sexta-feira, 18 setembro , 2026

Morro e não vejo tudo.

por Ana Lucia Fernandez
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Sabe aquela famosa frase: “Morro e não vejo tudo!” ?

Ela normalmente é usada para nos referirmos a algo negativo. Alguma coisa que a gente não acredita que está acontecendo, alguma coisa que alguém fez que consideramos, no mínimo, esquisita.

Mas, num dia desses, ensolarado e com uma brisa leve, na hora do almoço, enquanto caminhava entre meu trabalho e um restaurante, percebi que vinham ao meu encontro, flutuando no ar, umas estruturas semelhantes a aranhas pequeninas.

Um corpo marrom e pelinhos que pareciam pernas de aranha, branquinhos.

Eram sementes de alguma árvore. Uma lindeza. Elas brilhavam ao sol. Eram muitas e pareciam uma chuva de beleza. 

Foi então que me pus a pensar na frase lá de cima. Realmente, o mundo é tão amplo e tem tanta coisa que não vemos, que poderíamos perfeitamente usar a mesma frase como uma constatação, e não como uma reclamação:

Morreremos e não veremos tudo.

Não veremos todas as paisagens, não conheceremos todas as pessoas, não saberemos de todas as histórias. E há uma quantidade imensa de pequenas coisas acontecendo diante de nós que sequer chegam a entrar no nosso campo de percepção.

Naquele dia, as sementes estavam ali. Eu as vi. Outras pessoas, não.

Gente indo e vindo, provavelmente pensando no que ainda precisava ser feito, no horário, na fome, no trabalho que esperava, nas mensagens que ainda precisavam ser respondidas.

As sementes continuavam flutuando.

E foi aí que pensei que beleza não é necessariamente aquilo que é bonito. É aquilo que conseguimos perceber. 

Porque o mundo não começa a ser interessante quando prestamos atenção nele. Ele já estava acontecendo. A nossa atenção é que abre ou fecha a passagem.

Há uma quantidade enorme de coisas acontecendo diante dos nossos olhos que não chegam a existir para nós. Elas estão ali, mas estamos ocupados demais com aquilo que já preenche a nossa cabeça. 

Naquele dia, havia uma pequena chuva de sementes no caminho entre o trabalho e o almoço. Para mim, aquilo interrompeu por alguns minutos a pressa do meio-dia. Para quem passou ao lado, talvez tenha sido apenas mais um trecho da rua.

Não há certo ou errado nisso. Ninguém pode andar pelo mundo com os olhos permanentemente abertos para tudo. A atenção também se cansa. A vida exige que a gente resolva coisas, chegue a lugares, cumpra horários, pense no que vem depois.

Mas, no meio de tudo isso, de vez em quando alguma coisa consegue nos alcançar.

Uma semente voando.

O desenho que a luz faz no chão. 

O barulho distante de uma conversa.

Uma árvore que sempre esteve ali e que, por alguma razão, só naquele dia apareceu.

É uma coisa pequena. Não muda a vida. Não precisa ensinar nada.

Apenas acontece.

E isso me interessa tanto: a vida não precisa se tornar extraordinária para ser percebida. Há acontecimentos minúsculos o tempo inteiro, passando por nós sem fazer barulho. 

Foi assim que aquela velha frase mudou um pouco de lugar dentro de mim.

“Morro e não vejo tudo!”

Durante muito tempo, ela me pareceu uma reclamação diante dos absurdos do mundo.

Naquele dia, caminhando entre o trabalho e o restaurante, pensei que ela também poderia ser uma boa constatação.

Morro e não vejo tudo.

Não vejo todas as paisagens, não conheço todas as histórias, não encontro todas as pessoas, não descubro todas as coisas que existem.

E está tudo bem.

O mundo é sempre maior do que o meu olhar.

O que eu ainda não vi continua por aí. 

Ainda bem.

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Nota de rodapé para quem, como eu, também gosta de saber das coisas: as “aranhinhas” eram sementes de serralha (Sonchus oleraceus), que usa o vento para se espalhar por aí. Um processo chamado cientificamente de anemocoria. A ciência explica. O encantamento fica. 

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