quinta-feira, 15 outubro , 2026

O tempo que nos resta

por Ana Lucia Fernandez
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O direito de viver para além do trabalho

O dia termina, mas será que conseguimos encerrá-lo?

Fechamos o computador, deixamos o local de trabalho, voltamos para casa. Ainda há mensagens a responder, tarefas a resolver, compromissos para organizar. Mesmo quando não há mais nada urgente a fazer, a cabeça continua ocupada com o que ficou pendente ou com o que precisará ser feito amanhã. O corpo para. A vida, não.

Em Favor fechar os olhos, Byung-Chul Han chama a atenção para a nossa dificuldade de concluir e encerrar. Para o filósofo, o problema não é simplesmente a aceleração, mas a incapacidade de dar fim às coisas, de reconhecer que algo chegou ao término e que outro tempo pode começar.

É preciso encerrar o dia para adormecer. Não apenas fechar os olhos de cansaço, mas poder abandoná-lo, deixar que ele termine.

Estamos tão habituados à continuidade das tarefas que até os momentos de interrupção parecem provisórios. Paramos uma atividade para começar outra. Adiamos o que não conseguimos concluir. Preenchemos os intervalos. E, quando finalmente não há mais nada a fazer, nem sempre conseguimos simplesmente estar.

O tempo parece ter perdido seus contornos.

O tempo de trabalho, na reflexão de Han, já não se limita às horas que passamos trabalhando. Ele se prolonga nas preocupações, na preparação para o dia seguinte, na necessidade de recuperar a disposição para continuar. A pausa não inaugura necessariamente um tempo diferente. Pode ser apenas um intervalo dentro da mesma lógica.

Descansamos para voltar ao trabalho. Dormimos para recuperar as forças. Tiramos férias para renovar a disposição. Até o lazer pode se transformar em uma tarefa a ser cumprida com eficiência: aproveitar bem o fim de semana, fazer valer cada dia de férias, voltar com a sensação de que o tempo foi bem utilizado.

O descanso também trabalha.

O repouso, que deveria ter valor por si mesmo, passa a ser valorizado pelo que proporciona depois dele. Descansar deixa de ser uma experiência da vida e se transforma em um meio de manter a capacidade de produzir.

Mas, se até o tempo em que não trabalhamos precisa servir ao trabalho, onde começa a nossa vida propriamente dita?

A pergunta pode parecer exagerada. Afinal, trabalhamos para viver. Precisamos de renda, de segurança material, de condições para cuidar de nós mesmos e de quem depende de nós. O trabalho também pode ser espaço de criação, convivência, aprendizado e realização. O problema não está em sua importância, mas em torná-lo a medida de todo o resto.

Uma conversa que se prolonga sem que ninguém olhe para o relógio. Uma tarde sem compromissos. Uma caminhada sem destino. O prazer de ler algumas páginas sem a intenção de aprender algo útil. Um encontro que não precisa terminar porque há outra obrigação esperando.

Essas experiências não produzem resultados que possam ser contabilizados. Seu valor está justamente em não precisarem justificar sua existência.

Precisamos de um tempo para fazer e de outro para simplesmente estar. Um tempo para produzir e outro para descobrir, contemplar, conviver, experimentar. Um tempo que não seja apenas a preparação para o que vem depois.

Quando toda pausa precisa ter uma finalidade, até a liberdade começa a se parecer com uma obrigação.

E essa perda não se distribui igualmente entre as pessoas. Há quem disponha de autonomia para organizar a própria jornada e decidir o que fazer com as horas livres. Há quem enfrente longos deslocamentos e jornadas extensas, com pouco tempo até para a convivência familiar. Há mulheres que encerram o expediente remunerado para começar outra jornada, cuidando da casa, dos filhos ou de familiares que precisam de atenção.

Ter tempo livre no relógio não significa ter condições de vivê-lo.

Por isso, a discussão sobre o tempo não pode ser reduzida a uma questão de preferência individual ou de organização pessoal. Não se trata de aprender a administrar melhor as horas ou aproveitar cada minuto. Há condições materiais que determinam quem pode dispor do próprio tempo e quem precisa entregar a maior parte dele para garantir a sobrevivência.

Han propõe uma revolução: a criação de um tempo que não seja simplesmente o tempo do trabalho, um tempo capaz de recuperar sua fragrância.

A imagem da fragrância sugere que o tempo não é apenas uma quantidade de horas à nossa disposição. Ele tem uma qualidade, uma textura, uma experiência própria. Há momentos que permanecem na memória não pelo que realizamos, mas pelo que sentimos. Há encontros que não mudam nossa trajetória profissional, não aumentam nossa renda e não resolvem nenhum problema. Ainda assim, podem dar sentido à vida.

Recuperar a fragrância do tempo é recuperar a possibilidade de viver experiências que não estejam subordinadas a uma finalidade produtiva.

Não significa deixar de trabalhar, ignorar as responsabilidades ou transformar o ócio em ideal de existência. Significa reconhecer que o trabalho é uma dimensão da vida, não a finalidade à qual todas as outras devem servir.

Que conquista maravilhosa nós, trabalhadores, tivemos ontem!

O fim da escala 6 X 1. O mínimo! O básico! O merecido!

Uma conquista que merece ser celebrada, mas que também nos lembra o quanto ainda precisamos mudar nessa lógica de trabalho que tantas vezes nos faz esquecer que trabalhamos para viver.

E não o contrário.


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