Quatro festivais revelam como a IA chegou às inscrições e colocou em debate os limites entre ferramenta, criação e autoria.
Nos últimos três anos, poucas tecnologias ocuparam tanto espaço no imaginário audiovisual quanto a inteligência artificial. Vídeos hiper-realistas, trailers inexistentes, filmes gerados a partir de comandos de texto e promessas de substituir equipes inteiras passaram a circular diariamente pelas plataformas digitais. A velocidade dessa transformação produziu a sensação de que o cinema de animação já teria sido profundamente alterado.
Os festivais de cinema de animação oferecem outro ponto de observação. É nesse espaço que milhares de filmes chegam todos os anos para serem assistidos, curados, selecionados e discutidos por profissionais que tem essa linguagem como modo de vida.
Conversei com curadores e diretores de diferentes frentes do circuito brasileiro de animação. Aqui em Santa Catarina, temos um campo de produção e janelas de exibição de destaque nacional. Muitas produtoras de audiovisual de animação com coprodução internacional, e muitos novos festivais focados na linguagem, com recortes temáticos transversais.
As entrevistas reúnem experiências distintas, regulamentos próprios e critérios curatoriais construídos ao longo de anos de atuação. O conjunto das respostas desloca o debate para questões de autoria, linguagem, trabalho artístico e responsabilidade curatorial.
O ponto de partida dessa discussão está em Annecy. Em 2024, o maior festival de cinema de animação do mundo aceitou na programação obras realizadas com uso de inteligência artificial. A decisão provocou vaias, críticas públicas e abriu um debate internacional sobre autoria, direitos e os limites da utilização dessas tecnologias no cinema.
A repercussão alcançou os festivais de diversos países. A seleção de obras produzidas total ou parcialmente com IA passou a envolver critérios estéticos, curatoriais, econômicos e jurídicos. Cada regulamento passou a responder, de maneira própria, a uma mesma pergunta: qual é o lugar da inteligência artificial dentro do cinema de animação?
As conversas estão ótimas! Com Sávio Leite, Edemar Miqueta, Alexia Araújo e Jeremías Bustingorri.
Bate bola com Sávio Leite
Idealizador do MUMIA – Mostra Udigrudi Mundial de Animação, evento sediado em Belo Horizonte e consolidado como um dos mais tradicionais do circuito brasileiro de animação.

1. Como você avalia o impacto da inteligência artificial no cinema de animação hoje — como ferramenta criativa ou como algo que pode transformar o próprio processo de criação?
Eu diria que o impacto da inteligência artificial (IA) na animação, hoje em dia, ainda é pequeno. Ainda não vi nada que me convencesse de que a animação feita à mão está ultrapassada, ou de que a IA seja superior a um cinema feito artesanalmente.
Vejo a inteligência artificial como uma ferramenta muito útil em diversas áreas do conhecimento humano — como a biotecnologia, por exemplo —, pois ela agiliza muito o processo de pensamento, o agrupamento de ideias e a busca por referências. É um processo muito rápido. No entanto, o cinema de animação feito à mão ainda possui uma força e uma potência muito grandes. Como a IA está em pleno desenvolvimento e nós estamos imersos nesse processo, é difícil avaliar o seu impacto real a longo prazo por não termos um distanciamento histórico.
De modo geral, na área artística, ainda não vi nada feito com IA que não parecesse apenas uma moda passageira. O fazer artístico continua sendo, essencialmente, algo humano.
2. O festival possui alguma regra ou posicionamento em relação ao uso de IA nos filmes inscritos? O uso de IA pode invalidar uma obra?
Não temos nenhuma regra no festival que proíba ou limite a aceitação de filmes feitos com IA. Nas duas últimas edições, já recebemos obras utilizando essa tecnologia, mas nenhum filme se sobressaiu ou se destacou. Chegamos a ver alguns curtas de Taiwan, por exemplo, que soaram com uma inteligência artificial excessivamente “artificial”. Eu ainda estou à espera de ver uma obra que me faça dizer “uau”, que tenha usado a IA de uma maneira realmente muito criativa.
