ANCINE Contra-Ataca com Nova Cota de Tela e Mira Sessão Fantasma

Novas regras publicadas pela ANCINE buscam ampliar a presença de filmes brasileiros em horários nobres e fortalecer sua permanência nas salas de cinema.

A nova regulamentação da Cota de Tela divulgada pela ANCINE nesta quarta-feira (6) tenta responder a um problema histórico do cinema brasileiro: a diferença entre cumprir tabela e produzir circulação real. A regra passa a bonificar sessões de filmes nacionais exibidas após as 17h, cria incentivos para obras mantidas por mais tempo em cartaz e reconhece títulos premiados, numa tentativa de aproximar a política pública da lógica de permanência, público e visibilidade.

A mudança movimenta o mercado exibidor justamente porque toca no ponto mais sensível da relação entre sala e filme: a programação. Enquanto cinemas de pequeno e médio porte demonstram preocupação com o impacto operacional da nova regra, grandes redes tendem a enxergar o modelo como uma transição da obrigação rígida para um sistema baseado em estímulo, bonificação e desempenho cultural. O debate ganha ainda mais relevância num momento em que o audiovisual brasileiro vive uma forte concentração de público em poucos títulos de grande alcance, enquanto centenas de produções seguem disputando espaço mínimo de exibição.

É nesse contexto que práticas atribuídas à Cinemark passam a ser discutidas de forma mais crítica. Quando uma rede utiliza o mesmo filme em sessões esvaziadas apenas para fechar a conta da cota, ela pode até atender formalmente à norma, mas esvazia o sentido da política pública. O filme não circula de fato, o público não é alcançado e a diversidade cultural deixa de ocupar presença concreta no cotidiano das salas de cinema.

Zuzubalândia, animação brasileira baseada no universo infantil de Mariana Caltabiano, virou um símbolo involuntário dessa distorção: um filme legítimo, com vocação educativa e ambiental, sendo usado como peça de encaixe para cumprir cota sem necessariamente ampliar sua circulação real. A rede Cinemark está usando o filme em centenas de sessões fantasmas, sem público, para fingir um cumprimento à Cota de Tela.

O problema não está no filme em si, mas no modo como ele é acionado para satisfazer uma obrigação formal, enquanto o cinema brasileiro – especialmente o regional – continua precisando de tela, público e permanência.

O caso se torna ainda mais contraditório porque o próprio governo federal justifica a Cota de Tela como mecanismo de ampliação do acesso do público ao audiovisual nacional e de fortalecimento da cadeia produtiva do setor. A nova instrução normativa da ANCINE reforça essa intenção ao deslocar o foco para horários nobres e para a permanência em cartaz – ou seja, para aquilo que efetivamente produz encontro entre filme e plateia.

Num país em que poucos títulos concentram grande parte da bilheteria e muitos filmes praticamente desaparecem após a estreia, a discussão ultrapassa o simples cumprimento formal da regra. O centro do problema é outro: como transformar a Cota de Tela em política efetiva de presença, circulação e diversidade cultural, especialmente para o cinema brasileiro regional, historicamente sub-representado nas grandes redes exibidoras.

A ANCINE alterou as regras da Cota de Tela para 2026 com o objetivo de fazer os filmes brasileiros circularem em horários de maior público e permanecerem mais tempo em cartaz. A mudança ocorreu após a agência identificar que, apesar do aumento no número de sessões nacionais depois da retomada da política, muitos filmes continuavam sendo exibidos em horários de baixa procura, mantendo a participação de público abaixo do esperado.

A nova norma cria bônus na contagem da cota para sessões exibidas após as 17h, especialmente quando os filmes permanecem em cartaz entre a segunda e a quinta semana. Obras premiadas em festivais também passam a receber pontuação maior. Além disso, a agência mudou a forma de calcular o cumprimento das metas, adotando o chamado “ano cinematográfico”, baseado nas semanas de programação das salas.

Segundo nota oficial da própria ANCINE, a regulamentação publicada em 6 de maio busca fortalecer a presença e a permanência de filmes brasileiros no horário nobre, criando incentivos para sessões após as 17h e para obras mantidas por mais tempo em cartaz.

Nota oficial da ANCINE sobre a nova regulamentação da Cota de Tela

A regulamentação também prevê redução parcial das obrigações para grupos exibidores de médio porte em 2026 e terá efeito retroativo a janeiro deste ano. Segundo a agência, a medida busca fortalecer a presença do cinema brasileiro nas salas e aproximar a política pública da formação real de público para o audiovisual nacional.

Imaginem se cada um dos 14 estados que tem uma das 460 salas de cinema da rede Cinemark abrissem janela para filmes regionais, chamando público local?

O Brasil de dimensões continentais poderia revolucionar a sala de cinema com uma política regional, coisa que Humberto Mauro já discutia, por exemplo, há cem anos atrás, e ainda temos um modus operandi colonizado.

 

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