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Quando aprendemos a não pedir ajuda 

A professora termina a explicação e pergunta:

“Alguém tem alguma dúvida?”

Silêncio na sala de aula. Um grande silêncio que deixa escutar os passarinhos na árvore, os passos de alguém na rua e até o estourar da pipoca no panelão do carrinho junto ao portão da escola.

Uma criança sabe que não entendeu. A pergunta está pronta. A mão até ameaça subir, mas para no meio do caminho.

Ela faz um cálculo. Não matemático. Um cálculo de pertencimento.

“E se rirem de mim?”

Então se encolhe. E permanece na dúvida.

Não lhe parece que uma das primeiras coisas que aprendemos na escola seja esconder o que não sabemos?

Bem antes de decorar o nome dos países que fazem fronteira com o Brasil (Aliás, você decorou? Consegue dizer agora?) ou de descobrir quanto é sete vezes oito.

Bem antes disso aprendemos que o que está em jogo, para além da geografia e da matemática, é a possibilidade de parecer “menos inteligente” do que os outros.

O olhar dos colegas pesa mais do que a curiosidade.

Quantas vezes aprendemos que é melhor fingir que entendemos do que correr o risco de sermos julgados?

Já outras crianças, para além do medo do riso dos colegas, podem carregar também uma convicção silenciosa: a de que pedir ajuda não é uma opção.

Em algum momento, entenderam que precisavam dar conta. Talvez porque tenham sido elogiadas justamente por isso. Talvez porque não houvesse quem pudesse ajudá-las. Talvez porque descobriram cedo que demonstrar fragilidade custava caro.

Então aprendem a fazer sozinhas. E fazem muito bem. Tão bem que nem percebem que transformaram a autossuficiência em uma forma de proteção.

E a gente sabe… essas estratégias infantis crescem conosco.

Adultos dizem:

“Depois eu resolvo.”

“Não quero incomodar.”

“Deixa que eu dou conta.”

E continuam sendo aquela criança que preferiu permanecer em silêncio para não parecer menos inteligente. Ou aquela que aprendeu, cedo demais, que precisava ser forte o tempo todo.

Em ambos os casos, o resultado é parecido: pedir ajuda deixa de ser um gesto natural e passa a parecer um fracasso.

E se aquela criança tivesse levantado a mão?

Provavelmente descobriria que metade da turma tinha exatamente a mesma dúvida. Uma pergunta autoriza outras pessoas a também não saberem.

E se aquela outra criança tivesse encontrado alguém em quem confiar e conseguisse pedir ajuda?

Talvez descobrisse que nem toda força precisa ser solitária e que existem pesos que foram feitos para serem carregados por duas, quatro, seis mãos.

Que precisar de alguém não diminui ninguém.

Que ser cuidado não é o oposto de ser forte. É justamente uma das maneiras pelas quais nos tornamos fortes!

As duas crianças, na verdade, querem exatamente a mesma coisa.

A primeira pensa: “Tomara que ninguém descubra que eu não sei.”

A segunda pensa: “Tomara que ninguém perceba que eu preciso.”

Uma teme que descubram que ela ainda não sabe. A outra teme que descubram sua necessidade. Mas ambas fazem o mesmo movimento: escondem uma parte verdadeira de si.

No fim, pedir ajuda é ter a coragem de deixar que o outro veja uma parte de nós que aprendemos a esconder. E é justamente aí que mora a beleza, e é claro, a dificuldade, desse gesto.

É preciso coragem para ir mostrando àquela criança que ainda mora em nós, aos poucos que seja, que ela não precisa mais enfrentar tudo sozinha. Que já não é necessário esconder as dúvidas para ser aceita, nem esconder as fragilidades para ser amada.

É preciso interromper uma velha aprendizagem baseada no medo.

Amadurecer é levantar, enfim, a mão que ficou suspensa naquela sala de aula. Ou baixar, pela primeira vez, a mochila pesada de quem acreditou que precisava carregar o mundo sozinho.

E, um dia, conseguir dizer à própria criança:

Você pode perguntar.

Você pode precisar.

Você pode pedir ajuda.

Porque crescer nunca significou dar conta de tudo sozinho.

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Nota de rodapé
O texto desta semana foi escrito atendendo a pedidos. Será que é porque tem muita gente por aí que não sabe pedir ajuda?