Há algo de muito inquietante em O Aniversário (Anniversary), filme do diretor polonês Jan Komasa. Não é apenas aquilo que acontece na tela, mas a maneira como acontece.
Tudo começa em uma festa de aniversário de casamento. Uma família se reúne, as pessoas conversam, trocam gentilezas, apresentam seus companheiros. Há diferenças de opinião, desconfortos e pequenas disputas, como em tantas famílias. Nada que pareça capaz de anunciar uma catástrofe.
Mas uma ideia começa a ganhar espaço. Transforma-se em livro, conquista adeptos, torna-se movimento político. E aquilo que parecia uma discussão teórica passa a reorganizar a vida de todos. Em cinco anos, o país já não é o mesmo. A família também não.
O que o filme nos mostra é a velocidade com que o inaceitável pode mudar de lugar. Primeiro, é uma ideia que nos espanta. Depois, algo que podemos discutir. Em seguida, uma possibilidade que outros defendem com entusiasmo. Quando percebemos, já estamos discutindo não mais se aquilo deveria acontecer, mas até onde estamos dispostos a aceitar que aconteça e, se acontecer, como vamos nos salvar.
É ficção. Mas a pergunta que ela deixa não pertence ao cinema.
Como uma sociedade chega a esse ponto?
E, principalmente, como pessoas comuns, que trabalham, amam, cuidam de seus filhos e desejam viver em paz, podem participar de uma transformação que ameaça os próprios direitos e liberdades?
A normalização do absurdo
As mudanças não precisam chegar anunciadas como autoritarismo. Vêm embrulhadas para presente em promessas de renovação, segurança, ordem, justiça ou recuperação de uma grandeza perdida. Uma ideia que ontem parecia inaceitável ganha espaço, passa a ser discutida como uma alternativa legítima e, pouco a pouco, deixa de provocar espanto.
A democracia não começa a morrer quando alguém fecha o Congresso. Esse pode ser o desfecho de um processo que começou muito antes, quando uma sociedade passou a considerar aceitável abrir mão dos princípios que sustentam a convivência democrática.
A democracia não pode ser indiferente a quem quer destruí-la. Mas precisa defender-se sem abandonar os princípios que justificam sua existência.
A democracia exige que pessoas com ideias diferentes possam disputar os rumos da sociedade, com liberdade para expressar suas posições e participar da vida pública. Mas isso não significa que todas as ideias sejam compatíveis com a democracia, nem que a liberdade de expressão deva servir de salvo-conduto para a defesa da violência, da supressão de direitos ou da eliminação das próprias liberdades democráticas.
Quando a discordância se transforma em justificativa para retirar direitos do outro, já não estamos diante de uma simples divergência de opiniões. Estamos diante de uma ameaça às condições que tornam possível a convivência democrática. E não basta responder a ela com argumentos: é preciso contestá-la publicamente, impedir que a violência se normalize e fazer valer os limites que protegem os direitos de todos.
Defender a democracia não é silenciar quem pensa diferente. É impedir que alguém conquiste o poder de decidir quem ainda terá o direito de falar.
A política dentro de casa
Aqui está a força perturbadora do filme. Os personagens não são apenas vítimas de uma transformação que acontece do lado de fora. Suas ambições e seus ressentimentos fazem parte de suas escolhas. O autoritarismo se aproveita justamente daqueles vínculos que julgávamos inabaláveis.
A transformação política não acontece apenas nos palácios, nos parlamentos ou nas ruas. Ela entra na sala de jantar, senta-se à mesa com a família e passa a interferir em quem pode falar, quem merece ser ouvido e quem deve ser tratado como inimigo.
Em O Aniversário, a transformação da sociedade não permanece restrita aos grupos que inicialmente a apoiam. Ela alcança também pessoas que imaginavam estar protegidas por sua posição, por suas relações ou pela confiança que depositavam no sistema.
O que fica bastante claro é que o perigo não está apenas naqueles que querem mudar as regras do jogo, mas também na facilidade com que a sociedade tolera cada mudança, desde que ela pareça favorecer suas próprias convicções.
Quando o absurdo se instala, raramente chega com esse nome. Chega como solução, como necessidade, como exceção. E quase sempre encontra alguém disposto a explicar por que, desta vez, vale a pena abrir mão de um princípio.
Mas o autoritarismo não faz concessões permanentes aos seus apoiadores. Quando as regras deixam de valer para todos, ninguém pode ter certeza de que continuará protegido por elas. Alguns dos que ajudaram a abrir caminho para a barbárie podem descobrir, tarde demais, que a reforma que aplaudiram não era exatamente aquela que imaginavam. Outros, é verdade, não terão do que se arrepender. A violência contra o diferente, afinal, pode não ser um efeito colateral, mas justamente aquilo que desejavam.
Sim, embora aos nossos olhos isso possa parecer irreal, o ser humano também é constituído por seus medos, traumas e ressentimentos. Acontece que nem todos escolhem compreendê-los e elaborá-los. Alguns preferem transformá-los em armas contra aquilo que não compreendem ou não aceitam. O desafio aqui é impedir que continuem conquistando terreno, que encontrem novos adeptos e que se tornem aceitáveis aos olhos de quem jamais desejou seus efeitos mais perversos.
Porque o objetivo não é convencer todos os que desejam a barbárie. É fazer com que sejam cada vez menos, tenham cada vez menos poder e encontrem cada vez menos silêncio cúmplice.
Que luta estamos travando, meus amigos. Que luta! Em alguns momentos, ela parece ir muito além das nossas forças. Ainda assim, precisamos acreditar que vale a pena lutar por uma humanidade capaz de olhar para si mesma, compreender suas contradições e superar aquilo que a diminui. Uma humanidade mais íntegra, que não confunda força com violência, liberdade com privilégio ou diferença com ameaça. Uma humanidade que possa viver em paz, sem precisar negar ao outro o direito de existir.
Aristóteles pensava a arte como imitação da vida. Oscar Wilde inverteu a perspectiva ao sugerir que a vida imita a arte. Diante do que vemos acontecer no Brasil e no mundo, talvez essa disputa pouco importe. A ficção não precisa reproduzir a realidade para nos ajudar a reconhecê-la. E a realidade não precisa copiar um roteiro para que os sinais de perigo sejam evidentes.
A questão fundamental é saber quantas exceções uma democracia pode suportar antes que já não reste muito a defender.
Por isso, se me permitem um pedido, brasileiros: despertem, por gentileza. Não esperem que a história chegue ao último ato para descobrir que já não têm o direito de sair da plateia e contestar o roteiro.