Entre dois turnos, o que está em jogo quando o medo escolhe por nós.
Minha irmã foi enganada.
Desde pequena, em plena ditadura, lhe fizeram acreditar no “fantasma do comunismo” no Brasil.
E, pela vida afora, ela só encontrou pares que confirmassem essa falácia. E, aos que encontrou pelo caminho e que discordavam, ela não deu ouvidos. Precisava reforçar o próprio sistema que a havia convencido de que a protegia. Afinal, cair na real seria doloroso demais.
A mim também enganaram, mas eu tive a graça de dar ouvidos a quem falava diferente. Foi só aos 18 anos, na faculdade de jornalismo. Bendita UFSC!
Querido professor, aquele que me pediu para ler As veias abertas da América Latina, do mestre Eduardo Galeano. (Aliás, sempre muito atual, não é? Porque a coisa não para.) Queridos colegas, que gentilmente discutiam comigo. Querida Denise Paraná, que me abriu sua biblioteca.
Como eu disse, tive a graça de dar ouvidos a eles e descobrir o mundo de verdade.
Há uma diferença enorme entre não saber e não querer saber.
E há uma diferença ainda maior entre não entender e entender, e, mesmo assim, escolher acreditar em outra coisa.
Na semana passada, li na revista piauí um artigo de João Moreira Salles, “O que esses brasileiros sabem — Sobre o que cada um faz diante daquilo que vê”, que fala justamente sobre essa diferença e sobre o que acontece quando estamos diante daquilo que vemos e, em vez de tentar compreender, preferimos acreditar.
A ideia ficou comigo.
Acreditar é tão confortável… A culpa é sempre do outro, pobre é pobre porque não se esforçou. O imigrante veio tirar alguma coisa de alguém. A mulher que reivindica direitos está exagerando. O diferente ameaça aquilo que somos. A violência se resolve com mais violência. Um país se torna forte quando aprende a ter medo.
Quando acreditamos em tudo isso, o mundo fica mais simples.
Sem lidar com contradições, sem conhecer as histórias por trás da história, sem perder tempo fazendo perguntas, não precisamos, sequer, olhar tudo de perto. Basta escolher um culpado.
Mas entender é outra coisa.
Dá trabalho, exige que enxerguemos aquilo que preferimos não ver. A criança com fome, a pessoa desempregada, a mulher violentada, a pessoa com deficiência.
Entender exige perceber que por trás de cada número existe alguém.
GENTE.
Há discursos que esquecem que existe GENTE dentro dos números.
GENTE com medo, com fome, com raiva, com esperança. GENTE que envelhece, adoece, perde o emprego, cria filhos, enterra os pais, atravessa a cidade duas horas por dia para chegar ao trabalho.
E transformam essa GENTE em inimigos.
Transformam o pobre em culpado, o imigrante em invasor, o jovem em suspeito, a mulher em território de disputa, o corpo do outro em assunto público e a violência em solução.
Há quem trate a dureza como virtude.
Como se um país pudesse ser governado na base do medo.
Como se gritar mais alto fosse uma forma de ter razão.
Como se destruir o outro fosse uma demonstração de força.
Como se a política precisasse, antes de tudo, escolher quem merece estar dentro e quem deve ficar do lado de fora.
Irmã, eu gostaria muito que você entendesse o quão perigoso é isso. Eu mesma já tentei lhe dizer tantas vezes… Até que desisti. Mas agora está tudo por um triz de novo… E me peguei chorando por tantas tentativas em vão…
Se você pudesse entender que as palavras não ficam apenas nas palavras.
Elas criam ambiente. Vão acostumando os nossos ouvidos. Diminuem a estranheza diante da crueldade. Até que, um dia, aquilo que parecia absurdo começa a parecer apenas mais uma opinião.
Mas há uma coisa ainda mais perturbadora.
Acreditar é uma das coisas mais perigosas que podemos fazer quando já tivemos a oportunidade de entender.
Porque há quem não saiba.
Há quem não tenha acesso à informação.
E há você. Você, que é tão boa, tão cristã, que tem um coração de ouro, que é inteligente e que teria plena condição de enxergar para além dos muros que levantaram ao seu redor. Você, que poderia conhecer os fatos, compreender, fazer perguntas, ouvir quem pensa diferente. E, ainda assim, escolhe acreditar naquilo que confirma seus medos, seus preconceitos, seus interesses ou suas conveniências.
