A inteligência artificial (IA) está deixando de ser uma tecnologia restrita às grandes empresas e ganhando espaço entre pequenos negócios do setor de moda. Na prática, empreendedores já recorrem às ferramentas para desenvolver produtos, visualizar ideias, produzir conteúdo, analisar tendências e até automatizar parte do atendimento aos clientes.
Para Thais Oliveira, gestora nacional de Moda do Sebrae, a tecnologia pode ser especialmente útil para empresas que precisam conciliar criatividade, produtividade e recursos limitados.
“É uma ferramenta superacessível e poderosa para os pequenos negócios de moda”, afirma Thais Oliveira. “A IA pode ser usada no próprio processo criativo, auxiliando no desenvolvimento de estampas e até na criação de coleções com base em tendências identificadas em tempo real”, acrescenta.
A mudança não significa, necessariamente, substituir a criatividade humana. Em muitos casos, a tecnologia funciona como uma espécie de parceira, ajudando o empreendedor a transformar conceitos em imagens, testar alternativas e tomar decisões antes de investir na produção.
IA GANHA ESPAÇO NO PROCESSO CRIATIVO
A designer goiana Karine Brasil, que atua desde 2019 com design de joias e objetos de cerâmica, encontrou na inteligência artificial uma ferramenta para ampliar as possibilidades de seu trabalho.
Ela utiliza a tecnologia principalmente quando enfrenta algum bloqueio criativo ou pretende experimentar caminhos diferentes para uma peça. Nesse processo, a IA funciona como uma interlocutora para testar formas e ideias.
“Eu falo que a inteligência artificial virou meio que um estagiário da marca, onde eu troco ideias e tento gerar formas”, afirma.
A experiência também foi levada para a criação de peças apresentadas em um desfile em Goiânia. Em alguns momentos, Karine partiu de conceitos próprios e utilizou a IA para desenvolver os modelos. Em outros, a ferramenta participou diretamente do processo de cocriação.
Mesmo com o avanço da tecnologia, o trabalho manual continua sendo fundamental. As imagens e sugestões produzidas pela IA servem como referências que podem ser modificadas e reconstruídas no ateliê.
“Muitas vezes eu fico irritadíssima com a inteligência artificial porque ela não me dá os resultados que eu quero. E aí, como eu trabalho com material que é manual, acabo recriando em cima”, conta.
Outro uso que ganhou importância para a designer é a apresentação antecipada de produtos aos clientes. A ferramenta permite criar representações visuais capazes de mostrar como determinada peça pode ficar no corpo, além de facilitar a percepção de cores, proporções e volumes.
“Cada vez mais eu venho usando [a IA] no ateliê para facilitar que o cliente veja como essa peça vai ficar no corpo, onde ele tem percepções de tamanho, cores, volumetria. É uma coisa muito fluida. Tem ajudado bastante na forma de comunicar isso, de fazer com que a ideia saia da minha cabeça e alcance novos mercados”, afirma.
TECNOLOGIA TAMBÉM AJUDA A GANHAR TEMPO
Para Patrícia Tomaz Oliveira, designer e proprietária da marca infantil O Rato Roeu, a aproximação com a inteligência artificial começou acompanhada de algumas dúvidas.
A visão mudou durante a participação no programa de Moda do Sebrae. Aos poucos, a empreendedora percebeu que poderia incorporar a tecnologia sem abandonar a identidade autoral e o caráter artesanal da marca.
“Eu ainda não entendia muito os benefícios que ela poderia me trazer, tinha talvez até um certo preconceito, já que sou designer e venho de um mundo de criações autorais, em que o manual, o autêntico, o ‘feito por você mesmo’, é quem manda em todo processo e é o que dá credibilidade para a empresa”
Patrícia Tomaz Oliveira, designer
A IA passou a ser usada na produção de artes para redes sociais e no aprimoramento de fotografias. Mas a aplicação foi além da comunicação visual: Patrícia também implementou um sistema de atendimento automático para responder às dúvidas mais frequentes dos consumidores.
