A Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, no litoral de Santa Catarina, completa 26 anos nesta segunda-feira (14) como um dos principais exemplos de como conservação ambiental e turismo podem caminhar juntos. Em 2025, a unidade recebeu mais de 9 milhões de visitantes, segundo dados do ICMBio, tornando-se a unidade de conservação mais visitada do Brasil.
O número chama atenção especialmente por uma característica que diferencia a região de outros destinos de observação de cetáceos: a aproximação embarcada das baleias é proibida na APA desde 2013.
Em vez de colocar embarcações cada vez mais perto dos animais, Santa Catarina apostou em outra experiência. Praias, dunas, trilhas e mirantes passaram a ser os pontos de contato entre visitantes e baleias-francas, colocando o próprio território no centro da atividade turística.
UM BERÇÁRIO QUE VOLTOU A RECEBER BALEIAS
Criada para proteger uma das áreas mais importantes para reprodução da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), a APA se estende por aproximadamente 156 mil hectares e 130 quilômetros de costa, entre Florianópolis e Balneário Rincão.
A história da espécie na costa brasileira, porém, já esteve perto de um desfecho muito diferente. Décadas de caça para obtenção de óleo fizeram com que as baleias praticamente desaparecessem do litoral nacional. Entre 1973 e meados da década de 1980, não houve registros do animal no país.
O cenário mudou com os esforços de conservação. Atualmente, o Instituto Australis acompanha uma população de aproximadamente 800 indivíduos, que apresenta crescimento médio de 4,8% ao ano em uma série histórica de duas décadas.
A temporada de 2026 também trouxe sinais positivos. O primeiro animal foi avistado em maio, em um dos registros mais antecipados já observados. Em agosto, o Instituto Australis contabilizou 173 baleias em apenas um dia no trecho entre Florianópolis e Torres (RS), sendo 98 delas em Imbituba.
A recuperação da espécie ajudou a consolidar uma nova relação entre turismo e conservação.
“A experiência de observação tende a aumentar o interesse dos visitantes pela espécie. Eles procuram nosso centro para saber mais sobre o trabalho de conservação, e isso fortalece a percepção da importância de proteger esse patrimônio natural, um importante instrumento de proteção da baleia-franca”, afirma Karina Groch, bióloga e diretora de Pesquisa do ProFRANCA/Instituto Australis, Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca.
QUANDO A BALEIA DEIXA DE SER APENAS UMA ATRAÇÃO
A estratégia adotada em Santa Catarina segue uma lógica diferente da tradicional observação embarcada. Sem barcos se aproximando das enseadas utilizadas pelas fêmeas para dar à luz, a experiência turística passou a valorizar os ambientes costeiros e a contemplação responsável.
Assim, a baleia continua sendo o grande atrativo, mas a viagem envolve também conhecer praias, dunas, trilhas, mirantes, comunidades e outros elementos que formam a paisagem.
O reconhecimento internacional veio no fim de 2025. Em dezembro, a região foi declarada a primeira Área Patrimônio de Baleias (Whale Heritage Area) do Brasil e a segunda da América Latina pela World Cetacean Alliance.
A certificação considera justamente a combinação entre conservação, pesquisa científica, participação das comunidades e turismo responsável. No mundo, apenas outros 11 destinos possuem o reconhecimento, entre eles Madeira, em Portugal, e Hervey Bay, na Austrália.
TURISMO TAMBÉM VALORIZA CULTURA E CONHECIMENTO
A singularidade do litoral catarinense não está restrita às baleias. Na mesma região, uma interação rara entre pescadores artesanais e botos-nariz-de-garrafa chama a atenção.
Durante a pesca da tainha, os botos ajudam os pescadores ao sinalizar onde estão os cardumes. A prática foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial e representa uma interação registrada em apenas dois locais no mundo.
A preparação de quem trabalha com turismo também acompanha essa proposta de valorização do território.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Australis com 27 guias e condutores da APA, publicada na revista Turismo e Sociedade, da UFPR, identificou que muitos desses profissionais enxergam sua função para além da condução de passeios. Eles também atuam como educadores ambientais e como uma ponte entre o conhecimento científico e os visitantes.
Na prática, isso significa que a experiência turística passa a envolver informação e conscientização, além da contemplação da fauna.
