Dias atrás publiquei uma chamada “Vamos conversar sobre cinema?” sobre a pré-estreia do documentário A Colisão dos Destinos na Paradigma Cine Arte, em Florianópolis. A reação dos frequentadores do espaço cultural foi imediata e intensa, inclusive com manifestações de afeto ao bolsonarismo.
O episódio da pré-estreia evidencia um problema constitutivo do bolsonarismo, movimento fundado sobre a negação da ciência e o ataque direto à produção cultural brasileira. Desse modo, a revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro pede recursos diretamente a Daniel Vorcaro reforça a ideia já apontada nesta coluna sobre o paradoxo que estrutura o filme Dark Horse.
Os autointitulados patriotas atuam sistematicamente contra os marcos legais que sustentam o audiovisual brasileiro. Atacam a Lei do Audiovisual, as leis de incentivo à cultura e a regulamentação do streaming. A lista de oposições é extensa e converge para o enfraquecimento da produção nacional.
O filme “Dark Horse” já nasce orientado para o mercado internacional, com a língua inglesa escolhida para narrar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No mercado de coprodução internacional, a injeção de capital em filmes com potencial de grande público constitui prática corrente. Muitas coproduções operam com lógica semelhante à de participações societárias, com cotas que permitem retorno proporcional ao desempenho comercial da obra.
A revista Veja atribuiu financiamento do Banco Master ao documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva dirigido por Oliver Stone. O diretor desmentiu categoricamente qualquer aporte do banco ou de coprodutores brasileiros.
O bolsonarismo quer converter cinema em arma política depois de passar anos atacando a própria cultura como inimiga interna. Quando um filme sobre Jair Bolsonaro surge associado a um pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, cercado por irregularidades, notificações e suspeitas no ecossistema do Banco Master, o que aparece é a tentativa de transformar poder econômico em blindagem simbólica.
A estrutura do audiovisual brasileiro permanece majoritariamente dependente do investimento público. Em 2025, o setor movimentou R$ 1,41 bilhão, com o Fundo Setorial do Audiovisual e as leis de incentivo concentrando a maior parte dos recursos. Nos Estados Unidos, o financiamento do cinema se apoia em uma combinação mais robusta de capital privado e incentivos fiscais estaduais, com estados disputando produções por meio de créditos, rebates e benefícios tributários.
O contraste expõe uma contradição estrutural do capitalismo periférico brasileiro. O discurso ultraliberal demoniza o Estado quando ele financia diversidade estética, formação crítica e soberania cultural. O mesmo discurso mobiliza grandes fortunas quando deseja transformar cinema em instrumento de propaganda e reescrita histórica.
O cinema brasileiro continua existindo porque a política pública sustenta aquilo que o capital privado ainda não assumiu como compromisso estrutural. O desafio consiste em ampliar essa base pública e consolidar um ambiente em que o investimento privado fortaleça a pluralidade cultural e a autonomia artística. O verdadeiro impasse reside na tentativa recorrente de subordinar a arte ao projeto de poder das elites econômicas e ideológicas.
Hoje a revista Veja publicou uma referência ao documentário “Lula” (2024) de Oliver Stone como uma produção que “também” recebeu verba do Banco Master / Daniel Vorcaro. Os produtores deste documentário, muitos com vários Oscars na bagagem, negaram veementemente quaisquer ligações com verba de empresa ou banco brasileiro. Mesmo assim, a mentira é o centro de gravidade, meio areia movediça do bolsonarismo.
Oliver Stone que terminou seu filme sobre o “whistleblower” Edward Snowden com imagens da ex-presidente DIlma e da Petrobras, sugerindo que o governo dos EUA mantinham vigilância e escuta ilegais, meio que profetizando o impeachment.
A imagem final talvez já tenha sido formulada por Oliver Stone em Natural Born Killers. Na parábola narrada por Mickey Knox, personagem vivido por Woody Harrelson, uma mulher encontra uma cobra congelada, recolhe o animal, aquece seu corpo e devolve sua força. Quando a cobra desperta, morde a própria mulher e a condena à morte. Diante do espanto da benfeitora, a cobra responde: “Você sabia que eu era uma cobra quando me recolheu”.
A metáfora ilumina o presente com precisão cortante. Quem escolhe alimentar uma máquina política fundada no ressentimento, na destruição institucional e na hostilidade à cultura participa conscientemente de sua natureza. A mordida sempre esteve inscrita no veneno.

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
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