Política Cultural é a Nova Maconha

Semelhanças da articulação por políticas públicas entre as duas pautas são impressionantes

Foi há pouco tempo que me dei conta de que o debate sobre políticas culturais e a discussão sobre Cannabis medicinal no Brasil são debates idênticos.

Ao preparar um documentário sobre o tema, percebi que a grande dificuldade da coisa pública no país está em transformar necessidade social em lei.

A política pública de cultura trata do acesso a bens e serviços que o Estado tem o dever de garantir ao cidadão, além de mecanismos de fomento à produção e à distribuição de produtos da chamada Economia Criativa.

Já o debate sobre Cannabis medicinal atravessa o campo da saúde pública e envolve o acesso a medicamentos de eficácia comprovada, além do incentivo à produção própria e à distribuição pelo Sistema Único de Saúde.

Hoje vejo poucas pautas mais patriotas no Brasil do que Cultura e Cannabis. Juntas, em suas identidades distintas, revelam com clareza como funciona o sistema político brasileiro.

Vale argumentar um pouco, porque isso é necessário.

Ambas as pautas nasceram cercadas por estigmas: a cultura historicamente tratada como um “luxo de artistas”, distante das urgências concretas da população; a maconha imediatamente associada ao vício e à criminalidade da periferia.

Nas últimas décadas essas agendas passaram a ocupar um novo lugar no debate nacional. Hoje, cultura e Cannabis surgem como campos que exigem regulamentação madura, investimento público consistente e marcos legais estáveis. Deixaram de ser pautas de nicho para se firmarem como políticas de Estado, capazes de atravessar governos e estruturar projetos duradouros de país.

A Economia Criativa é comprovada que é um dos únicos investimentos públicos que dá retorno econômico em geração de emprego e renda. A Cannabis tem evidências científicas da eficácia clínica e do retorno ao investir na agroecologia e escala industrial.

Mas quem pode ser contra evidências?

O paralelo mais nítido aparece na origem militante que compartilham. A política cultural brasileira se consolidou graças à mobilização de milhares de cidadãos que dedicaram tempo e trabalho não remunerado à construção institucional do setor. Conselhos de cultura, conferências setoriais, fundos de fomento e o próprio Sistema Nacional de Cultura nasceram desse esforço coletivo. Essa participação civil, frequentemente invisibilizada, foi movida pela convicção de que a cultura produz coesão social, identidade e desenvolvimento econômico real.

Se existe uma discussão sobre regulamentação de streaming, é porque artistas e produtores se juntaram pra propor leis.

A trajetória da Cannabis medicinal apresenta uma dinâmica idêntica. Marchas da Maconha ocuparam as ruas, cultivadores enfrentaram o risco real de prisão, e familiares de pacientes abriram debates públicos antes impensáveis.

Ativistas e pesquisadores assumiram a linha de frente de uma trincheira que hoje mobiliza médicos, universidades, empresas e instituições públicas. Como costuma acontecer em processos políticos de ruptura, os pioneiros que apanharam nos momentos mais difíceis tendem a ser apagados da memória coletiva quando a pauta se torna dominante e passa a atrair interesses econômicos milionários.

Se hoje existe congresso médico de Cannabis, é porque a Maconha foi posta em marcha nas ruas.

O avanço regulatório dessas duas agendas, porém, permanece refém da dinâmica do poder institucional. A sociedade civil orbita os governos praticamente mendigando por marcos legais estáveis. O ritmo dessas transformações acompanha a instabilidade da conjuntura eleitoral, reduzindo temas estruturais a disputas de curto prazo e achismo de políticos. Nesse cenário, tanto a Cultura quanto a Cannabis esbarram na mesma camada de moralismo que asfixia o debate aberto. Audiências e marchas se multiplicam, mas o preconceito social continua atuando como o filtro que limita o desenvolvimento do setor.

O Preconceito é Cortina de Fumaça

Todo mundo conhece alguém que usa maconha. Mas ninguém conhece. O consumo da planta integra a vida social brasileira de maneira orgânica e cotidiana, embora raramente admitida às claras. A sociedade convive com essa realidade sob um pacto de silêncio coletivo, alimentado por camadas históricas de classismo. Ações institucionais ocorrem regularmente, mas o falso moralismo dificulta uma conversa franca, baseada em ciência e sociologia.

Em Florianópolis, por exemplo, a presença da planta atravessa os mais diversos espaços de sociabilidade. Praias, bares e calçadas revelam uma convivência informal e pacífica. Trata-se de uma presença palpável no tecido urbano que, ironicamente, permanece marginalizada no debate público mais amplo. Dizem até que Canasvieiras vem do nome de Cânhamo já que nas primeiras navegações foi cultivada a planta no bairro para manutenção das velas das caravelas.

