Pequenos negócios atingidos por enchentes e outros desastres climáticos têm encontrado no crédito com garantia uma alternativa para reconstruir operações e recuperar o faturamento. Por meio do Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), o Sebrae já garantiu mais de R$ 124,5 milhões em empréstimos destinados a empreendedores afetados por eventos extremos.
A iniciativa ganha relevância diante da intensificação dos fenômenos climáticos no país. As projeções dos centros de monitoramento indicam possibilidade de períodos de chuva mais intensa no Sul, enquanto outras regiões podem enfrentar condições de seca. Episódios recentes, como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e as ocorridas em Minas Gerais no início de 2026, mostram o impacto direto desses eventos sobre a atividade econômica.
DESASTRES CLIMÁTICOS AMEAÇAM A CONTINUIDADE DOS NEGÓCIOS
Quando uma enchente atinge uma empresa, os prejuízos podem ir muito além da perda de mercadorias. Máquinas, móveis, equipamentos, instalações e estoques podem ser destruídos, enquanto a interrupção das atividades reduz ou elimina temporariamente a receita.
Nesse cenário, a necessidade de dinheiro para recomeçar costuma surgir justamente quando o empreendedor tem mais dificuldade para conseguir financiamento. Com os bens danificados ou perdidos, oferecer garantias exigidas pelos bancos se torna um obstáculo adicional.
“Os desastres naturais costumam comprometer estoques, equipamentos, instalações, capital de giro e até a capacidade de funcionamento das empresas. Em muitos casos, o empreendedor precisa de recursos rapidamente para retomar suas atividades, mas encontra dificuldade para apresentar as garantias exigidas pelo sistema financeiro, já que muitas vezes suas instalações, estoques e equipamentos foram danificados ou perdidos”, explica o presidente do Sebrae, Rodrigo Soares.
FAMPE FACILITA ACESSO AO CRÉDITO APÓS CALAMIDADES
É nesse ponto que entra o Fampe. O mecanismo funciona como uma garantia complementar para operações de crédito, reduzindo a dificuldade enfrentada por pequenos empresários que precisam de recursos para reconstruir suas atividades.
De acordo com o Sebrae, a instituição pode garantir 100% dos empréstimos enquadrados nas condições especiais destinadas a empreendimentos afetados por desastres naturais. A medida busca acelerar a retomada econômica e evitar que empresas que já enfrentaram perdas severas sejam obrigadas a encerrar as atividades.
O presidente do Sebrae destaca que o objetivo não é apenas financeiro, mas também social, já que a sobrevivência dos pequenos negócios está diretamente relacionada à manutenção dos empregos e da renda nas cidades afetadas.
“Do ponto de vista institucional, o Sebrae deseja gerar um impacto de estabilização social e econômica, evitando a falência em massa de pequenos negócios, mantendo os empregos locais ativos e assegurando a manutenção da renda nas comunidades fragilizadas pelo evento climático”, ressalta.
EMPRESÁRIA USOU CRÉDITO PARA REORGANIZAR NEGÓCIO
Um exemplo desse tipo de apoio é o da empresária Juliana da Costa, proprietária da Charme Lingerie e Moda Praia, em Campo Bom, no Rio Grande do Sul.
Após as enchentes de 2024, o faturamento da empresa foi afetado e a empreendedora precisou buscar alternativas para manter o negócio em funcionamento. Com o aval do Sebrae, ela conseguiu R$ 50 mil em crédito.
Parte do dinheiro foi utilizada para realizar compras à vista junto aos fornecedores, enquanto outra parcela foi direcionada ao marketing e ao fortalecimento do comércio eletrônico.
“O empréstimo veio no momento mais crítico que já passei à frente da Charme, que, em 2024, já tinha 18 anos de história. A garantia do Sebrae me ajudou diante da burocracia. Com o aval, o acesso ao crédito para eu manter meus compromissos em dia foi de imediato. Além disso, tive 12 meses para me reorganizar e começar a pagar”, recorda a empresária.
A experiência mostra como a garantia pode fazer diferença em uma fase na qual o empreendedor precisa, ao mesmo tempo, reconstruir a estrutura da empresa e preservar o relacionamento com fornecedores e clientes.
NOVAS REGRAS AMPLIARAM O USO DO FUNDO
O suporte aos negócios afetados por eventos extremos ganhou uma previsão específica com a Resolução CDN nº 579/2025. A norma ampliou o conceito de “situação excepcional” previsto no regulamento do Fampe.
Com a mudança, situações de calamidade pública e de emergência oficialmente reconhecidas passaram a estar expressamente contempladas. Dessa forma, instituições financeiras parceiras podem utilizar o fundo em operações voltadas à recuperação econômica de pequenos negócios atingidos por desastres naturais.
A medida estabelece um caminho específico para que o mecanismo seja acionado em regiões afetadas.
COMO FUNCIONA O ACESSO AO CRÉDITO
O processo começa somente depois do reconhecimento oficial da situação de emergência ou calamidade pública. A partir daí, são seguidas algumas etapas.
1. Reconhecimento oficial
O município ou o estado precisa decretar oficialmente a situação de emergência ou calamidade pública decorrente do desastre.
2. Pedido do Sebrae estadual
Depois do decreto, o Sebrae da região afetada encaminha uma solicitação ao Sebrae Nacional. A Diretoria Executiva (DIREX) analisa o pedido e pode aprovar condições especiais e parâmetros diferenciados para os empreendimentos daquela área.
3. Busca por instituição financeira
Com a medida aprovada, o empreendedor deve procurar uma instituição financeira parceira do Sebrae que opere com o Fampe. Entre os Agentes Operadores estão bancos públicos, cooperativas de crédito e agências de fomento.
A partir dessa estrutura, o fundo pode atuar como garantia da operação, facilitando a contratação do financiamento necessário para a recuperação da empresa.
CRÉDITO PODE ACELERAR A RETOMADA ECONÔMICA
Para pequenos negócios atingidos por enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos, a rapidez na reconstrução pode ser determinante para a sobrevivência da empresa. A interrupção prolongada das atividades pode comprometer o caixa, os empregos e a capacidade de honrar compromissos.
Nesse contexto, o crédito com garantia busca reduzir uma das principais barreiras enfrentadas pelos empreendedores após uma tragédia: a dificuldade de apresentar garantias para conseguir financiamento.
A estratégia também tem impacto sobre as próprias comunidades. Ao ajudar empresas a retomarem suas atividades, o mecanismo contribui para preservar postos de trabalho, circulação de renda e serviços locais justamente em regiões que enfrentam os efeitos econômicos de uma emergência climática.
Com informações de Portal SEBRAE