sexta-feira, 18 setembro , 2026

Comício de Lula neste sábado deve mostrar que a esquerda também é forte em Santa Catarina

por Francine Canto Boico
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Presidente e candidato à reeleição, Lula participa de ato neste sábado (19), na Praça Tancredo Neves, com expectativa de reunir milhares de militantes e caravanas de diferentes regiões de Santa Catarina

Quatro anos depois de encontrar uma Praça Tancredo Neves tomada por milhares de apoiadores, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta ao mesmo lugar neste sábado (19) para um comício em Florianópolis. O ato político está marcado para as 10h, com abertura dos portões às 08h, em frente à Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc), no Centro da capital.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

A escolha do local carrega simbolismo. Foi nessa mesma praça, em 18 de setembro de 2022, que Lula protagonizou uma das maiores mobilizações de sua campanha em Santa Catarina, justamente em um Estado que se consolidava como um dos principais redutos eleitorais da direita no país.

Naquele domingo, caravanas de diferentes regiões catarinenses chegaram a Florianópolis para acompanhar o então candidato. Lula estava acompanhado de Geraldo Alckmin, Dilma Rousseff, Janja da Silva e lideranças políticas do Estado. Os organizadores chegaram a estimar público de 45 mil pessoas.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Imagens das câmeras de monitoramento da Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina também registraram a Praça Tancredo Neves cheia enquanto Lula discursava.

Quase quatro anos depois, a campanha tenta novamente produzir uma grande mobilização no mesmo endereço. Desta vez, Lula chega como presidente da República e candidato à reeleição e divide o palanque com uma frente política mais ampla em Santa Catarina.

EVENTO DEVE RECEBER CARAVANAS DE TODO O ESTADO

A expectativa é que o comício deste sábado receba caravanas de diferentes regiões catarinenses, além de militantes, movimentos sociais, sindicatos, lideranças partidárias e apoiadores das candidaturas que integram o palanque de Lula no Estado.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

A movimentação remete diretamente a 2022. Naquela eleição, ônibus transportaram apoiadores de diferentes municípios até Florianópolis e a Praça Tancredo Neves ficou cheia durante o discurso do petista.

A dimensão daquele ato chamou atenção justamente pelo ambiente político catarinense. Em 2018, Jair Bolsonaro havia conquistado mais de 75% dos votos válidos no segundo turno em Santa Catarina. Quatro anos depois, o bolsonarismo continuava com forte presença no Estado.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Durante o próprio comício de 2022, Lula explorou essa contradição. Contou que havia ouvido que não deveria fazer campanha em Santa Catarina porque não seria bem recebido e apontou para a multidão como resposta.

Neste sábado, a campanha tenta novamente mostrar uma imagem que nem sempre aparece quando se observam apenas os resultados majoritários das eleições: embora a direita tenha avançado e conquistado ampla vantagem eleitoral no Estado nos últimos anos, a esquerda catarinense também mantém uma base expressiva e capacidade de mobilização.

IDA DE DÉCIO LIMA PARA O SEGUNDO TURNO EM 2022 MOSTROU FORÇA DA ESQUERDA MESMO COM AVANÇO DA DIREITA

Os próprios resultados das eleições de 2022 ajudam a dimensionar essa realidade. Na disputa presidencial, Santa Catarina deu ampla vantagem a Jair Bolsonaro. No primeiro turno, Lula recebeu 29,54% dos votos válidos no Estado, enquanto o então presidente conquistou mais de 62%.

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Décio Lima com Lula, Alckmin e Janja durante ato Todos Juntos por Santa Catarina, na Praça Tancredo Neves, em Florianópolis (SC), em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Na eleição estadual a votação do petista Décio Lima (PT) surpreendeu os catarinenses. Pela primeira vez uma candidatura do PT chegou ao segundo turno na disputa pelo governo catarinense. Jorginho venceu a eleição no segundo turno, mas Décio terminou a disputa com quase 30% dos votos válidos.

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Foto: Denner Ovidio / Divulgação

O resultado não alterou a predominância eleitoral da direita no Estado, mas mostrou que existe também um eleitorado relevante identificado com a esquerda e a centro-esquerda em Santa Catarina.

Quatro anos depois, é justamente essa parcela do eleitorado que o comício de Lula pretende colocar novamente nas ruas.

UM ATO SIMBÓLICO DE RESISTÊNCIA DA ESQUERDA CATARINENSE

Apesar dessa capacidade de mobilização, Santa Catarina continua sendo um dos principais desafios eleitorais para Lula. É nesse contexto que a volta à Praça Tancredo Neves ganha peso simbólico.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Um comício não representa o conjunto do eleitorado e o número de participantes não pode ser convertido diretamente em intenção de voto. Mas grandes atos funcionam como demonstração de capacidade de mobilização, ajudam a reunir militantes e aliados e produzem imagens que passam a circular muito além do espaço físico onde o evento acontece.

Para a campanha de Lula, repetir uma praça cheia de símbolos e eleitores em Florianópolis significa também disputar a narrativa de que Santa Catarina seria politicamente homogênea.

COMÍCIO TAMBÉM REFORÇA PALANQUE DE MERISIO, DÉCIO E AFRÂNIO

O comício deste sábado não será apenas sobre a eleição presidencial. Lula chega a Florianópolis com um palanque estadual formado por Gelson Merisio (PSB), candidato ao Governo, ao lado de Angela Albino (PDT) no papel de vice, e por Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL), candidatos às duas vagas de Santa Catarina no Senado.

