O PSOL tem vivido nas últimas semanas uma divisão interna em torno da proposta de federação com o PT. Defendida por membros da corrente Revolução Solidária, que tem entre seus representantes o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos e a deputada federal Erika Hilton, a proposta é vista com desconfiança por outras correntes do partido. A decisão final da sigla virá amanhã, dia 7, quando a executiva nacional do partido votará a proposição.
Em Santa Catarina, a discussão também teve desdobramentos. Enquanto os vereadores Leonel Camasão e Ingrid Sateré Mawé se posicionaram de maneira contrária à proposta, o deputado estadual Marquito assinou um artigo favorável à federação na Folha de S. Paulo, ao lado de figuras nacionais da Revolução Solidária — corrente de Boulos e Hilton — e da ministra dos povos indígenas, Sônia Guajajara. Publicado na última segunda-feira, 2, e intitulado Federação da esquerda para disputar o futuro, o texto defende a unidade da sigla em torno da proposta, citando-a como uma solução para superar o “desafio da cláusula de barreira”, e “ampliar a bancada de esquerda no Congresso”.
Marquito não faz parte da Revolução Solidária — ele constrói seu projeto no partido de maneira independente —, mas compartilha a opinião de que a federação representaria a melhor alternativa para o futuro da sigla e do campo político. “A minha posição não é centralizada por uma organização, mas parte da concepção de que a federação é um caminho muito positivo para Santa Catarina, do ponto de vista pragmático eleitoral”, explicou ele à coluna.
Para o deputado, o avanço das pautas da extrema-direita no Brasil e no mundo tornam necessária uma unidade no campo da esquerda — ponto que é reforçado na carta publicada na Folha. No documento, os signatários afirmam que o atual cenário político brasileiro tornaria inviável “um projeto de simples demarcação ou para gastar nossas energias em disputas internas menores”. Para eles, o momento seria de unir forças com outros partidos do campo, e buscar aumentar as bancadas nos estados e no Congresso.
A possibilidade de ampliar as bancadas do PSOL nos próximos pleitos é outro dos motivos que fazem Marquito apoiar uma possível federação. Segundo ele, a sigla poderia tensionar o debate à esquerda, e garantir que suas pautas sejam incorporadas ao projeto político do arranjo com o PT — e da frente de esquerda como um todo. “Um partido como o PSOL, que tem bases sociais e um trabalho de proximidade com os movimentos, pode influenciar o campo da esquerda na construção do debate e nas disputas eleitorais, garantindo sua autonomia”, pontua ele. “Uma federação ajuda o PSOL com a manutenção da sua autonomia, disputando de forma pragmática as eleições e ampliando a participação da esquerda nos parlamentos e executivos”.
Para Marquito, discordâncias fazem parte do processo democrático do partido
Marquito reconhece a divisão interna na sigla em torno da proposta, mas afirma que discordâncias como essa são naturais no PSOL. “Essa é a característica de um partido democrático, que chega a conclusões a partir de debates. Todos os argumentos são importantes e fazem parte desse momento, que precede a decisão do partido”, afirma.
Para ele, esse debate é importante para a própria construção da proposta, e os acúmulos levantados neste momento podem ser empregados na redação final do regimento para um eventual arranjo entre os dois partidos. “A nossa defesa é de que o processo de construção do estatuto da federação ocorra de forma aberta e propositiva. Acreditamos na construção de debates internos que decidam acerca das táticas eleitorais para cada processo — como, por exemplo, a realização de prévias para a definição de candidaturas majoritárias”, explica Marquito. “Portanto, não se trata de se acomodar e reproduzir a linha de outro partido, mas estruturar a construção da unidade em novos termos”.
A discussão dessa vez transbordou para fora dos limites do partido, mas promete ser resolvida na próxima reunião da Executiva Nacional da sigla. O encontro será realizado neste sábado, 7, por videoconferência, e análises feitas nos bastidores apostam que a proposta de federação será rejeitada pela maioria dos representantes do partido. De toda forma, qualquer que seja a decisão tomada pelo PSOL, ela tem o potencial de redefinir o cenário político da esquerda no Brasil, e terá impacto direto nas articulações para a frente ampla em Santa Catarina. Veremos nas próximas semanas como a esquerda se adaptará às suas reverberações.
Esse é apenas um de dois artigos publicados pelo Conecta SC repercutindo o posicionamento dos parlamentares catarinenses do PSOL acerca da proposta de federação com o PT. Acesse o outro texto aqui.

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