sábado, 12 setembro , 2026
Sebrae

Upcycling ganha espaço na moda e cria novas oportunidades para pequenos negócios

por Duda Amaral
A+A-
Reset
Coleção Perifa Jeans

O upcycling vem ganhando espaço no mercado da moda ao transformar roupas e materiais que seriam descartados em novas peças, com mais valor, personalidade e potencial comercial. Para pequenos negócios, a técnica combina criatividade, sustentabilidade e exclusividade e pode se tornar uma estratégia para reduzir desperdícios e conquistar consumidores atentos ao impacto ambiental de suas escolhas.

A prática integra um movimento mais amplo de economia circular, que busca prolongar a vida útil dos materiais e diminuir o descarte. No setor de moda, isso pode significar desde reformar uma roupa antiga até combinar partes de diferentes peças para criar um produto completamente novo.

“A grande inovação, que já é uma realidade ao alcance de todos, é a sustentabilidade impulsionada pela economia circular. Na prática, estamos falando de ações como o upcycling, o uso de matérias-primas recicladas e o desenvolvimento de produtos que durem mais”

A avaliação é de Thais Oliveira, gestora nacional de Moda do Sebrae, que destaca a sustentabilidade como uma das transformações que já fazem parte da realidade do setor.

ROUPAS DESCARTADAS GANHAM UMA NOVA HISTÓRIA

A designer de moda Lídia Keila encontrou no reaproveitamento uma forma de transformar peças consideradas sem condições de venda em produtos com identidade própria. A experiência deu origem ao brechó GatoFreud, em Goiânia.

O negócio começou aproximadamente seis anos atrás, inicialmente como um hobby. Na época, Lídia ainda trabalhava como estilista em uma empresa e começou a comercializar roupas pela internet.

Durante os garimpos, porém, ela passou a encontrar peças antigas e vintage confeccionadas com tecidos de qualidade, mas que tinham defeitos capazes de impedir sua comercialização. Foi nesse cenário que o upcycling entrou no trabalho da empreendedora.

“Eu ficava com muita pena das peças antigas, vintage, de tecidos muito nobres, mas que estavam praticamente ‘condenadas’. E aí eu comecei a pegar essas peças e transformar a modelagem, fazer alguns detalhes onde tinham os defeitos. Em paralelo vieram os bordados artísticos. Então eu uni isso à transformação das peças para salvá-las”, conta a empreendedora.

Com experiência em costura e bordado, Lídia passou a realizar intervenções nas roupas. A técnica permite reaproveitar golas, tecidos, aviamentos e diferentes partes de peças que poderiam acabar no lixo.

“Pego a gola de uma peça, coloco em outra peça em que a gola está condenada. Pego uma camisa masculina e a transformo numa peça feminina. Eu faço esse tipo de alteração usando o bordado, que é um recurso muito versátil, para fazer essa transformação na peça, esse ressignificado”, diz.

Linhas, tecidos retirados de outras roupas, cordões e aviamentos também entram no processo. A proposta é aproveitar ao máximo os materiais disponíveis e, ao mesmo tempo, criar uma peça que não seja apenas reutilizada, mas tenha uma nova identidade.

CRIATIVIDADE VIRA DIFERENCIAL PARA PEQUENOS NEGÓCIOS

Com o passar do tempo, o upcycling deixou de ser apenas uma técnica utilizada pela GatoFreud e passou a fazer parte da identidade da marca. A transformação das roupas tornou-se um dos principais elementos de diferenciação do negócio.

“Hoje eu tenho uma marca de brechó que é identificada por essa transformação. O meu lema é uma música do Belchior, ‘Alucinação’, e um trecho é: ‘Amar e mudar as coisas’. Uma peça que poderia ser uma coisa simples, que ninguém olha para ela, eu transformo quase numa obra de arte”.

O resultado é uma coleção formada por peças únicas, com forte presença artesanal e artística. O público da marca é principalmente feminino, entre 35 e 55 anos, e reúne consumidores interessados em áreas como arte, literatura e cultura.

Para Lídia, a exclusividade também responde a uma demanda crescente do mercado.

