Tenho três histórias relacionadas a salas de cinema, que considero um tanto engraçadas.
Vou contá-las na ordem em que aconteceram.
A primeira foi na adolescência, no Cine São José.
Não me lembro qual era o filme.
Eu tinha levado para o cinema um saquinho daqueles amendoins confeitados. Foi bem difícil de abrir, o que já fez um barulho danado. Acontece que, por algum motivo que até hoje não entendi, o saquinho pulou da minha mão e os amendoins foram caindo um a um, fazendo o maior barulho no chão de madeira do cinema.
Várias pessoas incomodadas pedindo silêncio e eu, adolescente, morrendo de vergonha.
Não bastasse isso, uma senhora saiu do lugar, provavelmente para ir ao banheiro, e escorregou num dos amendoins. Fez aquele movimento de cai não cai, sabe? Tentando se segurar no ar para não se estatelar no chão.
Ainda bem que conseguiu. Ufa!
A segunda aconteceu lá pelos anos 1980, no Cine Cecomtur.
Entrei num cinema lotado, com a sessão já iniciada. Estava com meu primo. Fomos tentando adaptar a visão à medida que subíamos as escadas e, de repente, achei bem no meio da sala, num lugar fantástico, duas cadeiras vazias.
Devia ter desconfiado que havia alguma coisa errada. Era esperar demais encontrar dois lugares tão bons num cinema completamente lotado.
Bem, atrapalhando e desconcentrando todo mundo, com vários “com licença” (não tenho mais como prática essa falta de respeito que tinha aos 18, 19 anos. Hoje chego sempre mais cedo ou não vou), conseguimos chegar às cadeiras.
Meu primo sentou primeiro. Quando fui me sentar, descobri que minha cadeira não tinha encosto! Não conseguimos perceber por causa do escuro.
O som foi aquele: vupt!
Caí para trás com os pés para cima e bati com a cabeça no joelho do homem que estava sentado atrás de mim. A maior confusão!
O pessoal por perto tentando me ajudar a levantar, uma gargalhada geral e, ao mesmo tempo, a maioria das pessoas naquele conhecido “shhhhh, shhhhh!”.
Tivemos então que sair daquele lugar e, novamente, vários “com licença”. Acabamos sentados nas escadas.
Eu tive um acesso de riso e levei um bom tempo até conseguir me concentrar no filme.
Curiosamente, era um dos filmes mais tristes que já vi na vida: A escolha de Sofia, que deu a Meryl Streep o Oscar de melhor atriz.
A terceira história aconteceu muitos anos depois, num cinema de shopping.
Fui sozinha ao cinema, num domingo à tarde, para assistir a Budapeste, filme baseado no livro de Chico Buarque.
Cheguei cedo, comprei meu ingresso e fui uma das primeiras pessoas a entrar, assim que liberaram a sala.
Achei meu lugar e sentei.
Um pouco depois chegou um casal e veio direto na minha direção.
O homem falou:
“Moça, acho que a senhora está sentada na minha cadeira.”
Apresentei meu ingresso e respondi:
“Olha, acho que não. Veja.”
O cinema estava enchendo e algumas pessoas já começavam a prestar atenção ao nosso imbróglio.
Ele olhou o ingresso dele e me mostrou também. Mesma fila, mesma cadeira!
Pensamos juntos: que estranho, venderam o mesmo lugar para nós dois.
Havia por ali um rapaz que trabalhava no cinema. Chamamos. Ele veio, reconheceu que havia algo errado e saiu dizendo que ia verificar.
Nós três (eu e o casal) em pé, no meio do cinema, sem saber muito bem o que fazer.
Foi quando o homem comentou:
“Nossa, não sabia que ia ter tanta gente para assistir a A mulher invisível. Essa Luana Piovani faz coisa!”
Aí me caiu a ficha!
“Essa sala é para assistir a A mulher invisível?”
Ele me olhou de um jeito meio estranho:
“Sim, não é esse o filme que a senhora veio ver?”
