A emergência climática já deixou de ser uma preocupação distante e passou a fazer parte da realidade de empresas de diferentes setores. Para os micro e pequenos negócios, os impactos podem ser ainda mais significativos, principalmente diante de enchentes, estiagens, deslizamentos e outros eventos extremos capazes de interromper atividades, gerar perdas financeiras e ameaçar empregos.
Um exemplo recente ocorreu no Rio Grande do Sul. As enchentes registradas em 2024 atingiram mais de 600 mil micro e pequenas empresas (MPEs) no estado, evidenciando a dimensão dos riscos climáticos para quem empreende.
Ao mesmo tempo, o cenário mostra uma lacuna na preparação. Segundo dados do Centro Sebrae de Sustentabilidade, 72% das MPEs brasileiras não contam com processos formais para avaliar riscos relacionados ao clima.
Diante desse contexto, o Sebrae incluiu a resiliência climática entre os temas de seu Guia de Candidaturas, documento que reúne propostas destinadas aos candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais.
A ideia é ampliar a proteção dos pequenos negócios e, ao mesmo tempo, acelerar uma transição para modelos econômicos mais sustentáveis.
RESILIÊNCIA CLIMÁTICA GANHA ESPAÇO NAS POLÍTICAS PARA PEQUENOS NEGÓCIOS
No documento, a resiliência climática é apresentada como a capacidade de empresas e territórios de antecipar riscos, adaptar suas atividades e reagir aos efeitos das mudanças climáticas.
Para os pequenos negócios, essa preparação pode representar a diferença entre uma interrupção temporária das atividades e uma perda capaz de comprometer a continuidade da empresa.
O Sebrae defende, portanto, políticas públicas que combinem prevenção, acesso a recursos financeiros, informação e estímulo à sustentabilidade.
A proposta também considera que medidas ambientais podem trazer ganhos econômicos. A adoção de energia renovável, por exemplo, pode reduzir despesas operacionais, enquanto iniciativas de redução de desperdícios e economia circular podem abrir novas oportunidades de mercado.
CRÉDITO E ENERGIA RENOVÁVEL ESTÃO ENTRE AS PRIORIDADES
Uma das frentes defendidas pelo Sebrae é a ampliação do acesso dos empreendedores a crédito voltado para investimentos sustentáveis.
A instituição propõe mecanismos simplificados para financiar projetos como instalação de energia solar e melhorias relacionadas à eficiência energética e hídrica. A intenção é reduzir obstáculos burocráticos que podem afastar os pequenos negócios desse tipo de investimento.
É preciso ampliar o acesso a crédito, energia renovável, redução de desperdícios e práticas mais sustentáveis, ajudando os empreendedores a reduzir custos, criar oportunidades, conquistar mercados e tornar seus negócios mais competitivos e preparados para o futuro, em sintonia com a sustentabilidade.
— Rodrigo Soares, presidente do Sebrae
Outra proposta é aumentar a disponibilidade de seguros capazes de proteger empresas diante de eventos climáticos extremos. O modelo sugerido prevê participação pública e privada e mecanismos que permitam liberar recursos de maneira mais rápida quando determinadas condições climáticas forem registradas.
PROPOSTAS DO SEBRAE PARA O GOVERNO FEDERAL
Entre as medidas apresentadas para a esfera nacional está a criação de um Plano Nacional de Resiliência Climática para MPEs. A iniciativa teria como objetivo identificar vulnerabilidades de diferentes setores e estabelecer linhas de apoio preventivo.
O Sebrae também sugere um Fundo Nacional de Crédito Verde, com financiamento simplificado para projetos de energia solar e eficiência. Para operações de até R$ 500 mil, a proposta prevê a dispensa de laudos complexos.
Outra frente seria a criação da Iniciativa Brasil Circular, voltada a estimular empresas que atuem com reúso, reciclagem e remanufatura por meio de incentivos fiscais e suporte técnico.
Na área de proteção financeira, o Seguro Climático para Pequenos Negócios teria subsídio público-privado e gatilhos paramétricos para acelerar o pagamento das indenizações.
O pacote inclui ainda uma Plataforma de Inteligência Climática, que reuniria informações de órgãos como CEMADEN, INMET e ANA em uma interface acessível diretamente pelo celular dos empreendedores.
ESTADOS TERIAM PAPEL NA PREVENÇÃO E NA ADAPTAÇÃO
Para os governos estaduais, o Sebrae propõe iniciativas mais próximas da realidade de cada território.
Uma delas é o Programa Pequenos Negócios Resilientes, que ofereceria diagnósticos gratuitos de riscos e planos de continuidade empresarial em parceria com a Defesa Civil e o Sebrae.
Também aparece entre as sugestões o Crédito Verde Estadual, com juros reduzidos para a instalação de sistemas fotovoltaicos. De acordo com a proposta, os investimentos poderiam ter retorno estimado em quatro anos e proporcionar economia de até 90% na conta de energia.
A economia circular também teria uma estrutura regionalizada. A Rede Estadual de Economia Circular buscaria aproximar empresas que geram resíduos de cooperativas de catadores, criando oportunidades para reaproveitamento de materiais e geração de renda.
INFRAESTRUTURA RESILIENTE PODE REDUZIR PREJUÍZOS
As propostas estaduais não se limitam ao ambiente empresarial. O Sebrae defende investimentos preventivos em infraestrutura para diminuir a exposição dos territórios aos efeitos de eventos extremos.
O plano prevê ações como contenção de encostas, melhoria da drenagem e reflorestamento. A lógica é reduzir os riscos antes que desastres ocorram e, consequentemente, limitar os impactos sobre empresas, trabalhadores e comunidades.
Outra medida sugerida é o Selo Estadual de Pequeno Negócio Sustentável, com uma certificação ESG simplificada. Empresas reconhecidas poderiam ter preferência em compras públicas e acesso a benefícios fiscais.
PREVENÇÃO PODE EVITAR QUE CRISES CLIMÁTICAS VIREM PREJUÍZOS
Para o Sebrae, preparar os pequenos negócios para um cenário de maior frequência ou intensidade de eventos extremos exige mais do que respostas emergenciais depois dos desastres.
“Eventos climáticos extremos já afetam diretamente a rotina de quem empreende. Preparar os pequenos negócios com informação, crédito adequado e políticas de prevenção é proteger empregos e evitar que cada nova crise se transforme em prejuízo irreversível para a economia local e nacional”, aponta o coordenador do Núcleo de Assessoria Legislativa da Unidade de Políticas Públicas do Sebrae, Murilo Terra.
Nesse cenário, políticas de adaptação climática passam a ter também uma dimensão econômica. Ao reduzir vulnerabilidades, facilitar investimentos sustentáveis e ampliar instrumentos de proteção financeira, governos podem ajudar pequenas empresas a atravessar períodos de instabilidade com mais segurança.
As propostas apresentadas pelo Sebrae nos Guias de Candidaturas buscam justamente colocar os pequenos negócios no centro dessa discussão, combinando prevenção de riscos, transição energética, economia circular e acesso a crédito.
A instituição disponibiliza os documentos com as propostas para a Presidência da República e para os governos estaduais.
Com informações de Agência SEBRAE