“Eu acho que é a exclusividade que o mercado tem pedido, e tem tudo a ver com o jeito que eu enxergo a moda hoje. Essa moda artesanal, com uma curadoria muito específica. Eu tento passar essa comunicação não só no ato de consumir, de reciclar, mas também na mensagem que eu tento passar nas minhas peças”, afirma.

As peças são comercializadas pelo Instagram e também presencialmente durante o Encontro de Brechós, em Goiânia.

MODA CIRCULAR PODE AMPLIAR A COMPETITIVIDADE

Além de reduzir o desperdício, o upcycling pode ajudar pequenos negócios a encontrar um posicionamento próprio em um mercado com grande variedade de marcas e produtos.

A diferenciação ganha ainda mais importância com o avanço das vendas pela internet e pelas redes sociais. Para Thais Oliveira, oferecer produtos de qualidade e criar uma experiência de compra consistente são fatores importantes para conquistar espaço.

“O desafio é se destacar em meio a tantas opções, investindo em uma boa experiência de compra, qualidade dos produtos e em uma forte presença digital”, explica.

O crescimento do comércio eletrônico também modificou o alcance dos pequenos empreendimentos de moda. Com uma estrutura digital adequada, uma marca que antes dependia principalmente de clientes da própria região pode alcançar consumidores de outras partes do país.

“Antes, um pequeno negócio de moda ficava restrito à sua região. Hoje, com uma loja online e uma boa estratégia de redes sociais, ele pode vender para o Brasil inteiro e até para o exterior”, explica a analista do Sebrae.

Nesse cenário, a produção autoral e a personalização podem funcionar como ferramentas para construir uma identidade reconhecível. Produtos que carregam uma história e apresentam características exclusivas também podem criar uma conexão mais próxima com determinados públicos.

CONSUMIDORES ESTÃO MAIS ATENTOS À SUSTENTABILIDADE

O interesse por alternativas à produção tradicional acompanha mudanças no comportamento dos consumidores. A sustentabilidade, especialmente entre públicos mais jovens, passou a influenciar a percepção sobre marcas e produtos.

Para pequenos empreendedores, essa transformação representa uma oportunidade de comunicar valores ambientais e, ao mesmo tempo, agregar significado às peças comercializadas.

O upcycling se encaixa justamente nessa proposta ao prolongar a utilização de materiais e transformar produtos existentes em novas criações. Em vez de simplesmente descartar uma roupa com algum defeito ou pouco apelo comercial, o empreendedor pode avaliar maneiras de reformulá-la e atribuir uma nova função ao material.

A estratégia, portanto, não depende apenas da preocupação ambiental. Ela também pode contribuir para a criação de produtos diferenciados e para o fortalecimento do posicionamento de uma marca.

SEBRAE OFERECE CAMINHOS PARA QUEM QUER INOVAR

Para quem pretende incorporar práticas sustentáveis ao negócio de moda, a orientação é buscar apoio especializado antes de transformar a ideia em uma estratégia comercial.

“Com tantas possibilidades incríveis, a minha maior dica é: procure a agência do Sebrae mais próxima. Apresente seus desafios e onde você deseja chegar, para que possamos desenhar juntos o melhor caminho”, orienta Thais.

O Sebrae disponibiliza conteúdos e soluções voltados aos empreendedores que desejam explorar a moda circular, a personalização e a produção autoral.

Entre as opções estão:

  • Técnicas de Upcycling: material que apresenta formas de personalizar peças, aborda técnicas de tingimento natural e mostra como produtos de segunda mão podem ser utilizados como diferencial competitivo.
  • Crie Moda Autoral: reúne soluções gratuitas para empreendedores que já trabalham com moda autoral ou desejam ingressar nesse segmento.
  • Economia circular: conteúdo que apresenta a economia circular como alternativa para produzir e consumir de maneira mais consciente, com redução de desperdícios e melhor aproveitamento dos recursos.

Para os pequenos negócios, a combinação entre reaproveitamento, criatividade e identidade pode representar mais do que uma tendência passageira. O upcycling abre espaço para que materiais antes considerados sem utilidade voltem ao mercado com uma nova história — e, principalmente, com potencial para se transformar em valor para o empreendedor e para o consumidor.


Com informações e Portal SEBRAE

Você também pode gostar