segunda-feira, 28 setembro , 2026

Bets deixaram prejuízo bilionário e ampliaram casos de dependência no Brasil

por Adriana Dias
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Famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões em apostas em 2025; especialistas alertam para endividamento, compulsão e impactos sobre a saúde mental

Conforme matéria publicada na Agência Brasil, a expansão das bets no país trouxe consequências que ultrapassaram as perdas financeiras. Relatos de apostadores e avaliações de especialistas mostram casos de endividamento, perda de patrimônio, conflitos familiares, dependência e agravamento de problemas de saúde mental associados às apostas online.

A dimensão econômica do fenômeno aparece nos números. Somente em 2025, as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões nas apostas, considerando a diferença entre o dinheiro destinado aos jogos e os valores recebidos em prêmios. Ao mesmo tempo, pesquisas indicam que o acesso às plataformas alcançou também crianças e adolescentes, com registros de apostas entre estudantes de apenas 11 anos.

O tema ganhou uma nova dimensão em setembro de 2026, após o governo federal anunciar a proibição das operações das empresas de apostas online no Brasil. Paralelamente, medidas na área da saúde passaram a buscar a identificação e o atendimento de pessoas que desenvolveram problemas relacionados ao jogo.

APOSTAS MOVIMENTARAM QUASE R$ 351 BILHÕES VIA PIX

Dados divulgados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) ajudam a dimensionar quanto dinheiro circulou nesse mercado. Entre outubro de 2024 e março de 2026, as bets movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.

No mesmo intervalo, as perdas dos apostadores ficaram em uma média de R$ 4,7 bilhões por mês. O prejuízo registrado pelas famílias em 2025 correspondeu a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias.

Os cálculos levam em consideração os recursos transferidos às casas de apostas, descontados os valores devolvidos aos jogadores na forma de prêmios.

DÍVIDAS, PERDA DE PATRIMÔNIO E AFASTAMENTO DA FAMÍLIA

Por trás dos números estão histórias de pessoas que viram diferentes áreas da vida serem afetadas pela dependência.

Kaio*, de 42 anos, contou à Agência Brasil que perdeu o carro, a casa e o emprego depois de acumular dívidas relacionadas ao jogo. Com medo de agiotas, afastou-se da família e passou a viver sozinho em uma cidade do interior de Goiás.

Depois de cerca de seis anos convivendo com o problema, procurou atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde passou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas. Atualmente, utiliza três medicamentos diariamente.

Ao saber da decisão do governo de proibir as operações das bets, definiu sua reação em poucas palavras: “Um grande alívio.”

O caso mostra como a compulsão pode deixar de ser apenas uma questão financeira e atingir trabalho, patrimônio, relações pessoais e condições de saúde.

PUBLICIDADE ATINGIU PRINCIPALMENTE PESSOAS VULNERÁVEIS

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que pessoas em situação de vulnerabilidade estiveram entre as mais suscetíveis aos problemas provocados pelas apostas.

Segundo a especialista, parte da publicidade difundida pelas plataformas estimulava a percepção de que os jogos poderiam representar uma forma de conseguir dinheiro rapidamente ou complementar a renda.

“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso.”

A expectativa de ganhos imediatos, combinada à facilidade de acesso pelo celular e à presença constante de publicidade, tornou esse ambiente especialmente arriscado para quem já enfrentava dificuldades financeiras.

BÔNUS E MENSAGENS INCENTIVAVAM A CONTINUIDADE DO JOGO

As normas que regulamentavam as apostas previam medidas destinadas a proteger os usuários, entre elas o bloqueio de jogadores identificados como compulsivos.

O advogado Júlio Leone, porém, relatou à Agência Brasil que pessoas com comportamento problemático continuavam recebendo bônus, anúncios e estímulos para realizar novas apostas.

“É aí que ela perde todo o capital”, afirmou.

Kaio relatou experiência semelhante. “O celular não parava de trazer mensagens.”

Para pessoas com dependência, esse contato frequente pode dificultar a interrupção do comportamento e estimular novas tentativas de recuperar o dinheiro já perdido.

UM EM CADA CINCO ESTUDANTES JÁ FEZ APOSTAS ONLINE

A presença das bets entre crianças e adolescentes também acendeu um alerta.

Levantamento realizado a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação mostrou que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio entrevistados afirmaram já ter realizado apostas online.

O estudo ouviu 1.912 alunos de 191 escolas de diferentes regiões do país.

Entre os estudantes de 11 anos, 9,5% disseram já ter apostado, indicando que o contato com esse tipo de plataforma começou ainda na infância para uma parcela dos entrevistados.

A psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes são particularmente vulneráveis a esse tipo de estímulo porque as regiões cerebrais relacionadas ao controle dos impulsos e à avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.

