A adoção da Escala 4×3 por uma escola de baristas em São Paulo resultou em aumento de 35% no faturamento em um ano, mesmo sem expansão física ou reajuste de preços. A mudança ocorre em meio ao debate nacional sobre modelos de jornada de trabalho e ganha relevância por apontar impacto direto na produtividade.
A experiência chama atenção porque contraria a lógica tradicional de carga horária extensa. Ao reduzir os dias trabalhados e ampliar o descanso, a empresa registrou melhora no desempenho dos funcionários e nos resultados financeiros, em um cenário em que o setor de alimentação enfrentou retração.
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ESCALA 4X3 GANHA DESTAQUE NO DEBATE SOBRE PRODUTIVIDADE
A mudança para a Escala 4×3 foi implementada em 2025, após acordo com os funcionários. Antes, a equipe trabalhava no modelo 5×2, com 44 horas semanais. Com a nova organização, passaram a atuar quatro dias por semana, com três dias de folga e jornada de 40 horas.
A estratégia priorizou produtividade em vez de tempo de permanência no trabalho. Segundo a fundadora do negócio, o desempenho da equipe melhorou mesmo sem alterações estruturais na operação.
“A produtividade aumentou barbaramente. Porque, no ano passado, em 2025, a gente trabalhou com o mesmo cardápio e preço durante o ano inteiro. A gente ficou 17 dias fechados em função de uma obra e não aumentou o número de lugares. Continuamos com as duas lojas e o mesmo número de lugares. E o nosso faturamento em 2025 subiu 35% em um ano em que o setor de alimentação caiu 22%”, disse.
POR QUE MAIS DESCANSO IMPACTA RESULTADOS HOJE
A empresa atribui o desempenho ao maior nível de concentração e engajamento dos funcionários. Com mais tempo livre, os trabalhadores passaram a demonstrar mais disposição no atendimento e nas atividades diárias.
“A galera [os funcionários da empresa] está mais descansada. Nesse ramo de comércio, de alimentação, principalmente hotelaria, a concentração, a atenção, é muito importante para a gente vender mais. Então, a galera descansada, feliz com vida para além do trabalho, rende muito mais, atende melhor”, destacou.
A lógica reforça uma tendência observada em outros setores: menos horas pode significar mais eficiência, especialmente em atividades que exigem foco e interação com o público.
REDUÇÃO DA ROTATIVIDADE E DOS CUSTOS TRABALHISTAS
Outro efeito percebido com a Escala 4×3 foi a queda na rotatividade de funcionários. A empresa registrou taxa de turnover de 8%, considerada baixa para o setor.
“A gente está com turnover [taxa de rotatividade] ridículo de 8% só. Você não gasta mais com rescisão – que é uma coisa caríssima – por mais que o funcionário peça demissão, a rescisão e os encargos rescisórios são altos”, afirmou.
A redução nas demissões também diminuiu a necessidade de contratações temporárias, o que impactou diretamente os custos operacionais.
“Aqui a gente não tem que contratar frila [do inglês freelancer, trabalhador pontual, sem vínculo empregatício]. No Coffee Lab, a gente não contrata frila quase nunca, porque as pessoas não faltam mais, não tem mais atestado. Isso diminui muito o custo e aumenta a capacidade de venda, porque todo mundo que trabalha lá conhece bem a empresa, não tem ninguém muito novo”.
QUALIDADE DE VIDA MUDA ROTINA DOS TRABALHADORES
Para os funcionários, a principal mudança está na qualidade de vida. A jornada reduzida ampliou o tempo disponível para descanso, estudos e convivência familiar.
Uma das colaboradoras relatou que, em empregos anteriores com escala 6×1, utilizava o único dia de folga apenas para recuperar o cansaço.
“Praticamente, eu dormia o meu dia [de folga] inteiro. Não conseguia sair, raramente saía, raramente tinha disposição para estudar. Tempo com a família? Muito pouco, inclusive, hoje em dia me considero uma pessoa super distante da minha família por isso. O tempo que eu tinha era só para descansar, dormir e fazer os afazeres de casa”, destacou.
Ela também mencionou impactos na saúde mental durante a rotina anterior.
“Eu já tive [síndrome de] Burnout em um trabalho anterior. Além de tudo, eu não dormia, tinha que ir trabalhar e tomava muita medicação, sentia muito sono durante o trabalho, e tinha muitas crises de pânico”.
Com a nova escala, a percepção mudou.
“É menos tempo no transporte, menos dias no transporte público. Mais tempo de descanso, de cuidar de mim mesma, cuidar da minha cabeça, de ter lazer e de cuidar da minha própria casa”.
“Agora consigo me dedicar à minha saúde, aos meus estudos, aos amigos próximos e até fazer viagens quando a gente tem as três folguinhas seguidas”, acrescentou.
O QUE MUDA A PARTIR DE AGORA
A experiência com a Escala 4×3 surge em um momento de discussão nacional sobre jornadas de trabalho, incluindo propostas de revisão do modelo 6×1. O caso indica que alternativas podem trazer ganhos tanto para empresas quanto para trabalhadores.
A tendência é que iniciativas semelhantes sejam observadas em outros segmentos, especialmente aqueles que dependem de produtividade e qualidade no atendimento.
Nos próximos meses, o debate deve avançar no país, enquanto exemplos práticos como este seguem sendo analisados como possíveis caminhos para mudanças no mercado de trabalho.
Com informações de Agência Brasil

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