O senador Flávio Bolsonaro oficializou nesta quarta-feira (5) o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente da República na chapa do Partido Liberal para as eleições de 2026. A definição encerra semanas de negociações dentro do partido, mas também amplia o espaço para um tema que deverá ser explorado pelos adversários durante a campanha: o histórico de controvérsias envolvendo os dois integrantes da chapa.
Ao longo dos últimos anos, Flávio Bolsonaro esteve no centro de investigações e questionamentos públicos relacionados, entre outros temas, ao caso das chamadas “rachadinhas” quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O senador sempre negou irregularidades, e parte dos procedimentos foi arquivada ou anulada em diferentes instâncias judiciais, enquanto outros desdobramentos ainda seguem sendo discutidos no Judiciário.
Agora, a escolha de Alfredo Gaspar acrescenta um novo conjunto de episódios que também têm sido utilizados pela oposição para questionar a candidatura bolsonarista. Entre eles estão uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre recursos destinados por meio de emendas parlamentares de sua autoria e uma notícia-crime apresentada à Polícia Federal pedindo a apuração de uma denúncia de suposto estupro de vulnerável. O deputado nega as acusações, afirma ser alvo de perseguição política e, até o momento, não há condenação judicial nem denúncia criminal recebida contra ele.
A expectativa é que esses episódios passem a integrar o debate eleitoral, especialmente porque adversários de Flávio Bolsonaro já sinalizam que pretendem confrontar o discurso da campanha sobre ética, combate à corrupção e segurança pública com os questionamentos envolvendo os dois candidatos da chapa.
QUEM É ALFREDO GASPAR
Natural de Maceió (AL), Alfredo Gaspar de Mendonça Neto é advogado e construiu sua carreira no Ministério Público de Alagoas, onde atuou por mais de duas décadas.
Durante esse período, comandou o Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas, foi procurador-geral de Justiça e secretário estadual da Segurança Pública.
Em 2022, foi eleito deputado federal. No início de 2026, deixou o União Brasil para ingressar no PL, legenda pela qual passou a presidir o diretório estadual em Alagoas.
Na Câmara dos Deputados, concentrou sua atuação principalmente em pautas relacionadas à segurança pública, ao combate ao crime organizado e à fiscalização da administração pública.
RELATOR DA CPMI DO INSS
A maior projeção nacional de Alfredo Gaspar ocorreu em 2026, quando foi escolhido relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) criada para investigar descontos indevidos em benefícios do INSS.
Ao final dos trabalhos, apresentou relatório propondo o indiciamento de investigados e uma série de recomendações para fortalecer os mecanismos de fiscalização.
O parecer, entretanto, foi rejeitado pela maioria da comissão, que encerrou seus trabalhos sem aprovar um relatório final.
Mesmo assim, a atuação na CPMI tornou-se um dos principais ativos políticos utilizados por Flávio Bolsonaro para justificar a escolha do novo companheiro de chapa.
AUDITORIA SOBRE EMENDAS PIX
Paralelamente à atuação parlamentar, Alfredo Gaspar passou a ser citado em uma auditoria conduzida pelo Tribunal de Contas da União.
A fiscalização analisa a aplicação de aproximadamente R$ 6 milhões destinados por meio de emendas parlamentares individuais ao município de São José da Laje, em Alagoas.
Segundo o TCU, a auditoria busca verificar a regularidade da execução dos recursos, incluindo licitações, contratos, pagamentos, documentos fiscais e demais procedimentos administrativos relacionados às obras financiadas.
Até o momento, a auditoria não concluiu pela existência de irregularidades atribuídas ao deputado.
Gaspar afirma que as emendas foram indicadas de acordo com a legislação e sustenta que a responsabilidade pela execução e prestação de contas dos recursos cabe ao município beneficiado.
O caso também motivou parlamentares da oposição a apresentarem representação à Procuradoria-Geral da República para que os fatos fossem analisados.
NOTÍCIA-CRIME POR SUSPEITA DE ESTUPRO DE VULNERÁVEL
Outro episódio que passou a integrar o debate político ocorreu após parlamentares da oposição apresentarem uma notícia-crime à Polícia Federal solicitando a apuração de uma denúncia de suposto estupro de vulnerável.
