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A conversa que os homens ainda não tiveram

Enquanto ensinamos mulheres a reconhecer e denunciar a violência, ainda precisamos ensinar homens a reconhecê-la antes de praticá-la. É cansativo demais continuar preparando mulheres para sobreviver ao que os homens precisam aprender a não produzir.

Agosto é lilás!

Numa campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher.

O mês foi escolhido em referência ao aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. Portanto, estamos neste ano comemorando os 20 anos de sanção da lei.

Os dados do nosso estado, referentes a 2025 e divulgados agora pelo Observatório da Violência Contra a Mulher, são alarmantes.

Santa Catarina teve 71.697 ocorrências de ameaça contra mulheres. Isso gerou a taxa de 1.733 registros a cada 100 mil mulheres, a maior taxa proporcional do país. É mais que o dobro da média nacional, que foi de 720,9.

62,4% de todas as mulheres assassinadas no estado morreram por razões de gênero, ou seja, feminicídio. A título de comparação, a média nacional dessa mesma proporção ficou em 44,4%.

Em 2026, 32 feminicídios já foram confirmados pela Secretaria de Segurança Pública e 19.795 medidas protetivas já foram solicitadas por mulheres em situação de risco.

Estive recentemente participando do ato de instalação do Banco Vermelho, no Ministério Público Federal (MPF) em SC, um manifesto internacional de combate ao feminicídio. Logo após houve uma roda de conversa com o tema “Violência Psicológica — A ferida invisível que antecede a tragédia”.

Uma informação apresentada naquela conversa me chamou muito a atenção e permanece ecoando em mim: segundo os relatos trazidos pela experiência no atendimento desses casos, o homem acusado de violência contra a mulher frequentemente não se reconhece como autor da violência que praticou.

O sujeito que roubou sabe que cometeu o roubo. O que traficou sabe do seu crime. O que matou o vizinho sabe que cometeu um assassinato.

Mas o que cometeu qualquer agressão contra uma mulher, normalmente, não admite ou não entende que é crime.

O que se vê, numa audiência diante do juiz, é um homem montado em toda a sua soberba dizendo: “Isso não é nada demais!”, “Não é bem assim!”, “Mas ela merecia!”, “Não entendo por que vão me prender por causa disso!” E muitas outras frases desse tipo. Eles ali, em frente ao juiz, se apresentam indignados.

Como um ser humano pode praticar uma violência e, ainda assim, construir para si mesmo a narrativa de que não fez nada de errado?

Se os homens que cometem violência raramente se enxergam como autores de violência, então para quem estamos falando quando fazemos campanhas de conscientização?

O que mais me impressionou nessa informação foi perceber que, para enfrentar a violência contra a mulher, precisamos muito urgentemente olhar para um lugar que ainda olhamos pouco: o homem antes de se tornar réu.

Penso que seja justamente este um dos maiores desafios do enfrentamento à violência contra a mulher.

Não basta que as mulheres compreendam o problema. Não basta que as instituições o compreendam. Não basta que tenhamos leis para enfrentá-lo.

É preciso que os homens compreendam o problema.

É antes que a violência aconteça — antes que exista um réu — que essa conversa precisa acontecer.

E essa conversa ainda está longe de acontecer na profundidade necessária.

Homens aprenderam a conversar entre si sobre futebol, política, negócios, carros, trabalho. Mas não aprenderam a conversar sobre poder, rejeição, ciúme, controle, raiva, frustração e sobre o modo como aprenderam a se relacionar com as mulheres.

Talvez porque seja mais confortável, imagino, acreditar que a violência contra a mulher é praticada por monstros facilmente identificáveis, e não por eles, cidadãos comuns.

Mas a realidade mostra algo diferente.

Os homens que chegam aos tribunais são, muitas vezes, pais, filhos, maridos, colegas de trabalho e vizinhos. Homens comuns. E justamente por serem comuns é que a questão diz respeito a todos.

Enquanto a violência for tratada como um problema de algumas mulheres ou de alguns criminosos, continuaremos chegando tarde.

A mudança começa quando os homens deixam de ocupar apenas o lugar de acusados ou defensores e passam a ocupar também o lugar de participantes da conversa.

Não para explicar a violência. Não para justificar a violência. Mas para entender como ela nasce.

Há uma mudança importante acontecendo. As mulheres estão sendo informadas sobre seus direitos, sobre os diferentes tipos de violência, sobre os canais de denúncia e sobre as medidas protetivas disponíveis. Há uma rede de amparo que, embora ainda tenha muito a avançar, existe. E muitas mulheres, munidas dessas informações, estão encontrando coragem para denunciar.

E é preciso reconhecer a dimensão dessa coragem.

Porque denunciar um homem que ameaça, controla, humilha ou agride não é um ato simples, especialmente numa sociedade que carrega estruturas profundamente patriarcais. Muitas vezes, esse homem é o companheiro, o pai dos filhos, o provedor da casa, alguém com quem aquela mulher construiu uma vida. Denunciá-lo pode significar enfrentar não apenas o medo da violência, mas também o medo das consequências da própria denúncia.

Por isso, informar as mulheres sobre seus direitos e garantir que sejam protegidas é indispensável. Mas não pode ser o ponto final da nossa estratégia de enfrentamento.

Não podemos continuar preparando cada vez melhor as mulheres para reconhecer, denunciar e sobreviver à violência e, ao mesmo tempo, deixar os homens praticamente fora da conversa sobre como essa violência se constrói.

Há algo de profundamente desigual nessa equação: ensinamos a mulher a reconhecer o perigo, a procurar ajuda, a denunciar e a se proteger. Mas quem está ensinando os homens a reconhecer em si mesmos os comportamentos que podem produzir esse perigo?

A mulher precisa aprender a reconhecer a violência quando ela acontece. O homem precisa aprender a reconhecê-la antes de praticá-la.

Nenhuma transformação social profunda acontece quando a responsabilidade pela mudança recai justamente sobre quem sofre as consequências do problema.

O feminicídio não começa no assassinato. Começa muito antes: nas pequenas permissões culturais, nas crenças naturalizadas, nas piadas, nas humilhações, nas tentativas de controle que aprendemos a chamar de amor. Começa também quando outros homens assistem a tudo isso e não interrompem.

É por isso que os homens precisam conversar entre si.

Por favor, homens, vocês estão atrasados para conversar sobre isso entre vocês!

Formem seus grupos, coloquem esse assunto na pauta. Não para se defenderem. Não para dizerem que “nem todo homem”. E muito menos para deslocar novamente para as mulheres a responsabilidade de resolver a violência que sofrem.

Mas para que possam olhar uns para os outros e perguntar: que homem aprendemos a ser? O que ainda consideramos normal? O que reproduzimos sem perceber? E o que precisamos desaprender?

Enquanto a conversa sobre violência contra a mulher continuar sendo uma conversa predominantemente entre mulheres, estaremos tentando transformar uma realidade sem convocar suficientemente aqueles que precisam transformar o próprio comportamento.

Os homens precisam entrar nessa conversa. E precisam entrar antes que ela aconteça diante de um juiz. Porque, quando chegamos ao tribunal, já chegamos tarde demais.