A ferramenta consegue informar se determinado produto está disponível, encaminhar o cliente para páginas específicas, inserir itens no carrinho e apoiar etapas da compra. O sistema também apresenta informações sobre a loja física e sua localização.
Quando o produto procurado não está disponível no site, o consumidor pode ser direcionado para o WhatsApp da empreendedora, evitando que o contato seja perdido.
A própria clientela passou a utilizar a inteligência artificial como parte do processo de criação. Segundo Patrícia, alguns consumidores enviam imagens produzidas por IA para explicar como gostariam que fossem determinadas peças personalizadas.
“Tenho recebido também dos clientes imagens de IA como referência para criação de peças personalizadas, o que ajuda muito a traduzir a ideia do cliente até chegarmos no design final”, diz Patrícia.
A adoção da tecnologia também trouxe uma mudança prática na rotina da empreendedora.
“A IA tem me dado tempo e reduzido minha ansiedade, já que não possuo muito tempo disponível no horário comercial e costumo trabalhar mais quando meus filhos dormem”, relata.
DIGITALIZAÇÃO VAI ALÉM DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Embora a IA esteja entre as tecnologias que mais chamam atenção atualmente, a transformação digital da moda envolve uma série de outras ferramentas e processos.
De acordo com Thais Oliveira, do Sebrae, o setor já caminha em direção a modelos de produção cada vez mais automatizados. Fábricas inteligentes e a chamada confecção 4.0 são exemplos dessa mudança, com recursos capazes de aumentar a produtividade e diminuir desperdícios.
A digitalização também alcança etapas anteriores à fabricação das roupas e acessórios.
“A digitalização abrange também o desenvolvimento de produtos, com a modelagem e a prototipagem digital, que nos permitem criar e testar peças de forma mais rápida e econômica”
Thais Oliveira, gestora nacional de Moda do Sebrae
Outro movimento apontado pela especialista está relacionado à rastreabilidade. Com consumidores mais atentos à origem dos produtos, as marcas precisam apresentar informações sobre a trajetória das peças, desde a matéria-prima até a chegada ao ponto de venda.
“Outro ponto fundamental é a rastreabilidade: o consumidor quer saber a origem do que veste. Tecnologias que mapeiam toda a jornada da peça, da matéria-prima à loja, estão se tornando essenciais para garantir transparência e agregar valor à marca”, avalia Thais.
SEBRAE AMPLIA APOIO À INOVAÇÃO NOS PEQUENOS NEGÓCIOS
Para acompanhar esse cenário, o Sebrae mantém iniciativas destinadas a ajudar pequenos empreendedores a incorporar tecnologia aos negócios.
Entre as frentes previstas está a jornada “IA Aplicada ao Design”, voltada ao uso da inteligência artificial no desenvolvimento de produtos e processos criativos. O Sebraetec também oferece serviços de inovação e consultorias que podem auxiliar empresas interessadas em adotar novas tecnologias.
Há ainda conteúdos específicos para quem deseja entender como utilizar a inteligência artificial no setor de moda. O material aborda aplicações como análise de tendências e de mercado, criação de personas e segmentação de público.
Além disso, a Jornada de IA disponibiliza um agente especializado em diagnóstico empresarial. A proposta é analisar o negócio e identificar o principal problema que pode ser trabalhado por meio de soluções baseadas em inteligência artificial.
Para os pequenos negócios de moda, a transformação digital mostra que tecnologia e criatividade não precisam disputar espaço. Quando utilizada de maneira estratégica, a IA pode assumir tarefas operacionais, facilitar a visualização de produtos e abrir novas possibilidades para que o empreendedor concentre esforços naquilo que diferencia sua marca.
O movimento também reforça uma mudança na relação entre pequenos negócios e inovação. Ferramentas que antes pareciam acessíveis apenas a grandes empresas começam a fazer parte da rotina de marcas menores, desde a criação de uma peça até o relacionamento com o consumidor.
Com informações de Agência SEBRAE