O uso de IA não invalida a obra, pois fazemos questão de exibir tudo. Temos, inclusive, uma sessão chamada “Monstrengo”. Nela, colocamos os filmes que consideramos irregulares: obras com uma história boa, mas com uma realização muito ruim; ou filmes muito bem realizados, mas com uma história péssima. São produções de aspecto mais “tosco”. Com certeza, se aparecer algum filme com IA que se encaixe nesse perfil, ele entrará na categoria “Monstrengo”, mas será exibido.
3. Quantos filmes foram inscritos na última edição do festival e quantos deles são de animação?
Na última edição, recebemos 260 filmes. O nosso festival é exclusivamente voltado para a animação, portanto, todos os 260 filmes são de animação. Desse total, seis obras foram realizadas utilizando inteligência artificial.
4. Em relação às técnicas de animação (2D, 3D, stop motion, rotoscopia etc.), o festival aceita todas igualmente? O uso de IA pode ser considerado uma nova técnica dentro desse campo?
O festival aceita todas as técnicas. Considerando uma média histórica de cerca de 250 filmes inscritos por ano, a divisão das técnicas costuma ser a seguinte:
80% são em 2D.
10% são em stop motion.
5% são em 3D.
O restante (cerca de 5%) é composto por técnicas híbridas.
A IA pode surgir integrada a essas técnicas, embora, como mencionei, o processo de criação genuíno ainda dependa muito do fator humano por trás da tecnologia.
Respostas de Alexia Araújo
Idealizadora do AnimaQueer.

1. Tenho acompanhado de perto o avanço da inteligência artificial nas áreas artísticas, especialmente na animação e no audiovisual. Embora muitas vezes seja apresentada como uma ferramenta que facilita processos, percebo que ainda há uma resistência significativa do público em relação ao seu uso criativo. Isso acontece, em grande parte, porque a IA não é capaz de transmitir sensibilidade, intenção e subjetividade da mesma forma que um artista humano. A criação artística envolve nuances emocionais e experiências individuais que não podem ser plenamente replicadas por IA. Nesse sentido, não vejo a IA como substituta do artista, mas sim, no máximo, como um recurso auxiliar em etapas mais operacionais ou organizacionais do processo. A autoria e a expressão artística permanecem essencialmente humanas.
2. Nas edições anteriores do AnimaQueer, ainda não havia uma diretriz formal explícita sobre o uso de inteligência artificial, o que fez com que recebêssemos algumas obras que utilizavam esse recurso. No entanto, internamente, já adotávamos o entendimento de que filmes produzidos com IA não se alinham com a proposta do festival, e por isso não foram selecionados. Para a edição de 2026, essa posição será comunicada de forma clara no regulamento. O AnimaQueer é um espaço de valorização da animação independente e do trabalho autoral, especialmente de artistas LGBTQIA+. Consideramos fundamental preservar esse espaço como uma vitrine para produções humanas, evitando que realizadores independentes tenham que competir com conteúdos gerados por IA.
3. A edição mais recente do AnimaQueer recebeu mais de 400 inscrições. Aproximadamente um terço dessas obras eram filmes live-action, além de algumas dezenas de produções que utilizavam inteligência artificial. Ainda assim, por se tratar de um festival dedicado à animação, a curadoria selecionou exclusivamente obras animadas para a programação final.
4. O AnimaQueer aceita igualmente todas as técnicas de animação, sem hierarquização entre elas. O critério central está na qualidade artística e técnica da obra, além de sua relevância dentro do recorte temático do festival, que é a animação LGBTQIA+. Não consideramos a inteligência artificial como uma técnica de animação. A animação está diretamente relacionada ao fazer artístico humano. Por isso, obras geradas por IA não fazem parte do escopo curatorial do AnimaQueer e não serão aceitas em nenhuma edição.
Respostas de Jeremías Bustingorri
O Festival Internacional AnimaVerso foi idealizado pelos irmãos e diretores independentes Jeremías e Iván Bustingorri, ocorrendo anualmente em Florianópolis, no Centro Integrado de Cultura (CIC).
O foco é na exibição de curtas e longas-metragens de animação, mostras competitivas mundiais, palestras com grandes nomes do audiovisual, debates e feiras estilo Artists Alley voltadas ao universo geek e de games.

