré-candidatos incitando a indignação dos eleitores em relação à (falta de) segurança pública, à atuação do Supremo Tribunal Federal, à nova (já velha) política tarifária de Trump e tantos mil outros exemplos.
Ambiente propício a esse tipo de cultura, as redes sociais foram tomadas por narrativas que transformam a raiva do outro (seja quem ou o que for) em matéria-prima da comunicação digital. Fora das redes a situação não é muito diferente, basta ver a mise-en-scène furiosa do nosso Congresso, tantas vezes palco para cães que latem sem limites até fazerem seus eleitores amplificarem o latido nas redes. É o barulho pelo barulho, fomentado pela necessidade de se conectar com a população via destruição (raiva) ou recuo (medo).
Como boa pessimista que sou, não acredito que o termo “rage bait” vá apenas sobreviver: a tendência é crescer ainda mais em 2026. A polêmica das Havaianas, no comecinho deste ano, mostra bem o potencial da expressão ao reacender a polarização e dividir parte da internet (e não, o Brasil não é a internet) em #teamhavaianasnopé e #teamhavaianasnolixo. Sim, tudo sempre pode piorar.
Em tempos de eleição, com as redes sociais construindo mais reações do que reflexões, toda comunicação sedimentada na força da raiva tem o que precisa para se tornar viral. Ossos do ofício, não há como fugir disso. Mas, mais do que nunca, precisamos compreender que essa “estratégia” é, antes de tudo, o principal inimigo do debate consistente, da comunicação madura e, em última instância, do voto consciente.
Porque o pior problema do “rage bait” não é moral, muito menos o fato de ele trabalhar com sentimentos “ruins” (que, obviamente, todos temos, aos montes). O verdadeiro problema do “rage bait” dominando a comunicação eleitoral é que ele geralmente constrói debates rasos, beirando a mediocridade. Dá certo? Sim, claro que dá. Rende voto? Nossa, muito, principalmente desde 2018. Mas continua sendo apenas um conteúdo reducionista que divide o mundo em preto e branco, Super Mario e Bowser, como se a vida adulta – pior, a vida pública – pudesse existir sem cinzas, tal qual um game.
Basta ver as análises em torno da invasão americana à Venezuela – que, ao lado da polêmica das Havaianas, parece confirmar a potência do “rage bait” como base da comunicação eleitoral este ano. Todo o diálogo é tão baseado em gatilhos de indignação que não abre espaço para nuanças: ou você é um comunista madurista, ou um trumpista que não respeita a soberania alheia. Mas, pasmem, é possível considerar Maduro um ditador e, ao mesmo tempo, condenar a invasão do presidente dos Estados Unidos. Sim, ao mesmo tempo. E isso não é ficar em cima do muro. Isso é ser maduro (sem trocadilhos).
Então é isso, bem-vindo a 2026 (ou não).
Jade Martins é publicitária, com MBA em Marketing Político e Comunicação Eleitoral. Pós-doutora em Teoria Literária, estudiosa diletante da estratégia do “rage bait”, fã de vídeogame, debates consistentes e narrativas bem planejadas.

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