O avanço das propostas para acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas colocou frente a frente dois blocos bem definidos no debate nacional: de um lado, empresários da indústria, do comércio e entidades patronais que alegam risco econômico; de outro, pesquisadores, parlamentares e integrantes do governo que defendem a mudança como medida de justiça social, saúde pública e modernização das relações de trabalho.
O confronto ganhou força após a divulgação de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que aponta que o mercado brasileiro pode absorver a redução da jornada com impacto inferior a 1% nos custos de grandes setores. Mesmo assim, lideranças empresariais em Santa Catarina e figuras como o empresário Luciano Hang reagiram publicamente, reforçando um discurso de ameaça ao emprego que se repete sempre que direitos trabalhistas entram em pauta.
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QUEM DEFENDE O FIM DA ESCALA 6X1
O campo favorável à mudança reúne pesquisadores do Ipea, parlamentares como o senador Paulo Paim (PT-RS), a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e o governo federal, representado por ministros como Guilherme Boulos. O argumento central é que reduzir a jornada melhora a qualidade de vida, combate desigualdades e pode aumentar a produtividade.
Segundo o Ipea, a jornada de 40 horas elevaria o custo do trabalhador celetista em 7,84%, mas esse impacto é diluído no custo total das empresas, especialmente em grandes setores.
“Quando a gente olha para a operação de grandes empresas na área de comércio, da indústria, a gente vê que o custo com trabalhadores representa às vezes menos que 10% do custo operacional da empresa”, explica o pesquisador Felipe Pateo.
O estudo compara a medida a reajustes históricos do salário mínimo, como os de 2001 e 2012, que não provocaram aumento do desemprego, apesar das previsões negativas feitas pelo setor empresarial na época.
ESCALA 6X1 E DESIGUALDADE SOCIAL
Os dados do Ipea mostram que as jornadas mais longas recaem justamente sobre os trabalhadores mais pobres e com menor escolaridade. Mais de 83% dos vínculos de pessoas com até o ensino médio completo estão acima de 40 horas semanais. Entre quem tem ensino superior, o índice cai para 53%.
“Quando a gente reduz a jornada máxima para 40 horas, a gente bota esses trabalhadores em pé de igualdade na quantidade de horas trabalhadas”, afirma Pateo.
Na prática, isso significa aumentar o valor da hora trabalhada de quem hoje recebe menos e passa mais tempo no emprego. Em um país onde 74% dos trabalhadores formais cumprem 44 horas semanais, a mudança atinge diretamente a base da pirâmide social.
PRODUTIVIDADE COMO ARGUMENTO A FAVOR
O ministro Guilherme Boulos afirma que a redução da jornada tende a elevar a produtividade, e não o contrário. Ele cita pesquisas da Fundação Getulio Vargas com empresas brasileiras que adotaram jornadas reduzidas e registraram aumento de receita e melhor cumprimento de prazos.
“Quando esse trabalhador está mais descansado, o resultado é que ele vai trabalhar melhor. Isso é baseado em dados”, afirmou.
Boulos também mencionou experiências internacionais, como a Islândia, onde a jornada foi reduzida para 35 horas semanais, com crescimento econômico e aumento da produtividade. Para ele, parte da baixa produtividade brasileira não é responsabilidade do trabalhador, mas da falta de investimento privado em inovação.
QUEM É CONTRA O FIM DA ESCALA 6X1
Do outro lado do debate estão entidades empresariais e setores da indústria e do comércio, especialmente em Santa Catarina. O Conselho das Federações Empresariais do estado (COFEM), que reúne FIESC, FACISC, FECOMÉRCIO e outras organizações, divulgou nota alertando para supostos riscos econômicos da mudança.
Segundo essas entidades, a redução da jornada poderia elevar custos, aumentar preços ao consumidor e estimular a informalidade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta impactos bilionários para o setor produtivo, enquanto a Associação Empresarial de Florianópolis (ACIF) afirma que micro e pequenas empresas teriam dificuldade para se adaptar.
Esses argumentos se baseiam na ideia de que menos horas trabalhadas significariam automaticamente menos produção e menos empregos, sem considerar ganhos de produtividade, reorganização de turnos ou políticas de transição.
LUCRO ACIMA DO TEMPO DE VIDA
A reação mais visível veio do empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, que afirmou que “menos trabalho não é mais dignidade, é mais desemprego”.
“A ideia pode soar bonita no discurso, mas, na prática, tende a prejudicar justamente o trabalhador que depende do salário para pagar as contas do mês”, declarou.
A fala reforça a lógica de que a dignidade do trabalhador está condicionada à permanência em jornadas longas e desgastantes. Críticos apontam que esse discurso ignora evidências históricas: sempre que houve ampliação de direitos, como férias, 13º salário ou valorização do salário mínimo, setores empresariais anunciaram colapso econômico que não se concretizou.
SAÚDE, GÊNERO E SOBRECARGA
O senador Paulo Paim relaciona diretamente a escala 6×1 ao adoecimento mental dos trabalhadores. Em 2024, foram registrados 472 mil afastamentos por transtornos mentais, segundo dados do INSS.
“A redução da jornada melhora a saúde mental e física, a satisfação no trabalho, reduz a síndrome do esgotamento”, afirmou.
Paim destaca ainda o impacto sobre as mulheres, que acumulam jornadas profissionais e domésticas. A redução da carga horária teria efeito direto na diminuição da sobrecarga feminina.
UM CONFLITO DE PROJETOS DE SOCIEDADE
O debate sobre a escala 6×1 deixou de ser apenas técnico e passou a revelar um conflito mais amplo: de um lado, a defesa do tempo de vida, da saúde e da valorização do trabalho; de outro, a preservação de um modelo baseado em longas jornadas e baixo custo da força de trabalho.
Enquanto estudos oficiais indicam que a economia pode absorver a mudança, a resistência empresarial se ancora no medo e na manutenção de privilégios históricos. A pergunta central que atravessa o debate é quem deve pagar o preço do ajuste: o trabalhador, com menos descanso, ou as empresas, com parte de seus lucros redistribuída em forma de tempo e dignidade.
Com propostas prontas para votação no Congresso e o tema entre as prioridades do governo federal, a discussão sobre o fim da escala 6×1 deve se intensificar nos próximos meses. A decisão que será tomada não trata apenas de horas trabalhadas, mas de qual lado da história o país escolherá ficar: o que protege quem vive do próprio trabalho ou o que preserva um modelo que concentra esforço nos mais vulneráveis.

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