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Candidatos e suplentes do time do Lula em SC. Foto: divulgação Campo Democrático.

Entre eles, Merisio representa talvez a trajetória política mais inesperada. Ex-presidente da Alesc e antigo quadro do PSD, ele construiu grande parte da carreira na centro-direita. Em 2018, disputou o Governo de Santa Catarina, venceu o primeiro turno e declarou voto em Jair Bolsonaro para presidente. Acabou derrotado no segundo turno por Carlos Moisés, então candidato do PSL.

Nos anos seguintes, porém, Merisio declara ter se decepcionado com a forma com que Bolsonaro administrou o país e tratou Santa Catarina, o que motivou-o a mudar de posicionamento em direção a Lula. A aproximação com o atual presidente começou em 2022 justamente por intermédio de Décio Lima, que havia sido seu adversário na eleição estadual de 2018. Merisio passou a apoiar Lula e coordenou a campanha de Décio ao governo naquele ano.

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Merisio fazendo o L de Lula. Foto: Francine Canto Boico

Em 2026, a mudança de posição ganhou uma dimensão ainda maior: filiado ao PSB, Merisio tornou-se o candidato ao Governo de Santa Catarina apoiado por Lula e por uma aliança que reúne partidos da esquerda e da centro-esquerda.

Confira vídeo em que Merisio explica por que mudou: https://www.instagram.com/reels/DYk4w_Ox9EU/

O próprio candidato afirma que sua trajetória política foi construída na centro-direita, mas que atualmente se identifica com a centro-esquerda. A aposta do grupo é que esse perfil possa ampliar o diálogo para além do eleitorado tradicional de Lula no Estado.

DISPUTA AO SENADO É UMA DAS PRIORIDADES DE LULA EM SC

A disputa pelo Senado, por sua vez, ganhou importância especial nesta eleição. Em 2026, os catarinenses escolherão dois senadores, porque dois terços das 81 cadeiras da Casa estarão em renovação em todo o país.

Para Lula, a composição do Senado terá impacto direto sobre um eventual novo mandato. A Casa participa da aprovação de autoridades indicadas pelo presidente, vota projetos e mudanças constitucionais e possui competências exclusivas, como processar e julgar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.

É nesse cenário que aparece a candidatura de Décio Lima. Ex-prefeito de Blumenau, ex-deputado federal e candidato ao Governo de Santa Catarina em 2018 e 2022, Décio mantém uma relação política próxima com Lula e declarou durante a atual campanha que a candidatura ao Senado surgiu de uma missão passada pelo próprio presidente.

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Presidente Lula e Décio Lima. Foto: Ricardo Stuckert

“Essa é uma missão que me foi passada pelo próprio presidente Lula”, afirmou Décio em entrevista durante a campanha.

A aposta não ocorre apenas no campo partidário. Pesquisas mostram Décio participando da disputa pelas duas vagas. No levantamento AtlasIntel/Grupo ND divulgado em setembro, por exemplo, ele apareceu com 19,6% no primeiro voto para senador, enquanto Esperidião Amin (PP) registrou 16% e Carlos Bolsonaro (PL), 13,4%. Considerada a margem de erro de três pontos percentuais, os candidatos estavam em uma faixa competitiva.

Os números ajudam a explicar por que a candidatura de Décio ganhou peso na estratégia do campo de Lula em Santa Catarina: há uma disputa aberta envolvendo nomes da direita e da esquerda pelas duas cadeiras.

Afrânio Boppré completa o palanque ao Senado. Economista, professor e atual vereador de Florianópolis, o candidato do PSOL já foi vice-prefeito da capital, secretário municipal e deputado estadual. A presença de dois candidatos do Campo Democrático busca aproveitar uma particularidade desta eleição: cada eleitor poderá votar em dois nomes diferentes para o Senado.

Assim, quando Lula subir ao palco neste sábado, estarão em jogo quatro disputas conectadas: a Presidência da República, o Governo de Santa Catarina e as duas vagas catarinenses no Senado.

PRAÇA TANCREDO NEVES VOLTA AO CENTRO DA CAMPANHA

A escolha da Praça Tancredo Neves coloca passado e presente lado a lado. Em setembro de 2022, milhares de pessoas viajaram até Florianópolis, ocuparam a praça e acompanharam Lula em uma campanha que terminaria semanas depois com seu retorno à Presidência.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Naquele mesmo ano, enquanto a direita ampliava sua força em Santa Catarina, Décio Lima conseguia levar o PT pela primeira vez ao segundo turno da disputa pelo governo estadual.

Agora, Lula, Décio e parte das lideranças que participaram daquela campanha voltam ao mesmo espaço. Ao lado deles estarão também Merisio, Angela, Afrânio e demais candidatos e lideranças da coligação.

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Ato Todos Juntos por Santa Catarina em 2022. Foto: Ricardo Stuckert

Neste sábado, bandeiras, caravanas, militantes, famílias e eleitores devem novamente ocupar a praça em frente à Alesc. O tamanho do ato não permitirá antecipar o resultado das urnas, mas poderá revelar algo sobre a capacidade de mobilização de um campo político que, mesmo minoritário nas últimas disputas presidenciais em Santa Catarina, continua presente na vida política do Estado.

Para quem esteve na Praça Tancredo Neves quatro anos atrás, haverá ainda uma sensação familiar: o reencontro com Lula, com antigos companheiros de campanha e com uma praça que, por algumas horas, volta a reunir diferentes gerações de catarinenses em torno de suas escolhas e expectativas para o futuro.

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