Jaremías: O Festival Internacional AnimaVerso tem acompanhado o crescimento de produções realizadas com uso total ou parcial da inteligência artificial nas suas últimas edições. Sendo um evento que não aceita inscrições desse tipo no seu regulamento, tem se tornado cada vez mais difícil a identificação dessas obras dentre os filmes que são enviados para curadoria.
Enquanto alguns desses inscritos informam o seu modo de criação nos dados de inscrição ou nos créditos do filme, outros dependem totalmente do olhar atento dos diretores do festival. Claro, alguns desses vídeos têm características óbvias de realização com IA generativa, tais como erros de continuidade e de anatomia nos seus personagens, enquanto outros dependem de noções sobre pelo que vídeos de IA vêm parecendo no momento, tanto em questões de cores quanto de estilos assimilados (Disney e Studio Ghibli são os mais comuns).
O AnimaVerso tem se preocupado em trazer a debate o uso de IA dentro do mercado audiovisual brasileiro e os seus efeitos, enquanto valoriza o trabalho digital ou manual de artistas com experiência na área, encorajando interessados e estudantes a desenvolverem suas próprias habilidades artísticas por meio de palestras e exibições de filmes de alta qualidade, brasileiros e estrangeiros.
Seguem os dados de inscritos na edição atual do festival:
2912 trabalhos inscritos de 115 países:
● 2601 obras internacionais.
● 343 obras nacionais.
● 2902 curtas.
● 42 longas.
Entrevista com Edemar Miqueta
Realizador de cinema de animação premiado internacionalmente, idealizador do Itaicine, Festival Internacional de Cinema de Animação, realizado na cidade de Itaiópolis, Santa Catarina.

Como você avalia o impacto da inteligência artificial no cinema de animação hoje: como ferramenta criativa ou como algo que pode transformar o próprio processo de criação?
Não sou uma pessoa avessa ao novo, muito pelo contrário, pois seria uma ingenuidade tremenda da minha parte fingir que não vi toda essa mudança acontecer na pele. Minha geração foi a encarnação dessa transição: eu vi o computador pessoal invadir a sala de casa e aposentar a máquina de escrever em troca da frieza de um processador de texto. Vi a internet nascer na raça, esperando cinco minutos inteiros para uma única imagem carregar, vi o K7 perder lugar para o CD, o VHS ser engolido pelo DVD e o brilho da película cinematográfica ser substituído por sensores digitais e pelo streaming. Eu presenciei cada uma dessas viradas de mesa. Por isso, não sou tecnofóbico; na verdade, sou um calejado que aprendeu a observar essas revoluções com desconfiança, sempre me perguntando não o que a máquina consegue fazer, mas o que ela está tentando arrancar de nós no processo.
Agora, respondendo o seu questionamento. Penso que o impacto da automação no cinema de animação é uma faca de dois gumes, e a gente precisa parar de tratar isso como uma evolução inevitável. Quando bem usada, essa tecnologia funciona como um assistente de estúdio impecável. Sabe aquele trabalho braçal, repetitivo, que suga a criatividade do animador? É ali que a máquina brilha: na matemática pura do timing, na organização dos quadros, na logística chata que, francamente, ninguém gosta de fazer. Até entendo quem vê aí uma chance de sobrevivência para o artesanal; se um pequeno estúdio consegue automatizar o processo de limpeza de traço sem ter que sacrificar a alma do desenho, eu sou totalmente a favor. É dar ferramentas, não substituir o artista.
Mas aí a gente entra no perigo real, que é essa ideia delirante de usar software para “criar” o filme inteiro. Isso não é inovação, é atrofia. A gente viu o exemplo do Spider-Verse — e, para deixar bem claro: não houve “IA generativa” ali. O que a Sony fez foi usar machine learning para resolver um pesadelo técnico de contorno 3D, mantendo o controle artístico rigorosamente nas mãos de humanos. Eles usaram a máquina para viabilizar o estilo, não para inventar um visual medíocre. Quem confunde isso e acha que basta dar um comando para uma IA criar um roteiro ou uma cena está, na verdade, abrindo mão da própria humanidade. É o início de um “apodrecimento” mental.