Rindo de nervoso, respondi:
“Não! Estou na sala errada. Fila certa, cadeira certa, mas sala errada!”
Morrendo de vergonha, saí rapidíssimo, sem olhar para trás.
No caminho encontrei o funcionário do cinema, que estava verificando o erro. Quando ele chegou perto de mim, fazendo menção de falar alguma coisa, fui mais rápida:
“Já está tudo resolvido!”
Fui para a sala certa e adorei o filme.
Mas por que resolvi contar essas histórias justamente nesta semana?
Engraçado como a memória funciona. Uma situação puxa outra, uma imagem chama outra. Estava pensando em A escolha de Sofia, aquele filme que me deixou uma das lembranças mais dolorosas do cinema.
É difícil esquecer a história de uma mãe que, prisioneira dos nazistas, é obrigada a escolher qual de seus dois filhos será poupado. Ou ela escolhe ou ambos serão levados. Uma crueldade que ultrapassa qualquer possibilidade de compreensão.
Imagina o horror. Um horror produzido por um regime que deveria servir de advertência para sempre sobre até onde podemos chegar quando a desumanização se transforma em projeto de poder.
Mas não. Continuamos produzindo mais e mais horrores. A vida humana continua submetida à ambição de poder, enquanto populações civis são transformadas em instrumentos ou alvos de disputas e a violência vai sendo naturalizada.
Basta olhar para Gaza, para a guerra entre Rússia e Ucrânia, para os conflitos que envolvem Irã e Líbano e para tantas crises humanitárias em diferentes países africanos, onde populações inteiras pagam o preço das disputas de poder, da intolerância e da supremacia de uns sobre os outros.
São horrores que nos confrontam com uma pergunta difícil: como é possível que a humanidade continue produzindo tudo isso?
Não para amenizar nada disso. Mas porque as lembranças daqueles três momentos atrapalhados, que vieram acompanhadas da lembrança dolorosa do filme, me fizeram bem. Resolvi juntar tudo num texto sobre luta e esperança. Para a gente ir recobrando as forças, também.
Pois precisamos continuar atentos, vigilantes e dispostos a lutar contra tudo aquilo que ameaça a vida e a liberdade. Mas também precisamos preservar nossa alegria, nossa capacidade de amar, de conviver e de encontrar motivos para celebrar.
Aliás, acabamos de viver um momento importante nessa direção.
No dia 25 de outubro, os brasileiros foram às urnas e reafirmaram, pelo voto, seu compromisso com a democracia. Foi uma mobilização acompanhada com atenção pelo mundo.
E ontem, nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o Partido Democrata conquistou uma vitória expressiva, assumindo o controle da Câmara e Senado.
Há quem estabeleça uma conexão entre nossa mobilização e o que aconteceu nos Estados Unidos. Que bom pensar que a mobilização brasileira em defesa da democracia possa estar inspirando outros povos. Somos exemplo e força. Nossa experiência pode alimentar a esperança de quem, em outras partes do planeta, também está empenhado em preservar suas instituições democráticas.
Temos muitos motivos para seguir juntos. Para nos reconhecermos como parte de um mesmo planeta, construirmos mais coesão entre os povos e fazermos da paz um horizonte comum. E ainda há muito a fazer.
Vamos com coragem!
Gosto dessa palavra. Sua origem remonta ao latim coraticum, ligado à cor, coração. Carrega, portanto, essa ideia bonita de bravura que nasce da força do coração.
Domingo passado, uma semana após as eleições, por volta das 9h30, saí para comprar limões na quitanda perto de casa. Queria temperar um peixe para o almoço.
Saí assim, de banho tomado, com os cabelos molhados e um vestido leve.
A brisa da primavera soprava suave, o céu estava muito azul e as árvores da avenida Hercílio Luz balançavam devagar.
Que sensação boa!
Estar leve, sentir a brisa, o cheiro e a alegria de uma primavera que entrou para a nossa história.