Estado alcançou os melhores resultados de sua série histórica, mas diferença entre o desempenho agregado de todas as escolas e o resultado específico da rede estadual abriu debate sobre a situação da educação pública catarinense
O IDEB em Santa Catarina avançou nas três etapas avaliadas em 2025 e alcançou os maiores resultados da série histórica do estado. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o índice chegou a 6,7, colocando SC entre os três melhores resultados do país. O desempenho, porém, reúne escolas de diferentes dependências administrativas e não representa isoladamente a rede estadual.
De acordo com os dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Santa Catarina passou de 6,4 para 6,7 nos anos iniciais, de 5,2 para 5,4 nos anos finais do ensino fundamental e de 4,2 para 4,5 no ensino médio, entre 2023 e 2025.
Os números foram divulgados em agosto de 2026 e têm 2025 como ano de referência.
O resultado levou o governo estadual a destacar o desempenho catarinense. Ao mesmo tempo, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação na Rede Pública de Ensino de Santa Catarina (Sinte/SC) questionou a comparação utilizada para apresentar a posição do estado no ranking nacional, argumentando que o desempenho agregado não deve ser confundido com o resultado específico das escolas estaduais.
A diferença entre os dois recortes ajuda a entender por que o IDEB de 2025 permite interpretações distintas sobre a situação da educação catarinense.
IDEB EM SANTA CATARINA CHEGA A 6,7 NOS ANOS INICIAIS
O maior desempenho catarinense aparece entre os estudantes do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Segundo o Inep, o índice de Santa Catarina passou de 6,4 em 2023 para 6,7 em 2025. No cenário nacional, o resultado colocou o estado entre os melhores do país nessa etapa, atrás de Paraná e Ceará.
É necessário, entretanto, observar qual universo está sendo comparado. O IDEB de 6,7 representa o resultado de Santa Catarina considerando conjuntamente as redes que entram no indicador estadual, e não apenas as escolas administradas pelo Governo do Estado.
Quando o recorte é restrito à rede pública catarinense, o próprio Inep informa resultado de 6,5 nos anos iniciais, ante 6,2 em 2023. Essa diferença é central para interpretar corretamente os números.
ANOS FINAIS E ENSINO MÉDIO TAMBÉM AVANÇAM
Nos anos finais do ensino fundamental, entre o 6º e o 9º ano, o IDEB catarinense aumentou de 5,2 para 5,4. Já considerando somente a rede pública, o indicador passou de 4,9 para 5,2, conforme o levantamento oficial do Inep sobre Santa Catarina. A distância em relação aos anos iniciais permanece significativa. Enquanto o primeiro segmento do ensino fundamental chegou a 6,7, os anos finais ficaram em 5,4.
No ensino médio, Santa Catarina avançou de 4,2 em 2023 para 4,5 em 2025. O resultado acompanha um problema encontrado também no restante do Brasil: o IDEB diminui conforme os estudantes avançam pelas etapas da educação básica. Na média nacional, segundo os resultados do IDEB 2025 divulgados pelo Inep, o Brasil registrou 6,3 nos anos iniciais, 5,3 nos anos finais e 4,5 no ensino médio.
Santa Catarina, portanto, ficou acima da média brasileira no ensino fundamental e no mesmo patamar nacional no ensino médio, considerando o indicador agregado.
SINTE QUESTIONA COMPARAÇÃO USADA PARA DESTACAR RESULTADO ESTADUAL
A divulgação dos números abriu uma disputa sobre a forma como o desempenho catarinense deve ser interpretado. Em uma análise sobre a evolução do IDEB elaborada pela assessoria econômica do Sinte/SC, o sindicato argumenta que a colocação de Santa Catarina entre os primeiros estados nos anos iniciais não representa o desempenho isolado das escolas administradas pelo governo estadual.
Segundo o levantamento sindical, a rede estadual catarinense obteve IDEB 6,3 nos anos iniciais. A entidade sustenta que, quando são comparadas exclusivamente as redes estaduais brasileiras, a posição catarinense é inferior àquela observada no indicador agregado do estado.