O mesmo fenômeno atinge a Cultura: as discussões governamentais costumam se limitar a Conferências que fogem da realidade, enquanto o impacto estrutural da produção cultural na economia e na vida social raramente ocupa o protagonismo que merece.

Mobilizações sociais já garantiram conquistas concretas para o setor cultural. No entanto, a ausência de uma autonomia econômica consistente impede que a área se consolide plenamente como vetor de geração de renda e trabalho. Esse impasse econômico é o reflexo exato do bloqueio simbólico que ainda trava a regulamentação ampla da cannabis.

Na Fundação Franklin Cascaes de Cultura de Florianópolis, os editais de incentivo ao setor, por exemplo, tem formato de séculos passados. É uma vergonha a falta de comprometimento da Prefeitura em incentivar a Economia Criativa, tema que tanto se vangloria, não por processo de falta de compreensão, mas por alvo mesmo político, uma forma de elitizar o acesso às verbas.

Economia Compartilhada: O Bloqueio do Potencial

Dados da Fundação Getúlio Vargas provam que cada real investido por meio da Lei Rouanet retorna, em média, R$ 7,59 à economia brasileira — um impacto traduzido em arrecadação tributária e na geração de mais de 200 mil empregos diretos e indiretos. Simultaneamente, outros setores tradicionais da economia recebem incentivos fiscais que ultrapassam a casa dos R$ 900 bilhões anuais, entregando retornos sociais e econômicos proporcionalmente muito menores.

O campo da Cannabis carrega um potencial de transformação idêntico, sobretudo através do cânhamo industrial. Pesquisas globais atestam sua alta produtividade, capacidade de gerar milhares de empregos e de regenerar áreas agrícolas degradadas. O cânhamo é a base para materiais do futuro: bioplásticos, tecidos sustentáveis e o hempcrete para a construção civil.

Cultura e Cannabis operam, portanto, em frentes vitais de inovação. A produção criativa revitaliza territórios; o cânhamo inaugura uma nova bioeconomia. Ainda assim, o debate público rebaixa essas potências a narrativas rasas. A cultura é tachada de “mamata”; a maconha, de “vício”. Casos isolados viram combustível para proibições, enquanto os bilhões em potencial econômico são ignorados.

Racismo Linguístico e o Sequestro Econômico

A proibição da maconha no Brasil tem cor. A planta chegou ao país no século XVI, trazida por africanos escravizados, e em 1830 o Rio de Janeiro criou a primeira lei da República para punir especificamente escravizados flagrados fumando. Esse processo histórico colou a planta à população negra e periférica.

Hoje, a própria linguagem escancara esse mecanismo de controle através do racismo linguístico. Quando o debate desce para a periferia e envolve o código penal, o termo é Maconha.

Quando o debate sobe para os congressos médicos e chega em frascos de óleo para a classe média, vira Cannabis medicinal. A semântica não muda a planta, mas define quem tem direito à saúde e quem tem direito ao camburão.

É aqui que a linguagem encontra a economia. Corporações farmacêuticas internacionais tentam monopolizar esse mercado emergente via patentes altíssimas. Na contramão, a sociedade civil defende o cultivo associativo, a produção nacional e a distribuição via Sistema Único de Saúde (SUS). A cultura enfrenta o mesmo predador: a luta é para estruturar modelos sustentáveis e autônomos que não dependam exclusivamente das migalhas do mercado corporativo.

O SUS Como Bússola

A experiência do SUS prova que políticas públicas universais podem, de fato, reorganizar a vida brasileira. Como um dos maiores sistemas de saúde do mundo, ele é a prova de que o acesso democrático funciona.

Esse modelo deve ser a referência inegociável para essas duas agendas. Políticas culturais robustas e a distribuição de cannabis medicinal precisam seguir essa mesma lógica de bem comum: acesso amplo, fomento à base e impacto coletivo duradouro.

A vida urbana esfrega a urgência dessas pautas na nossa cara todos os dias. A cultura transforma as margens em centros de economia vibrante; a planta circula e atua na saúde pública. O país convive intimamente com essas realidades, mas insiste em um silêncio político covarde. A pergunta que se impõe, diante de duas potências capazes de gerar inovação, renda e expansão de direitos, é simples: a quem, afinal, interessa manter a proibição e a dificuldade de acesso?

A quem interessa manter a normatização da periferia como ponto de venda de Maconha e os eventos de classe alta em hotéis de luxo o debate científico sobre Cannabis? Quem é contra evidências?

Jean-Luc Godard, em Je Vous Salue Sarajevo (1993), disse: “A cultura é a regra, a arte é a exceção. A regra quer a morte da exceção.”

Política cultural mantém status quo regulado; Cannabis/Artes de ruptura desafiam preconceitos, mas orbitam o Estado pela mesma excentricidade negacionista.

(Ilustração de Pedro MC sobre arte de Banksy).

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