Camasão e Ingrid enxergam federação entre PSOL e PT como ameaça à autonomia psolista; entenda

A discussão em torno da proposta de federação entre o PSOL e o PT tem dominado a sigla socialista ao longo das últimas semanas. Apresentada por figuras nacionais do partido  como uma alternativa pragmática para a consolidação de uma frente esquerda no Brasil, ela é fonte de receio para outros militantes, que a encaram como uma ameaça à autonomia do PSOL. A decisão final da sigla virá no próximo sábado, 7, quando a executiva nacional do partido votará a proposição.

Em Santa Catarina, o debate dividiu os parlamentares do partido. Na última segunda-feira, o deputado estadual Marquito assinou uma carta favorável à federação na Folha de S. Paulo, ao lado de figuras como a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos e a deputada federal Erika Hilton — esses dois, membros da corrente Revolução Solidária, que lidera a defesa da proposta. Seus colegas catarinenses de partido, no entanto, não compartilham de sua opinião.

Duas figuras contrárias à federação em Santa Catarina são os vereadores de Florianópolis Leonel Camasão e Ingrid Sateré Mawé, que manifestaram seu ponto de vista em suas redes ao longo da última semana. Os dois apontam que  a movimentação coloca em perigo a autonomia do PSOL e coloca em risco seu poder de indicar candidatos e representantes para cargos importantes. 

Contatado pela coluna, Leonel Camasão, explicou seu ponto de vista: “a federação Brasil da Esperança conta com mais de dois terços de sua direção indicados pelo PT. Desta forma, um único partido pode decidir as coligações, as candidaturas e até mesmo quantas vagas serão dadas aos partidos menores. Não há um motivo objetivo para se submeter a essa dinâmica”. O vereador cita como exemplo a federação constituída entre o PT, o PV e o PCdoB em 2022. Hoje, o agrupamento partidário conta com 2,38 milhões de membros, dos quais cerca de 70% são filiados ao PT.

Camasão é membro da corrente Primavera Socialista, da qual também faz parte o hoje pré-candidato do PSOL ao governo, Afrânio Boppré. Conforme ele conta, uma saída para a divisão atual no partido seria um compromisso com a realização de prévias para escolha de candidaturas, em modelo similar ao praticado pela Frente Ampla no Uruguai e no Chile, ou mesmo nos partidos Democrata e Republicano, nos Estados Unidos. “Seria uma boa alternativa, inclusive para o PSOL eleger parlamentares em cidades menores, mas não há qualquer sinalização neste momento que indique este caminho”. 

Vereadora de Florianópolis, Ingrid Sateré Mawé, se desligou da corrente de Boulos

A discussão em torno da federação com o PT gerou problemas internos na própria Revolução Solidária em Santa Catarina. Na última semana, a vereadora de Florianópolis Ingrid Sateré Mawé anunciou seu desligamento da corrente por meio de uma carta publicada em suas redes sociais, em virtude do modo como a discussão foi conduzida pela direção nacional da organização. 

“A proposta de adesão à federação foi apresentada de forma inesperada, acompanhada de uma narrativa de urgência e risco iminente relacionado à cláusula de barreira”, explicou a vereadora à coluna. “Na minha avaliação, faltou um debate mais profundo e ampliado com a base militante. A decisão caminhou de forma acelerada, em um momento em que o partido ainda estava assimilando os impactos das eleições de 2024”.

Assim como seu colega de bancada na Câmara de Florianópolis, Ingrid levantou dúvidas a respeito da garantia de autonomia do PSOL caso o arranjo se concretize. “O PSOL nasceu justamente para afirmar uma alternativa de esquerda com autonomia política, capaz de tensionar os limites do modelo de governabilidade tradicional”, afirma a vereadora, argumentando que uma eventual federação com um partido que compõe o governo, como é o caso do PT hoje, resultaria na subordinação da linha política do PSOL. 

“Cláusulas podem mitigar conflitos pontuais, mas não alteram o fato central: a federação implica compartilhamento de direção política. O debate não é jurídico, é estratégico”, acrescentou a vereadora quando questionada sobre a possibilidade de uma cláusula garantindo a manutenção da autonomia do partido em uma eventual federação. 

Fora da Revolução Solidária, ela agora planeja construir o partido de maneira independente, dialogando com diferentes setores do partido. “Seguirei defendendo meu projeto político com coerência. Minha candidatura nasce do compromisso com as lutas sociais e com a representação indígena e popular em Santa Catarina”, afirma. Ela hoje é pré-candidata a deputada estadual pelo PSOL. 

PSOL catarinense não descarta aliança com PT

Apesar das discordâncias em torno da proposta de federação, os representantes catarinenses do PSOL se mantêm favoráveis a uma aliança com o PT para o pleito de 2026. Para o vereador Leonel Camasão, existem outras alternativas para esse arranjo, que protegem a autonomia do partido e garantem um trabalho conjunto entre as duas legendas, como a coligação. “Sou grande entusiasta de uma aliança com o PT em Santa Catarina para as eleições de 2026, que estabeleça um palanque forte para Lula e que amplie a votação já feita em 2022”, afirmou ele. 

Ingrid Sateré Mawé, por sua vez, reconhece a importância do apoio a Lula no cenário nacional, mas destaca que a construção de uma aliança estadual depende do contexto político local e da compatibilidade de programas políticos. Segundo ela, a ausência de federação não impede diálogo nem composição, mas garante que ela seja fruto de decisão política concreta, e não de imposição estrutural. “Não vejo isso como prejuízo às relações. Vejo como maturidade política”. 

O partido pretende dar um ponto final na discussão amanhã, dia 7, em uma reunião da Executiva Nacional que decidirá o futuro do PSOL. Em sua avaliação pessoal, Camasão está confiante de que a proposta será rejeitada. “Minha avaliação é de que o PSOL vai optar em renovar a federação com a Rede com mais de 75% dos votos”, afirma o vereador. Independente do resultado, a decisão tomada pela direção nacional do partido terá impacto direto nas articulações eleitorais da esquerda em 2026. No cenário catarinense, as reverberações podem ser ainda maiores: elas podem alterar completamente o desenho da chapa construída pela frente progressista no Estado. A ver qual será o veredito final. 

Esse é apenas um de dois artigos publicados pelo Conecta SC repercutindo o posicionamento dos parlamentares catarinenses do PSOL acerca da proposta de federação com o PT. Acesse o outro texto aqui.

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