O Carnaval brasileiro vem sendo reposicionado como objeto central de estudos acadêmicos e formulação de políticas públicas, a partir de pesquisas que analisam seu impacto cultural, social e econômico. A mudança de perspectiva ocorre em meio ao crescimento de iniciativas que tratam a festa como parte estruturante da economia criativa e da agenda de desenvolvimento do país.
Esse movimento ganha força com a atuação de pesquisadores ligados aos territórios do samba e com ações do Ministério da Cultura, que ampliam o debate sobre o Carnaval para além do calendário festivo, conectando a manifestação popular a temas como trabalho, inclusão social e direitos humanos.
Conteúdos
CARNAVAL COMO POLÍTICA CULTURAL E ECONÔMICA
Muito além dos desfiles e blocos, o Carnaval passa a ser reconhecido como um ecossistema produtivo que envolve milhares de trabalhadores nos bastidores. A leitura institucional aponta para a necessidade de tratar a festa como política pública contínua.
“Para cada pessoa que brilha na avenida, existem centenas de trabalhadores nos barracões e nos bastidores garantindo o sustento de suas famílias. Nossa missão é valorizar essas trajetórias, tratando o Carnaval não como um gasto sazonal, mas como um um investimento em política pública contínua de desenvolvimento e inclusão social”, afirma o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares.
A fala reflete uma inflexão no modo como o setor cultural vem sendo analisado, com foco na geração de renda, na formalização das atividades e na ampliação do reconhecimento institucional.
PESQUISA NASCIDA DA VIVÊNCIA NO SAMBA
A produção acadêmica sobre o Carnaval tem se fortalecido a partir de trajetórias que unem experiência prática e investigação científica. A pesquisadora Rafaela Bastos, atual presidente do Instituto Fundação João Goulart, da Prefeitura do Rio de Janeiro, e vice-presidente de Projetos Especiais da Estação Primeira de Mangueira, construiu seus estudos a partir da própria vivência na avenida.
“Eu fui passista da Mangueira por treze anos, depois musa da comunidade por dez anos e, hoje, sou vice-presidente de Projetos Especiais da escola, vivências muito distintas daquelas que geralmente aparecem na televisão, mas que me formaram profundamente”, afirma. “O samba no pé sempre esteve muito associado a estereótipos femininos. Ainda assim, essas experiências me potencializaram. São escolhas que fiz na vida, que fizeram sentido para mim e que valorizo até hoje”.
A partir dessas experiências, Rafaela passou a investigar os efeitos dos estereótipos de gênero sobre a trajetória profissional das mulheres no Carnaval.
GÊNERO, RACISMO E RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL
A inquietação pessoal se transformou em pesquisa acadêmica sobre a objetificação sexual da mulher passista na Marquês de Sapucaí, trabalho que recebeu reconhecimento nacional e, em 2017, foi premiado com a Medalha Rui Barbosa.
“Quando comecei como passista, eu queria ser geógrafa e percebia que havia uma dinâmica de preconceito que poderia interromper a minha carreira ou me obrigar a escolher entre ser passista e ser profissional”, relembra.
“Ali eu entendi que, mesmo dando o melhor de mim, meus desejos profissionais poderiam não se realizar. Não por minha causa, mas por estruturas de machismo e racismo. Foi isso que me fez assumir um compromisso público com o Carnaval e com as mulheres que fazem essa festa acontecer”, completa.
O debate trouxe à tona a ausência de enquadramento formal do Carnaval como atividade econômica estruturada.
“O problema é anterior à invisibilização. É a não categorização. O Carnaval ainda é precarizado e informalizado enquanto atividade econômica”, afirma a pesquisadora.
ECONOMIA DO CARNAVAL E INVESTIMENTO PÚBLICO
A partir de 2016, os estudos avançaram para a análise econômica do setor, incorporando conceitos de macroeconomia, microeconomia, economia circular e impacto financeiro.
“Eu fui entendendo o Carnaval como um ecossistema produtivo complexo, que envolve cadeias de produção, serviços, circulação de cultura e geração de emprego e renda”, explica. “Uma escola do grupo especial vende cultura para outras escolas, para outros estados e até para outros países. Isso é economia criativa em funcionamento.”
Entre 2017 e 2021, a pesquisadora analisou a relação das escolas de samba com mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet, observando diferenças entre valores solicitados, aprovados e efetivamente captados.
“Analisei quanto as escolas solicitavam, quanto era aprovado e quanto, de fato, conseguiam captar. Isso ajuda a entender gargalos, desafios e oportunidades para políticas públicas mais eficazes”, destaca.
MISSÃO INTERNACIONAL E VALOR PÚBLICO DO CARNAVAL
O debate ganhou dimensão internacional com uma missão de pesquisa de campo iniciada em fevereiro, reunindo o Ministério da Cultura e o Institute for Innovation and Public Purpose, dirigido pela economista Mariana Mazzucato, professora da University College London.
A iniciativa percorreu Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, com foco em Carnaval, economia criativa e valor público.
“O Carnaval mostra como cultura não é um custo, mas um investimento que amplia capacidades produtivas, fortalece o bem-estar coletivo e gera valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é muito maior do que o custo de agir”.
Segundo a economista, os impactos extrapolam os indicadores financeiros tradicionais.
“O que estamos vendo aqui é que o Carnaval produz um valor maior do que aquilo que costuma aparecer nas métricas. Ele gera coesão social, habilidades, redes, conhecimento e isso é investimento de longo prazo”, avalia.
DIREITOS HUMANOS E CONSCIENTIZAÇÃO SOCIAL
Durante o período de festas, o Ministério da Cultura atua de forma integrada com conselhos nacionais ligados aos direitos da criança e do adolescente, das mulheres e da igualdade racial. A proposta é aproximar políticas culturais das agendas de proteção social, ampliando a atuação do Estado em espaços públicos de grande circulação.
A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Márcia Rollemberg, destaca o caráter simbólico e social da manifestação.
“Essa é uma das expressões mais vibrantes e transformadoras da diversidade cultural brasileira. É território de alegria, criação, encontro e afirmação de identidades, onde o povo ocupa as ruas e reafirma sua potência cultural. Justamente por essa força mobilizadora, é essencial afirmar que o Carnaval deve ser vivido com respeito, cuidado e compromisso com os direitos humanos”.
Ela conclui convocando gestores, artistas e produtores a assumirem a construção de um ambiente seguro e inclusivo. “Esses valores estão no centro da política cultural que defendemos”.
Ao ser tratado como objeto de pesquisa, política pública e instrumento de inclusão, o Carnaval passa a ocupar um lugar estratégico nas discussões sobre desenvolvimento cultural e social. A consolidação desse olhar tende a influenciar a forma como a festa é financiada, regulada e reconhecida nos próximos anos, ampliando seu papel para além do espetáculo e do turismo.
Com informações de Agência Gov

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