Faça um exercício comigo.
Pense em duas pessoas quaisquer.
Pode ser você e alguém que esteja sentado por perto agora. Pode ser um casal de amigos. Dois irmãos. Ou dois desconhecidos parados em frente à faixa de pedestres esperando o sinal abrir.
Agora observe.
Ou melhor: procure as diferenças.
Existem pessoas que levam tempo de manhã para se tornar quem são. Outras já acordam a mil.
Uns falam a palavra Massachusetts com a leveza de quem está brincando num balanço. Outros tropeçam nas sílabas, se atrapalham e acabam provocando risos.
Tem gente que desenha bem. Outros só conseguem rabiscar bonequinhos palito e um sol atrás da montanha.
Tem quem adore jazz. Tem quem só ouça heavy metal. Tem quem misture tudo isso com um pagodinho de vez em quando.
Tem gente que acha a lua fascinante. Conheço alguns que passam semanas sem olhar pro céu.
Existem os “bichos-preguiça” e também os agitadinhos que não conseguem sossegar.
Tem colecionador de brinquedos do Kinder Ovo que já é adulto. Tem adulto que se esqueceu de brincar pra sempre.
Há quem chore até em propaganda de trator. Outros até se emocionam, mas não derramam uma lágrima.
Já vi pessoas dançando no shopping. Também já vi familiares revirando os olhos, como quem diz: “Não conheço”
Já vi gente falando sozinha. Já vi gente sem saber o que dizer.
Tem gente que sabe escutar. Tem gente que fala sem parar.
Existe a turma dos que morrem de vergonha e os espontâneos que vivem como se conhecessem todo mundo.
Conheço quem cresceu ouvindo “Fala baixo!”, mas também quem passou a vida escutando “Fala mais alto, que ninguém te ouve”.
Tem gente com uma gargalhada que se espalha por onde passa. Outras sorriem como quem pede desculpas.
Conheço gente que onde encosta dorme. Também conheço o pessoal da insônia.
Há quem nunca tenha fritado um ovo ou lavado uma xícara. Tem gente que trabalhou desde cedo para ajudar a família.
Alguns receberam muito amor quando eram crianças. Outros nem souberam direito como era isso.
Tem filho único. Tem quem tenha três ou quatro irmãos. Alguns, de famílias diferentes, até.
Existem pessoas que já passaram por muita coisa nessa vida. Outras recém começaram a viver de verdade.
Café com açúcar, sem açúcar, puro, com leite, com canela, quente, frio, gelado. E ainda tem quem não goste de café de jeito nenhum.
Tem gente que passou dos oitenta e continua a fim de trocar. Tem adolescente que não sai do quarto. E existe um vice-versa gigantesco.
Tem quem acredite em um deus. Tem quem acredite em vários. Tem quem desdenhe quando o assunto aparece.
Tem quem conheça o carinho. Tem quem nunca tenha sido apresentado a ele.
Tem quem adore um frio na barriga para se sentir vivo. Tem quem se esconda atrás da cortina por medo até do sol batendo no nariz.
Tem gente que chove. Tem gente que venta. Tem gente que brilha. E tem gente que faz tudo isso misturado, às vezes no mesmo dia.
E isso é só uma amostra…
Cada pessoa chega ao mundo por um caminho diferente. Cresce em uma casa diferente. Aprende medos diferentes. Recebe afetos diferentes. Convive com silêncios e barulhos diferentes. Olha para a vida por uma janela que muitas vezes só ela sabe abrir.
Mesmo assim, basta alguém fazer uma escolha diferente da nossa. Amar, separar, casar, criar um filho, mudar de emprego, mudar de cidade ou simplesmente viver de outro jeito, para aparecer um especialista dizendo como todo mundo deveria viver.
Será que é mesmo estranho existirem tantos jeitos diferentes de viver?
Ou será que estranha é a nossa insistência em acreditar que um único jeito de viver deveria servir para todo mundo?
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Nota de rodapé: Por que algumas pessoas ocupam o mundo enquanto outras pedem licença para existir?