O Sinte também compara a trajetória catarinense ao longo da série histórica. De acordo com a análise da entidade, Santa Catarina chegou a ocupar posições de liderança nacional nas primeiras edições do IDEB, incluindo os anos iniciais e finais do ensino fundamental, mas perdeu posições ao longo da década seguinte.
O sindicato associa esse movimento a problemas estruturais da rede estadual, entre eles a elevada participação de professores temporários e questões relacionadas à carreira e à remuneração do magistério.
GRANDES CIDADES MOSTRAM O PESO DAS REDES MUNICIPAIS

Os resultados das maiores cidades catarinenses ajudam a entender por que é importante separar o desempenho da rede estadual daquele alcançado pelo conjunto da educação de Santa Catarina. Municípios administram parte significativa das escolas de ensino fundamental e, em algumas cidades, suas redes apresentam IDEB superior ao resultado estadual.
Na capital, Florianópolis chegou a 6,7 nos anos iniciais do ensino fundamental em 2025, colocando a rede municipal no mesmo patamar do resultado geral de Santa Catarina nessa etapa. O desempenho também ficou acima da média brasileira, de 6,3 considerando todas as redes.
O resultado ganha relevância porque a trajetória de Florianópolis no indicador mostra avanço em relação aos primeiros anos da série histórica. Como o IDEB combina desempenho dos estudantes no Saeb com taxas de aprovação registradas pelo Censo Escolar, a evolução precisa ser interpretada considerando simultaneamente aprendizagem e fluxo escolar, conforme estabelece a metodologia oficial do IDEB do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
O desempenho da capital, entretanto, também precisa ser observado por etapa. Assim como ocorre no restante de Santa Catarina, os resultados são mais elevados no começo do ensino fundamental e diminuem à medida que os estudantes avançam pela educação básica. Isso reforça a necessidade de evitar que um único número seja utilizado para caracterizar toda a educação de uma cidade.
Entre as maiores cidades catarinenses, Joinville aparece como um dos principais destaques. A rede municipal alcançou 7,1 nos anos iniciais e 6,0 nos anos finais em 2025. O resultado dos anos iniciais representa avanço sobre os 7,0 registrados em 2023. Já nos anos finais, o município manteve o patamar de 6,0.
Blumenau também permaneceu entre os melhores desempenhos das grandes cidades catarinenses. A rede municipal chegou a 6,7 nos anos iniciais em 2025, ante 6,6 na edição anterior, enquanto os anos finais permaneceram em 5,7.
Dessa forma, entre as três cidades, Joinville apresentou o maior resultado nos anos iniciais: 7,1, contra 6,7 de Florianópolis e 6,7 de Blumenau.
A comparação, porém, exige cautela. O IDEB municipal apresentado para essas cidades corresponde ao desempenho de redes específicas e não necessariamente a todas as escolas existentes no território municipal. Uma cidade também abriga escolas estaduais, federais e particulares, cujos resultados não devem ser automaticamente atribuídos à prefeitura.
Por isso, tanto a posição de Santa Catarina no país quanto a situação da educação pública estadual precisam ser analisadas separadamente. Os resultados de Florianópolis, Joinville e Blumenau mostram que parte importante do bom desempenho catarinense nos anos iniciais é construída dentro das redes municipais.
Os exemplos demonstram que parte do desempenho educacional de Santa Catarina também é construída pelas redes municipais, responsáveis por parcela expressiva do ensino fundamental.
O QUE É O IDEB E POR QUE APROVAÇÃO TAMBÉM ALTERA O ÍNDICE
Criado em 2007, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica reúne duas dimensões diferentes da trajetória dos estudantes. Segundo a metodologia oficial do IDEB apresentada pelo Inep, o indicador combina fluxo escolar e desempenho nas avaliações educacionais e varia de zero a dez. A aprendizagem é medida principalmente por meio do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que avalia conhecimentos como língua portuguesa e matemática.
As informações sobre aprovação, reprovação e abandono são obtidas pelo Censo Escolar.
Isso significa que uma melhora na taxa de aprovação pode contribuir para elevar o IDEB, mas não é suficiente sozinha para produzir um bom resultado. Se os estudantes avançarem de ano sem melhora na aprendizagem, o desempenho no Saeb atua no sentido contrário.
