Dois irmãos iranianos exilados estrearam dias atrás no Tribeca Festival, em Nova York, um longa-metragem construído com inteligência artificial. A notícia atravessou o circuito internacional cercada pelas polêmicas habituais sobre algoritmos, automação e futuro do trabalho.
O aspecto mais interessante do filme está menos na tecnologia utilizada para produzi-lo do que nas condições que tornaram sua existência possível. Dreams of Violets existe porque certas imagens encontraram condições quase impossíveis de produção. A tecnologia entra no processo menos como fetiche futurista e mais como resposta a um problema concreto de realização.
A trajetória do cinema costuma ser contada através de grandes diretores, movimentos estéticos e transformações tecnológicas. Há, em paralelo, uma história subterrânea: a busca permanente por imagens que ainda não existem. Algumas pertencem ao passado e dependem de reconstrução histórica. Algumas pertencem a territórios inacessíveis. Algumas dependem de recursos financeiros inalcançáveis para a maioria dos realizadores. Algumas encontram obstáculos políticos. O desenvolvimento técnico do cinema sempre caminhou ao lado dessa tentativa de ampliar o campo do visível.
É justamente nesse terreno que a inteligência artificial começa a alterar as regras do jogo. Uma sequência que exigia equipes numerosas passa a caber em estruturas menores. Uma reconstrução visual antes reservada a grandes orçamentos torna-se acessível a realizadores independentes. Recursos historicamente concentrados começam a circular por outros caminhos. Cada mudança desse tipo altera o mapa da produção audiovisual e desloca as fronteiras do que pode ou não pode ser filmado.
O interesse despertado por Dreams of Violets nasce justamente dessa tensão. O filme chega ao circuito internacional no momento em que sindicatos discutem proteção ao trabalho criativo e executivos celebram novas formas de automação. A obra dos irmãos Ash e Pooya Koosha desloca a conversa para outro terreno. A produção demonstra que determinadas ferramentas também podem ampliar o repertório visual disponível para realizadores situados fora dos grandes centros de financiamento, fora dos grandes estúdios e fora das estruturas tradicionais de produção.
Durante os debates recentes em Cannes, o diretor Darren Aronofsky chamou atenção para essa dimensão da inteligência artificial em filmes históricos. Sua defesa do uso da tecnologia toca um aspecto central da linguagem cinematográfica.
O cinema sempre fabricou imagens para acontecimentos ausentes. Guerras, impérios, revoluções, cidades desaparecidas e personagens históricos chegaram às telas por meio de sucessivas gerações de tecnologias de reconstrução. A inteligência artificial passa a integrar esse processo secular de fabricação do visível.
Essa observação ganha relevância porque o acesso às imagens nunca dependeu apenas de talento artístico. Cada período histórico foi definido também pelos custos de produção dessas imagens. Determinadas reconstruções exigiam orçamentos milionários. Determinadas sequências dependiam de estruturas industriais inacessíveis à maior parte dos realizadores. Determinadas histórias simplesmente deixavam de existir porque seus meios de representação custavam caro demais.
A discussão sobre inteligência artificial costuma permanecer concentrada nos efeitos que ela produz sobre o trabalho. O tema merece atenção permanente. Roteiristas, atores, ilustradores, montadores e técnicos possuem razões concretas para acompanhar esse processo com preocupação. O caso de Dreams of Violets acrescenta outra camada à conversa.
A redução do custo de determinadas operações visuais altera quem pode produzir imagens, quais histórias conseguem chegar à tela e quais narrativas passam a disputar espaço no campo cultural. Em outras palavras, não se trata apenas de proteger empregos, mas de decidir se os novos instrumentos vão reforçar a concentração de poder dos mesmos grupos ou abrir brechas reais para cinematografias periféricas — incluindo a brasileira.
Nesse ponto, a conversa deixa de tratar apenas de tecnologia. A conversa passa a tratar de circulação.
Produzir uma imagem representa apenas uma etapa da disputa. Fazer essa imagem circular representa outra etapa. Exibir um filme, organizar um debate, ocupar uma sala de cinema, conquistar espaço em um equipamento público de cultura ou alcançar uma audiência relevante envolve processos igualmente decisivos para a formação das narrativas que circulam na sociedade.
A discussão ganha uma ressonância particular em Santa Catarina. Enquanto festivais internacionais dedicam painéis inteiros às novas tecnologias de produção audiovisual, uma controvérsia local se desenvolve em torno da realização de um evento voltado ao debate sobre cannabis medicinal no Centro Integrado de Cultura.
A decisão da Fundação Catarinense de Cultura de impedir a realização do encontro (e está ativamente tentando sabotar a realização por meio do lawfare) desloca a atenção para uma questão muito anterior ao surgimento de qualquer algoritmo. Toda política cultural produz efeitos sobre circulação, visibilidade e acesso.