OBSERVAÇÃO DE BALEIAS AJUDA A MOVIMENTAR A ECONOMIA NO INVERNO
A atividade ainda tem um efeito importante para os municípios do litoral sul catarinense. Como a presença das baleias ocorre principalmente durante os meses mais frios, a temporada ajuda a distribuir o movimento turístico para além do verão.
Entre junho e novembro, setores como hospedagem, gastronomia, transporte e comércio encontram uma nova fonte de demanda.
Na Canyons do Brasil, que oferece experiências de observação de baleias no sul do estado, os grupos são mantidos pequenos e os roteiros incluem capacitação com o Instituto Australis e visita ao Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, em Imbituba.
O espaço abriga o único esqueleto completo de uma baleia-franca adulta exposto no litoral brasileiro.
“Para minimizar o impacto, trabalhamos com grupos reduzidos de até 8 a 10 pessoas, sempre utilizando as trilhas, com atenção aos impactos sonoros. Anteriormente, de junho a outubro era o melhor período de observação; este ano, em abril, as baleias já começaram a chegar”, afirma Guilherme Mainieri, proprietário da empresa.
Esse formato contribui para uma atividade turística menos concentrada e mais conectada à realidade das comunidades locais — característica que aproxima a experiência dos princípios do turismo regenerativo, cuja proposta vai além de simplesmente reduzir impactos e busca deixar benefícios duradouros no território.
PROJETO DE LEI COLOCA PARTE DA APA NO CENTRO DO DEBATE
O futuro desse modelo, no entanto, está no centro de uma discussão política e ambiental.
Um projeto de lei apresentado pela deputada federal Geovania de Sá (Republicanos-SC) propõe retirar toda a área terrestre da APA da Baleia Franca. A medida atingiria aproximadamente 34 mil hectares, quase 20% da unidade de conservação.
Na última semana, a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para a proposta. Com isso, o projeto pode ser levado diretamente ao plenário, sem a necessidade de passar previamente pelas comissões técnicas.
A deputada defende que a mudança contribuiria para o chamado “desenvolvimento econômico sustentável” e afirma que a proposta busca solucionar problemas de segurança jurídica enfrentados por famílias que ocupam áreas urbanizadas antes da criação da APA.
A possibilidade de alteração, porém, provoca preocupação entre organizações ambientais e pesquisadores.
AMBIENTALISTAS ALERTAM PARA IMPACTOS SOBRE O TERRITÓRIO
Entre os argumentos contrários ao projeto está o risco de avanço da especulação imobiliária e de novas construções de grande porte na faixa atualmente protegida.
A área não é importante apenas para a baleia-franca. A APA também contribui para a proteção de espécies ameaçadas, como a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga-verde e a toninha, além de preservar ambientes costeiros fundamentais.
Restingas, dunas, manguezais, lagoas e áreas remanescentes de Mata Atlântica fazem parte desse sistema. Para pesquisadores e o ICMBio, a retirada da proteção terrestre poderia comprometer justamente os ecossistemas que dão sustentação à biodiversidade e à própria atividade turística.
A Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação classificou a proposta como um retrocesso que “carece de fundamentação técnica e jurídica”. A entidade também ressalta que quase 300 instituições participaram da definição original dos limites da APA.
CONSERVAÇÃO E DESENVOLVIMENTO PODEM CAMINHAR JUNTOS
Para representantes do setor de ecoturismo, a trajetória da APA mostra que proteger um território não significa necessariamente impedir sua utilização econômica.
Pelo contrário: a conservação pode criar novas oportunidades quando o turismo é planejado a partir dos limites ambientais e das características das comunidades locais.
“Santa Catarina prova que conservação não é o oposto do desenvolvimento, e sim o seu motor. A APA da Baleia Franca é hoje a unidade de conservação mais visitada do Brasil porque escolheu proteger em vez de aproximar. É esse modelo, baseado nos princípios do turismo regenerativo, que deve orientar o futuro do turismo de natureza no país”, afirma Lejania Malheiros, presidente da Abeta – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura.
Ao completar 26 anos, a APA da Baleia Franca chega a um momento simbólico: de um lado, celebra a recuperação de uma espécie que já desapareceu por décadas da costa brasileira; de outro, enfrenta uma discussão sobre os limites entre ocupação, desenvolvimento e preservação.
O caso catarinense mostra que a força de um destino de natureza pode estar justamente naquilo que ele decide não fazer. Em vez de aproximar o visitante das baleias a qualquer custo, a região transformou distância, proteção e conhecimento em parte da experiência — um modelo que hoje desperta atenção internacional.