A representação pede que sejam investigadas alegações relacionadas ao nascimento de uma criança que, segundo os autores da notícia-crime, seria fruto da violência narrada.
Até o momento, não existe condenação, denúncia criminal recebida pela Justiça ou decisão judicial reconhecendo a prática do crime.
Alfredo Gaspar rejeita integralmente as acusações, afirma que elas são falsas e motivadas por interesses políticos e adotou medidas judiciais contra os autores da representação.
Sua defesa apresentou exames de DNA durante o episódio, enquanto a mulher mencionada na denúncia divulgou manifestação pública negando ter sido vítima do deputado e afirmando que ele não seria o pai de seu filho.
O caso permanece sem decisão definitiva pelos órgãos competentes.
FLÁVIO BOLSONARO TAMBÉM CARREGA HISTÓRICO DE QUESTIONAMENTOS
A escolha de Alfredo Gaspar ocorre em um momento em que o próprio Flávio Bolsonaro continua sendo associado a episódios que marcaram sua trajetória política.
O principal deles é a investigação sobre um suposto esquema de “rachadinha” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, conduzida a partir da movimentação financeira de ex-assessores.
Ao longo dos últimos anos, diferentes decisões judiciais alteraram o andamento do caso, incluindo anulações de provas e arquivamentos de etapas da investigação. Flávio Bolsonaro sempre negou qualquer prática ilícita e afirma ter sido alvo de perseguição política.
Além desse episódio, adversários políticos frequentemente retomam discussões relacionadas a investigações e representações envolvendo pessoas próximas ao senador, buscando associar esses fatos ao discurso de combate à corrupção adotado pelo grupo político.
Embora os processos tenham situações jurídicas distintas, a tendência é que esses antecedentes continuem sendo utilizados durante a campanha presidencial.
NEGOCIAÇÕES PARA A ESCOLHA DO VICE
Antes da confirmação de Alfredo Gaspar, Flávio Bolsonaro avaliou diferentes alternativas para compor a chapa.
Entre os nomes cogitados estiveram a senadora Tereza Cristina (PP-MS), a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, a deputada Simone Marquetto (PP-SP) e a deputada federal catarinense Júlia Zanatta (PL-SC).
Inicialmente, havia expectativa de que uma mulher ocupasse a vaga de vice, estratégia considerada importante para ampliar o diálogo com o eleitorado feminino e fortalecer alianças nacionais.
As negociações, entretanto, não avançaram e o PL decidiu manter uma chapa composta exclusivamente por integrantes da legenda.
JÚLIA ZANATTA ESTEVE ENTRE AS COTADAS
A deputada federal catarinense Júlia Zanatta foi um dos nomes analisados durante as articulações.
Ela recebeu manifestações públicas de apoio de integrantes da família Bolsonaro e de lideranças do partido, sobretudo em razão de sua atuação nas pautas conservadoras e da força eleitoral do bolsonarismo em Santa Catarina.
Durante o anúncio oficial da chapa, Flávio Bolsonaro agradeceu publicamente à parlamentar e a descreveu como uma “guerreira”, indicando que participou das conversas antes da definição final.
ESCOLHA DEVE AMPLIAR O DEBATE SOBRE A CHAPA
Com a confirmação de Alfredo Gaspar, a campanha de Flávio Bolsonaro inicia uma nova fase levando para a disputa presidencial não apenas suas propostas de governo, mas também um conjunto de episódios que deverá ser explorado pelos adversários.
Enquanto a campanha deverá enfatizar a experiência do vice nas áreas de segurança pública e combate à corrupção, a oposição tende a concentrar esforços nas investigações, representações e controvérsias que envolveram ambos os integrantes da chapa nos últimos anos.
O impacto eleitoral dessa estratégia dependerá da capacidade de cada lado em convencer o eleitorado sobre a relevância desses episódios para a disputa presidencial e sobre o peso que eles terão na avaliação dos candidatos ao longo da campanha.