A polêmica envolve cannabis medicinal e saúde pública. Milhares de pacientes já convivem com esse debate em hospitais, associações, decisões judiciais e pesquisas científicas. A tentativa de impedir sua presença em um equipamento público de cultura desloca a questão para outro terreno: quem possui autoridade para definir quais assuntos podem alcançar visibilidade institucional.
A coincidência possui uma ironia difícil de ignorar. Um dos debates internacionais mais relevantes sobre inteligência artificial gira em torno da ampliação das possibilidades de produção de imagens. Em Florianópolis, a controvérsia se desenvolve em torno da presença pública de um tema específico dentro de um equipamento cultural mantido pelo Estado. As situações pertencem a contextos diferentes. O mecanismo cultural que atravessa ambas aponta para o mesmo território: a disputa pelas narrativas que alcançam visibilidade.
O cinema participa dessa disputa desde sua origem. Documentários organizam interpretações do presente. Filmes históricos organizam interpretações do passado. Obras de ficção organizam interpretações do imaginário coletivo. Narrativas audiovisuais moldam percepções, consolidam memórias e estruturam repertórios políticos. Nenhuma força política ignora esse potencial.
É exatamente por isso que o bolsonarismo procura transformar Dark Horse em um filme de propaganda. Assim como já fez com lives, motociatas e peças publicitárias travestidas de documentário, tenta converter o longa em mais um instrumento de pedagogia política para sua base. O filme passa a integrar uma estratégia mais ampla de produção simbólica que envolve comunicação, mobilização e construção de identidade coletiva. A própria tentativa de apropriação da obra revela o reconhecimento de que imagens organizam memórias, consolidam narrativas e ajudam a estruturar repertórios políticos.
A estreia do documentário “Colisão dos Destinos” em Florianópolis, no Paradigma Cine Arte, semanas atrás (antes de vazar os áudios de Flávio Bolsonaro com Vorcaro sobre o filme Dark Horse), insere a obra nesse campo de disputa. A circulação amplia leituras, produz reações contraditórias e desloca o filme para além da tela. O que está em jogo deixa de ser apenas a obra e passa a incluir os sentidos políticos produzidos ao redor dela. Cada exibição amplia o alcance dessa disputa porque amplia o alcance das imagens.
O percurso iniciado em Tribeca retorna então a uma questão bastante antiga. A história do cinema também é a história das condições materiais que permitem a existência das imagens. Algumas tecnologias ampliam essas condições. Algumas instituições restringem essas condições. Alguns grupos econômicos procuram concentrá-las. Alguns artistas procuram democratizá-las.
O debate está apenas começando. A inteligência artificial atravessará os próximos ciclos eleitorais, atravessará as disputas sobre fake news, atravessará a produção audiovisual, atravessará o jornalismo e atravessará a cultura. Novas ferramentas surgirão. Novas regulamentações serão propostas. Novas controvérsias ocuparão as manchetes. A pergunta continuará a mesma: quem possui condições de produzir as imagens que organizam a percepção pública da realidade?
Talvez seja justamente por isso que a circulação das imagens continue despertando tanta inquietação. Toda narrativa produz consequências. Toda imagem produz memória. Toda memória produz disputa. A história do cinema, da fotografia e do documentário registra o mesmo movimento repetidas vezes. Quando uma imagem ameaça uma versão confortável da realidade, surge alguém disposto a controlar sua circulação.
Quando uma narrativa amplia o campo do debate público, surge alguém interessado em reduzir seu alcance. Quando artistas encontram novos meios de produção, surgem forças interessadas em definir quais histórias merecem existir.
Os irmãos iranianos de Dreams of Violets, a controvérsia do CIC, a batalha política em torno de Dark Horse e a chegada da inteligência artificial ao audiovisual pertencem a contextos diferentes. O fio que conecta todos esses episódios é o mesmo. A disputa nunca acontece apenas sobre tecnologia. A disputa nunca acontece apenas sobre cinema. A disputa acontece sobre quem pode produzir imagens e quem pode fazê-las circular.
Todo projeto autoritário compreende essa verdade elementar. O controle das imagens antecede o controle da memória. O controle da memória antecede o controle das narrativas. O controle das narrativas antecede o controle da própria imaginação política de uma sociedade. É por isso que as imagens continuam importando. É por isso que elas continuam sendo disputadas. É por isso que continuam tentando calar quem as produz. E é por isso que toda imagem que consegue circular apesar desses obstáculos carrega consigo uma dimensão política que nenhuma tecnologia será capaz de apagar.
Imagem de divulgação do filme Dreams of Violets, gerada por IA.
Links úteis:
Matéria em português (B9) enfatizando o orçamento baixo, o uso de IA e o caráter polêmico da seleção
Matéria com foco nas ferramentas usadas (Kling, Claude, Google Nano Banana/Gemini, Fountain 0 etc.)

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