Esta Ilha está em mim de várias maneiras. Uma delas toca todos os dias às 18h. Criada entre o Centro de tantas igrejas e a Lagoa da Conceição com aquela erguida de frente para a paisagem mais bela do mundo, desde criança sou fascinada por sinos.
Andei um pouco afastada quando morei na Agronômica e em Coqueiros, mas agora voltei pra perto deles. Trabalho bem do ladinho da Catedral.
Apesar de desde muito cedo acreditar que a existência humana vai além da dimensão puramente material e racional da vida, não sigo religião nenhuma. Mas sei que os sinos não servem apenas para marcar o horário da missa. Representam um chamado à consciência, à oração e à presença do sagrado na vida cotidiana. Como se algo se ligasse dentro de mim e dissesse: “Ana Lucia, te aquieta e sente teu coração.”
Pois bem, vivemos imersos em um contexto em que não basta trabalhar, criar filhos, manter relações, sobreviver ao excesso de informação e tentar sustentar alguma saúde mental. Há uma ideia bem estruturada do que é ser profissional que nos diz o tempo todo “Produza, responda, desempenhe, apareça, dê conta, não surte, aproveite o tempo, se reinvente, não reclame, faça acontecer, otimize, seja sua melhor versão, sorria, mantenha a postura, fique online, não pare, engula e siga, estude para ser mais eficiente, não envelheça, não falhe!”
E em meio a isso tudo, ainda tentamos parecer bem. Nossa página no Instagram exibindo produtividade, equilíbrio, alimentação correta, autocuidado e emoções aparentemente controladas. Até o bem-estar virou performance.
Há um conceito descrito pelo filósofo contemporâneo Byung-Chul Han em sua obra Sociedade do Cansaço que, sendo irônico (Se há risos aqui, imagino que sejam de nervoso), descreve este comportamento como o de “zumbis saudáveis e fitness”. Sim, porque para sermos bem sucedidos o pacote completo inclui ainda uma matrícula na academia, naquele plano em que podemos ir todos os dias, sete vezes por semana.
Pessoas biologicamente vivas, muito afastadas de si mesmas. O corpo segue funcionando, cumprindo horários, metas e obrigações e até achando que só o exercício físico vai lhe salvar. Respira, faz sua função biológica para que sobreviva, mas a vida que há nele faz tempo deixou de ser a vida que deveria haver.
Aaah… nestes tempos muita gente se esqueceu dos sinos. Num planeta que gira sem o nosso controle a 1.670 km/h, apesar de acharmos que estamos em “terra firme”, esquecemos que é preciso achar um jeito de chamar de volta a parte de nós que o excesso de demandas deixou para trás.
Um luxo raro no nosso tempo é encontrar um lugar em nós onde não é preciso produtividade ou pressa, onde tudo o que parece urgente perde a força e conseguimos simplesmente respirar. Deixe o sino, ou algo que lhe desperta, lembrar que para continuar vivo também é preciso pausa, silêncio, mistério e interioridade.
Da minha parte, às 18h não atendo ninguém. Ouço os sinos e paro para me atender.
Há dias em que eles me encontram cansada. Outros em paz. Outros perdida em pensamentos e tarefas. Não importa. Quando aquele som atravessa o Centro da cidade, lembro que ainda existe um lugar dentro de mim que não pode viver apenas para funcionar automaticamente.
Nota de rodapé:
Esse mundo que adoeceu precisa escutar os trabalhadores. Pelo fim da escala 6×1!

No creo en brujas, pero que las hay, las hay
Quem paga a conta quando atacam o Brasil? – Artigo por Décio Lima
Nenhum poder ignora uma imagem
Pequenas frestas por onde brilha o humano