Canais misóginos continuam ativos e acumulam milhões de seguidores no YouTube no Brasil, segundo levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa identificou 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo contra mulheres, reunindo mais de 23 milhões de inscritos e aproximadamente 130 mil vídeos publicados na plataforma.
Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (9), logo após o Dia Internacional da Mulher, e atualizam um mapeamento feito em 2024. O estudo chama atenção para o crescimento da audiência desses espaços digitais e para a capacidade de monetização dos conteúdos, que transformaram o discurso de ódio contra mulheres em um nicho de audiência e receita na internet.
Conteúdos
- CRESCIMENTO DE CANAIS MISÓGINOS NA PLATAFORMA
- MONETIZAÇÃO TRANSFORMA MISOGINIA EM NICHO DE NEGÓCIO
- COMO O ESTUDO IDENTIFICA CANAIS MISÓGINOS
- DESPREZO ÀS MULHERES É O TEMA MAIS RECORRENTE
- ESTRATÉGIAS PARA DRIBLAR MODERAÇÃO
- PUBLICAÇÃO DE VÍDEOS CRESCEU APÓS 2021
- RESPONSABILIZAÇÃO DAS PLATAFORMAS
- POSIÇÃO DO YOUTUBE E DO GOOGLE
CRESCIMENTO DE CANAIS MISÓGINOS NA PLATAFORMA
O levantamento atual mostra que, desde a primeira análise realizada em 2024, houve mudanças no ecossistema desses perfis. Na época, 137 canais haviam sido identificados. Desde então, 14 foram removidos, seja por iniciativa dos próprios criadores ou da plataforma.
Apesar disso, parte dos canais alterou apenas a identidade visual ou o nome. Segundo o NetLab, 20 canais passaram por mudanças de nomenclatura, mas alguns deles continuam publicando conteúdos com o mesmo tipo de discurso.
Mesmo com essas alterações, os perfis que permaneceram ativos ampliaram a audiência. O número de inscritos nos 123 canais identificados cresceu 18,5% desde abril de 2024, o equivalente a mais de 3,6 milhões de novos seguidores.
MONETIZAÇÃO TRANSFORMA MISOGINIA EM NICHO DE NEGÓCIO
Além da audiência, o estudo aponta que grande parte desses canais também obtém retorno financeiro com os conteúdos.
Na amostra analisada em 2024, cerca de 80% dos canais utilizavam algum tipo de estratégia de monetização, incluindo recursos oferecidos pela própria plataforma, como anúncios e programas de membros, além de alternativas externas, como venda de e-books ou transferências via Pix.
Para a pesquisadora do NetLab, Luciane Belín, a monetização ajuda a explicar a permanência e expansão desse tipo de conteúdo.
“Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres”, explicou.
COMO O ESTUDO IDENTIFICA CANAIS MISÓGINOS
O levantamento utilizou um protocolo desenvolvido pelos pesquisadores para identificar manifestações de misoginia em conteúdos publicados na plataforma.
Segundo Luciane Belín, o conceito adotado pelo grupo vai além de ataques explícitos ou incitação direta à violência.
“Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que não está só concentrado no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimento de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas”, complementa.
Para classificar os canais, o estudo considerou apenas perfis que possuíam pelo menos três vídeos contendo manifestações de ódio contra mulheres.
DESPREZO ÀS MULHERES É O TEMA MAIS RECORRENTE
Entre os conteúdos analisados, o tema mais frequente foi classificado como “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina”, categoria que reúne 42% dos vídeos identificados.
Nesse tipo de material, segundo o relatório, são comuns mensagens que incentivam homens a rejeitar relacionamentos com mulheres ou a tratá-las com desprezo. Os vídeos também difundem a ideia de que iniciativas de igualdade de gênero seriam estratégias de dominação social contra homens.
A pesquisadora afirma que, em muitos casos, o conteúdo utiliza linguagem ofensiva direta.
“A gente encontrou conteúdos muito explícitos. Quando a gente olha para as palavras, por exemplo, que são usadas para descrever as mulheres, a gente identifica termos como ‘burra’ e ‘vagabunda’ que são muito usados. Isso foi, de certa forma, até uma surpresa, porque a gente pensava que a plataforma derrubava esse tipo de conteúdo”, diz Luciane.
ESTRATÉGIAS PARA DRIBLAR MODERAÇÃO
O estudo também identificou que alguns criadores adotam estratégias para dificultar a moderação automática da plataforma.
Uma das táticas é substituir palavras-chave por variações ou apelidos. Em alguns vídeos, por exemplo, a palavra “mulher” aparece como “colher”, enquanto mães solo são mencionadas como “msol”.
Além do texto ou da fala, o relatório destaca que as mensagens podem aparecer de forma indireta nas imagens utilizadas nos vídeos.
“Às vezes, a opinião não é expressada de forma verbal, mas quando você olha para as imagens que ilustram os vídeos, elas mostram a mulher ajoelhada aos pés do homem ou hipersexualizada com decotes imensos e etc”, complementa.
PUBLICAÇÃO DE VÍDEOS CRESCEU APÓS 2021
O relatório indica que a disseminação desses conteúdos é relativamente recente na plataforma.
Embora o vídeo mais antigo encontrado seja de 2018, a maioria das publicações ocorreu nos últimos anos. Segundo o levantamento:
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88% dos vídeos foram publicados a partir de 2021
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52% entraram na plataforma entre janeiro de 2023 e abril de 2024
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Desde abril de 2024, cerca de 25 mil novos vídeos foram adicionados
Os números indicam uma expansão acelerada da produção de conteúdos associados ao tema.
RESPONSABILIZAÇÃO DAS PLATAFORMAS
A pesquisadora do NetLab defende que o debate sobre misoginia nas redes também envolve a responsabilização das empresas que administram as plataformas digitais.
“A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet.”
POSIÇÃO DO YOUTUBE E DO GOOGLE
Procurado sobre o estudo, o Google Brasil, responsável pelo YouTube, informou que solicitou ao NetLab o compartilhamento da lista de canais analisados, mas os pesquisadores optaram por não divulgar os dados completos.
Segundo Luciane Belín, a decisão foi tomada para evitar possíveis vazamentos e proteger a equipe responsável pela pesquisa, já que o laboratório poderia ser responsabilizado pela eventual remoção dos canais.
Ainda assim, a metodologia utilizada para identificar os conteúdos foi divulgada publicamente, o que permitiria a reprodução da análise por profissionais da própria plataforma.
Em nota enviada por assessoria de imprensa, um porta-voz do YouTube afirmou que conteúdos de discurso de ódio, assédio e cyberbullying não são permitidos.
“Por exemplo, nossas políticas de discurso de ódio proíbem claramente o conteúdo que promove violência ou ódio contra indivíduos ou grupos com base em certos atributos, incluindo gênero. Estamos constantemente avaliando nossas políticas e sistemas conforme a necessidade para proteger nossa comunidade”, continua a nota.
A plataforma também informou que, apenas no quarto trimestre de 2025, removeu 151 mil vídeos e encerrou mais de 37 mil canais por violação das políticas de discurso de ódio. Outros 10.855 canais e 840 mil vídeos foram removidos por assédio e cyberbullying.
Com informações da Agência Brasil

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