Enquanto os mecanismos relacionados à recompensa e à dopamina respondem intensamente ao estímulo provocado pelo jogo, áreas responsáveis pela tomada de decisões e pelo controle dos impulsos continuam amadurecendo até a faixa dos 20 e poucos anos.

COMPULSÃO PODE AGRAVAR PROBLEMAS DE SAÚDE MENTAL

Profissionais que atendem pessoas com transtornos relacionados ao jogo identificaram quadros de ansiedade, isolamento social, desesperança, aumento do consumo de álcool e alterações importantes de comportamento.

Em situações mais graves, também foram registrados pensamentos relacionados à morte e ideação suicida.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, afirma Katia Branco.

Segundo a psiquiatra, os prejuízos financeiros podem aumentar significativamente o sofrimento de pessoas que perderam o controle sobre as apostas.

“Há quem tenha pensamentos de morte e, no caso, os mais graves já com a ideação suicida em virtude dos prejuízos financeiros que têm”, explica.

Falas sobre não querer mais viver, mudanças bruscas de comportamento, afastamento de familiares e amigos e manifestações persistentes de desesperança são sinais que exigem atenção e busca por atendimento profissional.

ACESSO PELO CELULAR MUDOU A RELAÇÃO COM O JOGO

A disponibilidade permanente é uma das características que diferenciam as apostas online de outras modalidades de jogo.

Com um smartphone, uma pessoa pode apostar de praticamente qualquer lugar e a qualquer hora. Não há necessidade de deslocamento nem de acesso a um espaço físico específico, o que reduz barreiras que anteriormente poderiam interromper ou retardar uma nova aposta.

Luiz Carlos*, de 71 anos, integrante dos Jogadores Anônimos, resumiu essa mudança: “É um cassino dentro do seu bolso”.

Em entrevista à Rádio Nacional, ele comparou a realidade atual com a época em que ainda jogava.

“Graças a Deus eu não jogo hoje, porque, se eu jogasse, estava perdido. Na minha época, a gente tinha que sair de casa para jogar. Hoje não precisa mais”, afirmou.

A facilidade de acesso é apontada por especialistas como um dos elementos que podem aumentar o risco para pessoas com predisposição ou que já desenvolveram comportamento compulsivo.

BETS FORAM AUTORIZADAS EM 2018 E REGULAMENTADAS EM 2023

As apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas no Brasil pela Lei nº 13.756, sancionada em dezembro de 2018, no último mês do governo de Michel Temer.

A regulamentação do setor, entretanto, ocorreu somente em dezembro de 2023. Durante cerca de cinco anos, as plataformas operaram no país sem o conjunto de regras que posteriormente passou a disciplinar a atividade.

A regulamentação estabeleceu normas relacionadas ao funcionamento das empresas, à publicidade e à proteção dos consumidores. Entre as exigências estavam advertências sobre os riscos do jogo e mensagens destinadas a desestimular comportamentos problemáticos.

Em 25 de setembro de 2026, o governo federal mudou novamente o marco legal. A Medida Provisória 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revogou dispositivos da legislação anterior e determinou a proibição das operações das empresas de apostas online no país.

SUS AMPLIOU ATENDIMENTO PARA DEPENDÊNCIA EM APOSTAS

O crescimento dos problemas associados aos jogos também levou à ampliação da resposta do sistema público de saúde.

Em agosto, o Sistema Único de Saúde (SUS) aumentou a capacidade de teleatendimento voltada a pessoas que enfrentam transtornos relacionados às apostas online, com previsão de até 100 mil atendimentos mensais.

Após a decisão de proibir as plataformas, o Ministério da Saúde anunciou que pretende reforçar a busca ativa por apostadores contumazes para oferecer acompanhamento e tratamento quando necessário.

Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a estratégia prevê o uso de informações compartilhadas por diferentes órgãos federais para identificar pessoas que possam necessitar de assistência.

Especialistas destacam ainda a importância da participação de familiares e amigos, especialmente porque nem sempre a pessoa reconhece que perdeu o controle sobre o jogo.

O neurocirurgião Orlando Maia afirma que a dependência pode fazer com que a aposta seja incorporada à rotina e associada constantemente à expectativa de recompensa. “Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar”.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Caps no Distrito Federal, também recomenda a procura por atendimento profissional diante de sinais de sofrimento intenso.

“Eu trabalho em Caps. Chegam para nós pessoas que tiveram pensamentos e fizeram, por exemplo, tentativa de autoextermínio. É um pedido de socorro desesperado, como se falasse que precisa se ausentar da vida naquele momento”.

O conjunto de dados e relatos mostra que a expansão das apostas online produziu efeitos econômicos, sociais e de saúde pública. O prejuízo bilionário das famílias, a presença das bets entre estudantes e os casos de dependência ajudam a dimensionar as consequências deixadas pela popularização desse mercado no Brasil.

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.

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