Isso muda tudo.
Porque, a partir daí, já não estamos falando apenas de ignorância.
Estamos falando de escolha.
Então, pare.
Respire.
Puxe a sua consciência de volta.
Porque, se você fizer isso, ainda pode perceber que existe outro mundo.
Um mundo em que você não precisa acreditar na moça do chicote.
Não precisa acreditar na outra moça, recém-chegada à idade adulta, mas que grita aos quatro ventos — como se experiência de vida pudesse ser medida pelo volume da voz — contra o feminismo. Que contradição: se ela defende que a mulher deve ser submissa e subserviente, o que exatamente ela está fazendo na política?
Não precisa acreditar nesses dois indivíduos com o olhar adoecido de tanta ganância, que não sabem absolutamente nada sobre a terra adormecida que os elegeu.
Não precisa acreditar nesses cães furiosos que transformam disputa em massacre. Eles só latem, mas conseguem te fazer acreditar que morderiam por ti e tua família.
Não precisa acreditar em quem entende tão pouco de GENTE e, ainda assim, quer falar em nome dela.
É muita mentira e muita maldade que a sua escolha de simplesmente acreditar, em vez de tentar compreender, ajuda a criar.
Você pode parar de acreditar em quem nunca trabalhou e tudo que pensa é em criar mais medo e confusão para poder dominar você e conseguir poder, dinheiro, vida mansa e farra. Por que você acredita em quem não faz a mínima ideia do que significa governar de verdade e do que seja conduzir um país desse tamanho, lidar com suas contradições, suas desigualdades, sua história, sua gente?
Imagino como deve ser triste e desprovida de sentido humano, de verdade, a vida de quem acredita em tudo isso.
Você não percebe? Por que você não entende que um mundo pleno é onde uma criança pode tranquilamente aprender a ler?
Onde uma mulher possa envelhecer com dignidade, um homem possa cuidar dos filhos sem precisar provar que é forte o tempo inteiro. Onde uma pessoa com deficiência tenha uma cidade onde possa circular. Onde as escolas públicas sejam de qualidade, onde os postos de saúde funcionem, onde a comida possa chegar à mesa de quem não tinha o que comer. Onde exista ciência procurando respostas para aquilo que ainda não sabemos. Cultura inventando novas perguntas. Floresta em pé, rio limpo, vacina, biblioteca, universidade e alguém dizendo livremente como acha melhor viver sem que desapareçam com ele.
Que falsas ideias sobre GENTE você está, irresponsavelmente, ajudando a alimentar? Que tristeza isso de você nunca ter entendido.
Irmã, a política precisa voltar a encontrar o humano e não o contrário.
A política pode ser feita de planilhas, ministérios, impostos, juros, obras, leis e orçamento.
Mas ela também é feita de uma pergunta muito mais antiga:
Como queremos viver juntos?
Você sempre respondeu a essa pergunta erguendo seus muros. E você tem a falsa ideia que está protegida dentro deles. Não está. Junto com você, aí dentro, estão alguns daqueles que você imagina que estão ali para lhe proteger. Mas são justamente os que podem lhe dar uma rasteira no primeiro sinal de que a “sorte grande” deles esteja ameaçada.
Aqui fora, há um espaço sempre em ampliação. Porque, quando votamos, estamos escolhendo mesas maiores, onde possa caber cada vez mais GENTE ao redor delas.
E você insiste nesse lugar apertado, encastelado.
Aqui fora sabemos que o mundo é muito maior sem muros. E, sim, sabemos que ele é brutal, às vezes, mas que pode melhorar especialmente se pessoas como você pararem de ser tão irresponsáveis com a vida coletiva.
Aqui fora concordamos com o Nando Reis que cantou para seu filho:
O mundo é bão, Sebastião.
Venha ver! Nos dê o alento de continuar acreditando na humanidade.
E nos mostre, de alguma maneira, que você, que prega tanto o amor de Jesus, entendeu de verdade o que ele dizia e não apenas acredita nas partes que lhe beneficiam.