Quase 20% dos domicílios brasileiros são ocupados por apenas uma pessoa, cenário que vem alterando hábitos de consumo e abrindo espaço para pequenos negócios voltados a quem mora sozinho. Dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE, mostram que os domicílios unipessoais já somam 15,6 milhões e representam 19,7% das residências do país.
A mudança demográfica também aparece no mercado consumidor. Com o Dia do Solteiro celebrado em 15 de agosto, empresas de diferentes setores passam a atender uma demanda crescente por praticidade, personalização e conveniência, especialmente em áreas como alimentação, habitação, decoração e serviços sob demanda.
MORAR SOZINHO MUDA HÁBITOS DE CONSUMO
Para o analista de Competitividade do Sebrae Flávio Petry, o avanço das residências unipessoais cria oportunidades para empreendedores que conseguem adaptar produtos e serviços à rotina desse público.
Entre as tendências estão alimentos comercializados em porções individuais, embalagens menores, eletrodomésticos compactos, móveis multifuncionais e serviços contratados conforme a necessidade.
“Esses consumidores tendem a valorizar embalagens menores, compras mais frequentes, soluções prontas para uso, entregas rápidas e serviços que economizem tempo”, afirma.
O comportamento também está relacionado à frequência de compra. Em vez de grandes volumes para abastecer uma família, consumidores que vivem sozinhos podem priorizar quantidades menores e soluções que reduzam desperdícios e facilitem o cotidiano.
ALIMENTAÇÃO GANHA ESPAÇO ENTRE QUEM MORA SOZINHO
O setor de alimentação é um dos que já incorporam esse perfil de consumo. No Rio de Janeiro, a administradora Dri Fontenele criou o Empório Insulano depois de perder o emprego durante a pandemia.
A empreendedora começou produzindo refeições congeladas para idosos que precisavam permanecer em casa. Com o tempo, o público mudou e passou a ser formado principalmente por mulheres entre 35 e 70 anos que vivem sozinhas.
“As porções individuais são muito bem-aceitas. Os idosos e muitas mulheres costumam consumir quantidades menores, então esse formato atende muito bem esse público”, conta.
O negócio também aposta em receitas com características de comida caseira. “Muitos me falam: ‘sua carne assada lembra a da minha mãe’. Costumo dizer que vender é fácil, difícil é manter o cliente. E nossos clientes voltam”.
Em São Paulo, a Naturale Marmitaria Alimentação Saudável surgiu de uma percepção semelhante. Fernanda Cassullo Amparo fundou a empresa com a mãe, em 2016, após identificar a procura por refeições individuais e saudáveis no hospital onde trabalhava.
“Muitos residentes e estudantes vêm pra São Paulo estudar e acabam morando sozinhos ou em república”.
ESPAÇOS MENORES EXIGEM NOVAS SOLUÇÕES
A tendência também alcança o mercado imobiliário, a arquitetura e a decoração. Segundo Petry, o crescimento das moradias ocupadas por uma única pessoa favorece a procura por imóveis compactos, móveis multifuncionais e alternativas para organizar ambientes menores.
A arquiteta Luiza Sued, fundadora da Sued Arq, observa que esse público busca aproveitar melhor cada área disponível sem abrir mão de conforto e personalidade.
“Percebo hoje em dia um cliente mais informado, que busca ambientes versáteis, organizados e personalizados. Nesse contexto, o meu papel como arquiteta é desenvolver soluções que unam funcionalidade, conforto e identidade, independentemente da metragem do imóvel”.
A necessidade de transformar um mesmo cômodo para diferentes atividades influencia diretamente os projetos. Entre as alternativas estão móveis dobráveis, marcenaria planejada e estruturas que permitem alterar a função dos ambientes.
“Uma escrivaninha pode ser dobrável a partir de um módulo de marcenaria. Assim como servir para uma mesa de refeição. Outro recurso bastante utilizado são os painéis giratórios para TV, que permitem atender dois ambientes com a mesma televisão. Um móvel bem-planejado pode otimizar o armazenamento, melhorar a circulação e tornar o dia a dia muito mais prático”, revela a arquiteta.
NOVOS PERFIS DE CONSUMO DEVEM AMPLIAR A DEMANDA
O aumento das residências unipessoais indica uma transformação que ultrapassa o mercado de alimentação. Para pequenos negócios, compreender como esse consumidor compra, utiliza espaços e administra sua rotina pode definir novas oportunidades de produtos e serviços.
A tendência favorece soluções menores, flexíveis e personalizadas, enquanto setores tradicionais passam a adaptar ofertas para atender consumidores que vivem sozinhos. Com a continuidade dessa mudança no perfil dos domicílios brasileiros, negócios capazes de combinar praticidade e conveniência tendem a encontrar novas demandas no mercado.
Com informações de Portal SEBRAE