Quando você deixa o algoritmo decidir, você entrega a chave do seu processo criativo para uma máquina que só sabe regurgitar estatísticas. O resultado é sempre aquela coisa sem sal, esteticamente correta, mas desprovida de qualquer risco real. A arte só existe por causa do atrito: a dúvida, a falha, a escolha difícil no meio do caminho. O software não entende isso. Ele não sabe o que é o peso de uma decisão.
E o pior é o mercado querendo empurrar isso como “eficiência”. Estúdios que tentam transformar o animador em um simples “curador de resultados” estão, na prática, matando a profissão. O público não é bobo; as pessoas sentem quando não há um propósito por trás da tela. Quando você assiste a algo gerado por IA, você sente o vazio. É artificial, é estéril. No fim das contas, se você deixa o computador pensar por você, você para de ser um artista e vira apenas um operador de banco de dados. E, sinceramente? Ninguém se conecta com um banco de dados.
O festival possui alguma regra ou posicionamento em relação ao uso de IA nos filmes inscritos? O uso de IA pode invalidar uma obra?
Muita gente me pergunta se o festival possui alguma restrição ou posicionamento oficial sobre o uso dessas novas ferramentas automatizadas nas obras inscritas. Na 2ª edição do Itaicine, me vi contra a parede e fui obrigado a encarar essa realidade de frente. Quando decidimos transformar o evento em um festival exclusivo de animação, voltado para a formação de público infantojuvenil, a curadoria se tornou um campo minado. Recorri ao Sávio Leite, do MUMIA, para entender se deveríamos aceitar produções feitas dessa forma. Ele não hesitou: disse que era essencial. Aquilo me deixou em xeque. Como um admirador ferrenho da animação tradicional e do stop motion, minha tendência natural era a resistência. No fim, aceitamos, mas impusemos um critério de curadoria inegociável: a continuidade imagética.
Foi um filtro brutal. De todas as inscrições, apenas duas conseguiram passar, porque o restante carecia da mínima estrutura visual necessária. Em muitos casos, a tentativa de usar esses softwares para “complementar” o filme acabou, na verdade, drenando a força artística da obra. Para a 3ª edição, que acontece em novembro, estou planejando uma mostra não competitiva dedicada exclusivamente a produções geradas dessa maneira. Mesmo sendo um entusiasta da mão no papel e do trabalho manual, a missão do festival é a formação de plateia. Nesse momento, entendo que preciso colocar minha opinião pessoal e minha resistência técnica de lado para olhar o cenário mais amplo, sem deixar que o meu viés limite o propósito do evento.
Quantos filmes foram inscritos na última edição do festival e quantos deles são de animação?
Sobre o volume de inscrições, a conta é simples: recebemos 1290 obras ao todo na última edição. Dessas, 250 não tinham nada a ver com o nosso foco, que é exclusivamente a animação. É curioso, porque o regulamento estava ali, disponível em português e inglês para quem quisesse ler, mas parece que uma parte considerável do pessoal ou ignorou solenemente as regras ou, na base do “vai que cola”, tentou a sorte só para ver se passava batido. É o tipo de coisa que, na hora da triagem, a gente acaba filtrando na base da paciência.
Em relação às técnicas de animação (2D, 3D, stop motion, rotoscopia etc.), o festival aceita todas igualmente? O uso de IA pode ser considerado uma nova técnica dentro desse campo?
Reconheço que na 2ª edição a gente errou feio ao jogar tudo no mesmo balaio. Colocamos o 3D, o desenho feito à mão e o stop motion para competir de igual para igual, como se fossem a mesma coisa. Foi uma falha de curadoria, porque a gente ignorou que cada uma dessas artes tem seu próprio tempo, suas dores e suas limitações técnicas. Na prática, essa mistura acabou privilegiando a estética industrial e digital em cima do trabalho artesanal, que é muito mais lento e, muitas vezes, feito na raça. Foi injusto.
A partir desta 3ª edição, vamos separar as categorias para que cada técnica seja observada pelo que ela realmente é, respeitando o esforço e a materialidade de cada uma. Quanto ao uso de ferramentas automáticas, a minha posição é clara: por enquanto, elas não entram na competição principal; vão ficar restritas a uma mostra não competitiva. Acho que é o caminho mais equilibrado para quem valoriza o ofício, mas não quer fechar as portas para o que está surgindo.