O próprio Inep explica que a combinação foi criada justamente para evitar que sistemas sejam beneficiados exclusivamente por reprovar estudantes com dificuldades ou, no sentido oposto, por acelerar aprovações sem aprendizagem correspondente.
REGRA DE APROVAÇÃO DA REDE ESTADUAL ENTRA NO DEBATE
Uma das críticas apresentadas pelo Sinte/SC envolve mudanças nos critérios de aprovação adotados pela rede estadual. A entidade argumenta que a adoção da chamada média global, pela qual o desempenho geral do estudante passou a ter peso na decisão sobre sua progressão, pode elevar as taxas de aprovação e, consequentemente, afetar o componente de fluxo utilizado pelo IDEB.
A crítica precisa ser analisada à luz da própria metodologia do indicador. Como o Inep confirma que a taxa de aprovação integra o cálculo, mudanças no fluxo escolar podem matematicamente influenciar o IDEB.
Isso, porém, não permite concluir apenas pelo resultado agregado que a melhora catarinense tenha sido provocada pela alteração dos critérios de aprovação. Para estabelecer essa relação seria necessário separar a evolução do fluxo da evolução das proficiências no Saeb e analisar os dois componentes.
IDEB NÃO MEDE SOZINHO TODA A QUALIDADE DA EDUCAÇÃO
Essa também é uma das limitações importantes do indicador. O IDEB não mede diretamente infraestrutura escolar, tamanho das turmas, condições de trabalho, formação e remuneração dos professores, inclusão, segurança escolar ou desigualdades socioeconômicas entre os estudantes. De acordo com o próprio Inep, sua função é sintetizar rendimento escolar e aprendizagem medida pelas avaliações.
Por isso, comparar estados, municípios ou escolas exige observar não apenas o número final, mas também qual rede está sendo analisada, o perfil dos estudantes, as taxas de aprovação e os resultados de aprendizagem.
SANTA CATARINA AMPLIA POLÍTICAS DE AVALIAÇÃO E ALFABETIZAÇÃO
Paralelamente ao IDEB, Santa Catarina passou a ampliar seus próprios instrumentos de acompanhamento da aprendizagem. O Estado implantou o Sistema Estadual de Avaliação da Educação Básica de Santa Catarina (SEAESC), criando uma avaliação própria para acompanhar diferentes etapas da rede pública e fornecer informações para intervenções pedagógicas.
Outra frente envolve a alfabetização. A Assembleia Legislativa analisa uma Política de Alfabetização do Território Catarinense, apresentada pelo Executivo estadual. Entre os objetivos está garantir a alfabetização das crianças até o fim do 2º ano do ensino fundamental e ampliar a articulação entre Estado e municípios.
A política é especialmente relevante porque os resultados mais elevados de Santa Catarina aparecem justamente nos primeiros anos da escolarização. O desafio é fazer com que esse desempenho seja sustentado nas etapas seguintes.
IDEB 2025 MOSTRA AVANÇO, MAS TAMBÉM DIFERENÇAS DENTRO DE SC
Os resultados de 2025 confirmam que Santa Catarina avançou no principal indicador nacional de acompanhamento da educação básica. O estado chegou a 6,7 nos anos iniciais, 5,4 nos anos finais e 4,5 no ensino médio, alcançando os melhores resultados de sua série histórica.
Ao mesmo tempo, a análise por dependência administrativa mostra que o resultado agregado de Santa Catarina não pode ser usado automaticamente como sinônimo do desempenho da rede estadual.
Redes municipais com indicadores elevados, como Joinville e Blumenau, e a participação das demais dependências administrativas ajudam a compor o resultado catarinense.
É justamente nessa diferença que se concentra a divergência entre o discurso de celebração dos avanços e as críticas apresentadas pelo Sinte/SC.
Mais do que definir uma única leitura sobre a educação catarinense, o IDEB 2025 mostra duas realidades simultâneas: Santa Catarina avançou e permanece bem posicionada nacionalmente, mas os resultados variam significativamente conforme a etapa e a rede de ensino analisada.


