Senador chegou a ficar impedido de registrar candidatura à Presidência pelo PL; Justiça Eleitoral descartou ataque hacker e determinou investigação para identificar responsável pelo cadastro
Uma filiação partidária não reconhecida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) provocou uma reviravolta na corrida presidencial nesta quinta-feira (13). Ao tentar avançar no registro de sua candidatura à Presidência da República, a campanha descobriu que ele aparecia no sistema da Justiça Eleitoral como integrante do Missão, partido ligado ao MBL e que tem Renan Santos como candidato ao Palácio do Planalto.
A alteração teve efeito imediato: como o sistema passou a considerar uma filiação mais recente ao Missão, o vínculo de Flávio com o PL deixou de aparecer como ativo. Na prática, a situação impediu temporariamente que a legenda registrasse sua candidatura presidencial, a dois dias do encerramento do prazo, marcado para sábado (15).
Flávio afirmou ter sido vítima de fraude e acionou a Justiça Eleitoral. O Missão também sustenta que a filiação ocorreu de maneira fraudulenta e diz que tentou impedir a operação.
Horas depois, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou a retirada do vínculo com o Missão e o restabelecimento da filiação de Flávio ao PL, liberando o caminho para o registro da candidatura. O episódio, porém, não terminou com a correção do cadastro: a origem da operação será investigada.
FILIAÇÃO AO MISSÃO TRAVOU REGISTRO DA CANDIDATURA
A irregularidade ganhou repercussão quando a equipe de Flávio tentou concluir os procedimentos para registrar sua candidatura pelo PL.
Uma certidão da Justiça Eleitoral mostrava que o senador havia permanecido no PL até 12 de agosto de 2026 e, posteriormente, aparecia vinculado ao Missão. Como a legislação exige que candidatos estejam regularmente filiados ao partido pelo qual pretendem disputar a eleição, a alteração criou um obstáculo para o registro.
O caso ganhou ainda mais importância por ocorrer às vésperas do fim do prazo para apresentação das candidaturas à Justiça Eleitoral.
Flávio reagiu publicamente afirmando que sua filiação havia sido fraudada. A campanha procurou o TSE para cancelar o vínculo com o Missão e recuperar a situação partidária anterior.
TSE DESCARTA HACKEAMENTO DO SISTEMA
A primeira explicação oficial do TSE afastou a hipótese de que alguém tivesse invadido os sistemas da Justiça Eleitoral.
Segundo a Corte, a filiação ocorreu por meio do uso indevido da ferramenta por uma pessoa que possuía credenciais da legenda para realizar filiações partidárias. Ou seja, de acordo com o tribunal, não houve ataque hacker contra o sistema do TSE.
A distinção é importante: o TSE não descartou a existência de uma fraude envolvendo a filiação, mas informou que a irregularidade não decorreu de uma invasão de seus sistemas.
Diante da situação, Nunes Marques encaminhou o caso para providências na esfera eleitoral e determinou a abertura de investigação pela Polícia Judiciária.
MISSÃO TAMBÉM ALEGA TER SIDO VÍTIMA DE FRAUDE
O Missão negou ter interesse em receber Flávio Bolsonaro em seus quadros e afirmou que também foi vítima da operação.
Segundo a versão apresentada pela legenda, seu sistema detectou a irregularidade e tentou cancelar a filiação no mesmo dia, mas a operação não teria sido aceita pela Justiça Eleitoral naquele momento.
O partido apresentou ainda uma informação que acrescentou uma nova controvérsia ao episódio. A sigla afirma ter comunicado o gabinete de Flávio sobre a tentativa de filiação desde 2 de agosto, antes de o problema impedir o registro da candidatura. De acordo com o Missão, mensagens enviadas ao endereço eletrônico utilizado no procedimento chegaram a ser abertas, mas não receberam resposta.
A campanha de Flávio contestou a narrativa do partido e classificou o episódio como uma “molecagem”. Também questionou como a legenda identificou a irregularidade e por que procurou o gabinete do senador.
CADASTRO APRESENTAVA INFORMAÇÕES FICTÍCIAS
Outros detalhes divulgados sobre a filiação aumentaram as suspeitas de uma ação deliberada.
Dados apresentados no cadastro incluíam informações evidentemente incomuns, entre elas referências a um endereço fictício com expressões como “Rua dos Bandidos” e “Bairro Miliciano”.
O Missão também afirma possuir registros digitais capazes de ajudar a reconstruir o caminho utilizado para realizar a filiação.
Renan Santos declarou que o e-mail oficial de Flávio Bolsonaro teria sido utilizado no procedimento e afirmou que a legenda possui elementos para comprovar essa informação. Essa versão, contudo, integra as alegações do partido e ainda deverá ser confrontada com os resultados da investigação.
NUNES MARQUES RESTABELECE FILIAÇÃO AO PL
No fim da tarde, Nunes Marques determinou que o registro de Flávio no Missão fosse cancelado e que sua filiação ao PL fosse restabelecida.
Com a decisão, o obstáculo que impedia o registro da candidatura presidencial foi removido. A campanha poderá formalizar a participação de Flávio na disputa dentro do prazo eleitoral.
O presidente do TSE também determinou o envio de documentos e registros digitais para subsidiar a investigação sobre a fraude.
INVESTIGAÇÃO DEVE APURAR QUEM FEZ A FILIAÇÃO
Apesar da solução para a candidatura, permanecem questões sem resposta.
A investigação deverá esclarecer quem realizou a filiação, como foram utilizadas as credenciais partidárias e quais dados foram empregados para efetivar o cadastro.
Também deverá ser apurada a alegação do Missão de que o endereço eletrônico ligado ao gabinete de Flávio foi utilizado durante o procedimento e de que alertas sobre a irregularidade teriam sido enviados antes de o caso ganhar repercussão nacional.
Até o momento, portanto, há dois pontos estabelecidos pelo TSE: Flávio Bolsonaro voltou a constar como filiado ao PL e a Corte não identificou um ataque hacker contra seu sistema. A autoria e as circunstâncias da filiação irregular ao Missão continuam sob investigação.