Quando a curadoria entra no debate sobre a inteligência artificial
As respostas reunidas nesta coluna mostram que a inteligência artificial já atravessa o cotidiano dos festivais de animação. Não só nos festivais de cinema de animação, em todos os festivais que aceitam filmes de animação.
Ela aparece entre os filmes inscritos, exige novas formas de avaliação e leva cada equipe de curadoria a revisar procedimentos construídos muito antes da popularização das ferramentas generativas. O debate deixou o campo das projeções e passou a integrar o trabalho concreto de quem seleciona filmes.
A repercussão internacional em torno do Festival de Annecy tornou essa transformação visível. A presença de obras produzidas com inteligência artificial na programação do principal festival de animação do mundo colocou em evidência uma discussão que já circulava entre realizadores, pesquisadores e curadores. Cada seleção passou a carregar uma decisão sobre os limites entre ferramenta, autoria e criação artística.
As entrevistas revelam diferentes maneiras de enfrentar essa questão. Sávio Leite afirma que ainda não encontrou obras realizadas com inteligência artificial capazes de produzir a potência expressiva da animação construída por artistas. Alexia Araújo estabelece um posicionamento curatorial em defesa da produção independente e da autoria humana como fundamento do AnimaQueer. Jeremías Bustingorri descreve o crescimento contínuo de inscrições realizadas com IA e a necessidade de desenvolver critérios para identificá-las durante a seleção. Edemar Miqueta propõe um caminho experimental ao reservar uma mostra específica para essas produções, preservando a competição principal para técnicas desenvolvidas por animadores.
Cada resposta parte de uma experiência diferente. O conjunto delas revela um aspecto comum: a inteligência artificial ainda não eliminou o trabalho do animador nem produziu um consenso sobre seu lugar dentro da linguagem da animação. O que existe é um campo em transformação, acompanhado de perto por profissionais que assistem milhares de filmes todos os anos e observam essa mudança a partir da prática cotidiana da curadoria.
Essa percepção também aparece na pesquisa acadêmica. Estudos recentes apontam que sistemas generativos operam pela recombinação de padrões visuais já existentes, favorecendo processos de repetição formal e aproximação estética entre obras produzidas por modelos treinados sobre grandes bancos de imagens. A discussão alcança questões de autoria, diversidade visual e originalidade, elementos que sempre ocuparam um lugar central na história da animação.
A própria história da animação demonstra que cada inovação técnica ampliou as possibilidades da linguagem. O desenho sobre papel, a película, o stop motion, a computação gráfica e o 3D reorganizaram processos de produção sem eliminar a dimensão autoral da criação. A inteligência artificial passa a integrar essa trajetória histórica. Seu lugar ainda está sendo construído pelos artistas, pelos festivais e pelas instituições que legitimam o cinema.
Existe uma diferença importante entre a velocidade do mercado e o tempo da cultura. Empresas de tecnologia anunciam revoluções em ciclos cada vez mais curtos. A construção da linguagem artística acontece em outra escala. Ela depende de experimentação, circulação, crítica, reconhecimento público. E permanência histórica. Nenhum desses processos pode ser acelerado por algoritmo.
Talvez seja justamente essa a principal contribuição das entrevistas reunidas nesta coluna. Elas afastam a euforia produzida pelas plataformas digitais e aproximam a discussão do espaço onde os filmes realmente encontram o público. Os festivais continuam sendo lugares de descoberta, de formação de repertório e de reconhecimento artístico. Cada decisão de curadoria participa da construção da memória do cinema.
A inteligência artificial seguirá produzindo imagens cada vez mais sofisticadas. Os festivais continuarão recebendo essas obras. O debate permanece aberto porque a tecnologia evolui continuamente, enquanto a criação artística continua formulando perguntas que nenhuma ferramenta responde sozinha. É nesse intervalo entre inovação e imaginação que o cinema de animação continuará definindo o seu futuro.
Mas que está horrível todo audiovisual feito com IA, está.
Links úteis
Economia criativa e IA
https://reglab.com.br/os-criativos-do-futuro-ia-na-industria-criativa/
